A primeira vez que a CEO e cofundadora da CloQ, Rafaela Cavalcanti, percebeu o problema que viria a resolver não foi em um relatório de mercado, mas sim, dentro de casa. Crescendo em uma família de pequenos empreendedores, ela viu de perto uma realidade comum, mas pouco discutida: o acesso ao crédito. “Eu cresci vendo minha mãe pegar dinheiro com agiota. Era tão comum que eu nem via como um problema”, recorda.
A virada de chave veio quando um amigo apontou o óbvio. Não era algo normal, mas um problema estrutural. O acesso ao crédito no Brasil combina escala e desigualdade: o país soma trilhões de reais em operações ativas, mas ainda impõe barreiras relevantes para pessoas físicas e pequenos empreendedores, especialmente diante dos juros elevados e do alto nível de endividamento das famílias. Ou seja, quem já tem histórico recebe ofertas constantemente; quem não tem, simplesmente não existe para o sistema.
É nesse mercado que atua a CloQ, fintech brasileira de impacto social que auxilia brasileiros a construírem um histórico de crédito positivo, seguro e inclusivo por meio do nano-crédito como porta de entrada para o sistema financeiro. Com mais de 12 mil clientes ativos, a empresa consolida sua atuação junto a públicos historicamente excluídos do sistema financeiro tradicional. A operação, 100% digital, já concedeu mais de 30 mil nano-empréstimos, com valores entre R$ 100,00 e R$ 500,00, registrando tíquete médio de R$ 250,00 por mês e movimentando mais de R$ 7 milhões.
Rafaela explica que 22% dos clientes tiveram acesso ao primeiro crédito formal da vida por meio da plataforma. “Muitas pessoas ficam de fora não por falta de capacidade de pagamento, mas por ausência de histórico. A CloQ nasce para oferecer uma alternativa estruturada e justa a esse público”.
O erro da matrix: confundir ausência de dados com risco
Se existe um consenso no mercado, é este: baixa renda é sinônimo de alto risco. Neste sentido, a lógica tradicional do mercado financeiro é simples e excludente: sem histórico, sem crédito. Para a CloQ, a ausência de dados não significa ausência de capacidade. “O principal mito é que essas pessoas não pagam”, diz Rafaela.
A CloQ desenvolveu um modelo próprio de análise baseado em inteligência artificial e dados alternativos, que vão além de renda e score. A tecnologia cruza desde informações cadastrais até padrões de comportamento no aplicativo, permitindo avaliar risco de forma mais ampla e inclusiva. Na prática, isso significa olhar para sinais que o sistema tradicional ignora, como, por exemplo, consistência de uso, hábitos digitais e até padrões de interação.
Segundo Rafaela, os números contam outra história. A inadimplência, que chegou a 40% nos testes iniciais, hoje gira em torno de 9%, nível considerado competitivo até em comparação com grandes instituições. Mais do que isso: a taxa de retorno dos clientes chega a 98,8%, indicando não apenas pagamento, mas recorrência e fidelidade. “Eles não entendem de juros, mas entendem de pagar”, resume Rafaela.
Crédito não é renda
Ao lidar com um público que nunca teve acesso ao crédito formal, a CloQ descobriu um segundo desafio: não basta oferecer, é preciso ensinar. Rafaela explica que, nos primeiros testes, a empresa percebeu um comportamento recorrente: usuários buscavam limites maiores, independentemente da necessidade real.
A resposta veio no próprio produto.Em vez de apostar apenas em conteúdo educativo, a fintech incorporou mecanismos de educação financeira dentro da experiência: travas de tempo entre empréstimos, mensagens contextuais e limites progressivos condicionados ao comportamento. A lógica é simples: aprender usando. “Crédito tem custo. Ele precisa ser uma necessidade, não um consumo”, afirma a CEO da CloQ.
Design como ferramenta de inclusão
Outro ponto central da estratégia está no produto, que foi pensado para um público com renda de até dois salários mínimos e, muitas vezes, com baixa escolaridade. O aplicativo da CloQ foi desenhado para ser acessível, com menos texto, mais imagens, linguagem simplificada e jornada guiada. O objetivo é tornar o crédito compreensível e não apenas acessível. Todo o fluxo, da análise à contratação, acontece dentro do app.
Crescimento no boca a boca
Diferente de grande parte das fintechs, a CloQ segue um caminho pouco comum: crescimento orgânico. Sem investimento externo e sem gastos com marketing, a empresa cresce principalmente por indicação dos próprios usuários. “Cada cliente que entra traz outros dois, três, quatro”, conta Rafaela.
A expectativa é manter o ritmo e dobrar a operação até o final de 2026, ampliando o alcance sem perder o foco no modelo atual.
Apesar do crescimento, a ambição da CloQ não é competir com bancos tradicionais. Pelo contrário. A fintech se posiciona como um primeiro passo, uma ponte entre a exclusão e o sistema financeiro formal. A ideia é que, após construir histórico, o cliente avance para outras instituições, com acesso a produtos mais robustos. “Queremos abrir portas. Depois disso, o cliente pode ir para onde quiser”, ressalta a CEO da CloQ.
O futuro: IA, crédito e revisão de modelos
Para Rafaela, o setor está entrando em uma nova fase. Depois da onda das carteiras digitais, o crédito volta ao centro, agora impulsionado por inteligência artificial. Mas há um alerta. “Não adianta dizer que usa IA. O que importa são os dados. Se você usa dados errados, a IA só escala o erro”.
No caso da CloQ, a decisão foi construir tecnologia própria, treinada especificamente para o perfil de clientes atendidos, evitando distorções comuns em modelos genéricos.
Problema não é risco
A tese da CloQ é direta: o problema do crédito no Brasil não é risco, é acesso. E, quando esse acesso é dado de forma estruturada, o comportamento muda. Ou, como resume Rafaela: “Quando a oportunidade aparece, eles não deixam passar”.

