A mais recente avaliação do Sebrae Startups sobre o ecossistema nacional de startups, baseada no perfil das mil selecionadas para a edição de 2025 do Prêmio Sebrae Startups, traça um retrato abrangente da maturidade, da distribuição regional e das tendências tecnológicas que hoje definem a inovação no Brasil. Produzido pelo Observatório Sebrae Startups, o estudo confirma a liderança histórica do Sudeste, puxada por São Paulo, mas evidencia o avanço consistente de polos fora do eixo tradicional, com destaque para Santa Catarina e para estados que atuam como âncoras regionais no Nordeste, Centro-Oeste e Norte. As inscrições para a edição 2026 do Prêmio Sebrae Startups estão abertas até o dia 30 de abril.
O levantamento também revela um ecossistema que conta com startups maduras, com modelos de receita previsíveis, forte predominância do software e do B2B, crescente adoção de inteligência artificial e foco em escalabilidade. Ao mesmo tempo, aponta desafios estruturais, como a concentração de capital de risco, lacunas de diversidade entre fundadores e o fato de mais da metade das empresas ainda crescerem sem investimento privado, apesar do alto apetite por recursos para expansão.
Sudeste lidera, mas Santa Catarina se destaca
A distribuição geográfica das startups selecionadas revela um panorama que combina concentração nos grandes centros com uma crescente descentralização da inovação no país. A região Sudeste manteve sua posição como principal polo de startups, com 423 das 1.000 empresas selecionadas — o equivalente a 40,2% do total. Este domínio é ancorado por São Paulo, que sozinho representa 25,3% das startups (268 empresas), seguido por Minas Gerais, com 84 representantes.
Apesar da hegemonia do Sudeste, o destaque do relatório é a performance da Região Sul — e, em especial, de Santa Catarina. O estado catarinense apareceu em segundo lugar no ranking nacional, com 156 startups selecionadas.
Além de Santa Catarina, o relatório destaca a importância das “âncoras regionais”, como Pernambuco (7º lugar no ranking geral e liderança do Nordeste), o Distrito Federal (8º lugar e referência no Centro-Oeste) e o Pará (17º lugar geral e liderança do Norte). Essas posições reforçam a capilaridade do prêmio e sua função de revelar talentos em regiões menos tradicionais, contribuindo para a diversificação tecnológica do país.
Startups mais maduras e com caixa previsível
Mais de 90% das 1.000 startups selecionadas já estão em fases de validação, tração, crescimento ou escala. A fase de tração, por exemplo, representa 46,7% das selecionadas, ou seja, quase metade das empresas já possui clientes pagantes e indicadores de desempenho em crescimento.
A idade das startups corrobora esse cenário. Cerca de 66,1% das empresas têm mais de três anos de operação, o que significa que a maior parte delas já superou o chamado “vale da morte” — período crítico nos dois primeiros anos do negócio. Outras 31,5% estão na faixa de 1 a 3 anos, demonstrando que o prêmio também contempla empresas jovens, mas com grande capacidade de adaptação e evolução acelerada.
O critério de faturamento das selecionadas também revela solidez. O relatório mostra que 42,5% das startups faturam entre R$ 360 mil e R$ 4,8 milhões por ano, sendo este o principal grupo em termos de performance financeira. Outras 22,9% estão na faixa entre R$ 81 mil e R$ 360 mil, e 20,8% ainda estão nos estágios iniciais de monetização, com faturamento inferior a R$ 81 mil. Apenas 14% não apresentaram receita.
Além da maturidade operacional, o estudo destaca a adoção generalizada de modelos de receita previsíveis, com 60,2% das startups adotando estratégias baseadas em SaaS (37,2%) ou assinatura (23%). O modelo de Receita Recorrente Mensal (MRR), considerado chave para atratividade junto a investidores, é seguido integralmente por 58,9% das empresas e parcialmente por 27,8%.
Domínio do modelo B2B e do software como produto
A natureza das soluções oferecidas pelas startups selecionadas aponta uma predominância de produtos digitais, voltados ao atendimento de outras empresas. O modelo B2B responde por 67,3% das startups da lista, refletindo o foco do ecossistema nacional em soluções corporativas. A segunda maior fatia é do modelo B2B2C (14,7%), seguido pelo B2C (10,7%), enquanto o modelo B2G (vendas para o governo) aparece com 4,2%.
Em termos de produto, o software domina com 55% das ofertas. O relatório destaca ainda que 27,5% das startups atuam na prestação de serviços com base tecnológica, como consultorias e integrações, muitas vezes em apoio à adoção do próprio software. Produtos físicos e hardware somam juntos 14,8%, com 11,6% e 3,2% respectivamente — representando uma camada estratégica importante para setores como agro, indústria 4.0 e biotecnologia.
A escolha por software e por modelos B2B se conecta diretamente à busca por escalabilidade e rentabilidade. Soluções baseadas em software têm menores custos marginais e maior facilidade de replicação, enquanto o modelo B2B tende a gerar tickets médios mais altos e ciclos de venda mais estruturados. Essa combinação é especialmente valorizada por investidores de risco, pois favorece o crescimento com previsibilidade e margens saudáveis.
Inteligência artificial avança, mas 13% ainda não a utilizam
A análise sobre o uso de tecnologias avançadas no relatório revela um equilíbrio interessante entre pragmatismo e inovação de fronteira. Entre as 1.000 startups selecionadas, 28,3% utilizam APIs ou serviços prontos de IA, como OpenAI e AWS, com alto nível de personalização, o que reflete uma abordagem ágil e focada na entrega de valor com menor custo de desenvolvimento. Essa é a maior fatia isolada entre os perfis de adoção tecnológica, mostrando que o ecossistema brasileiro valoriza soluções com time-to-market reduzido.
Por outro lado, um grupo expressivo — cerca de 30% das startups — desenvolve tecnologias proprietárias de IA e dados. Desse total, 18,5% estão em fase de escalabilidade de suas tecnologias internas e 12,4% já as utilizam em produção. Este perfil é típico de empresas com forte orientação a propriedade intelectual, especialmente em setores como biotecnologia, manufatura avançada, robótica e diagnóstico médico.
Entretanto, o estudo revela que 12,9% das startups não utilizam IA, ML ou tecnologias avançadas de dados, o que pode indicar duas realidades. A primeira é a existência de modelos de negócio inovadores cuja principal disrupção não está na tecnologia em si, mas na lógica de operação ou modelo de entrega. A segunda, mais preocupante, é a limitação de acesso técnico ou financeiro para desenvolver ou incorporar essas tecnologias — um desafio ainda comum fora dos grandes polos de inovação.
Diversidade em progresso, mas com lacunas estruturais
No grupo das Top 1.000, mulheres aparecem em 44% dos quadros societários, o que representa um avanço importante no setor, ainda marcado por forte presença masculina. A representatividade de pessoas negras é de 28% — um número significativo, mas que ainda está abaixo da média populacional brasileira. O relatório sugere que as barreiras de acesso a redes de relacionamento, capital e formação continuam sendo desafios importantes para empreendedores negros. A atuação do Sebrae em regiões periféricas e fora dos grandes centros é apontada como uma das estratégias para reverter esse quadro.
Outros grupos minorizados apresentam uma presença ainda mais reduzida. Apenas 12% das startups têm fundadores LGBTQIA+, enquanto 5% incluem pessoas com deficiência (PCDs) e 2% têm participação indígena.
Startups querem crescer — e buscam capital para isso
Segundo o relatório, 81,3% das empresas estão ativamente em busca de investimento, especialmente para acelerar a expansão e estruturar processos comerciais e operacionais. Esse apetite é acompanhado por um grau de preparação crescente, com muitas das startups apresentando produtos validados, receita previsível e times dedicados integralmente ao negócio.
Apesar da grande demanda, o levantamento mostra que 56,4% das startups ainda não captaram nenhum tipo de capital de risco (VC). Esse grupo depende majoritariamente de recursos próprios (24,7%) ou editais públicos de fomento (21,4%), revelando um cenário de bootstrapping que, embora positivo do ponto de vista da resiliência, também expõe um potencial represado para fundos de investimento. As startups que já receberam aportes somam 23,6% — divididas entre investimentos anjo (14,3%) e rodadas seed/Series A (9,3%).
“O fato de mais de 80% das startups estarem em busca de investimento, mas mais da metade ainda não ter captado, evidencia a necessidade de fortalecer as conexões com o mercado de capital, especialmente fora dos grandes centros. O Sebrae atua para reduzir essa distância e preparar as startups para esse acesso”, diz o Diretor Técnico do Sebrae Nacional, Bruno Quick.
Em termos de volume, 21,1% das startups captaram acima de R$500 mil em capital de risco, indicando que uma parcela considerável já passou por validação de mercado e due diligence profissional. Esses dados mostram que o ecossistema brasileiro está amadurecendo, mas ainda precisa avançar na construção de pontes com investidores — especialmente fora do eixo Rio-SP, onde o capital é mais concentrado.
Acesse o relatório completo aqui.
Prêmio Sebrae Startups 2026
O Prêmio Sebrae Startups funciona como uma plataforma de acesso a mercado, capital e visibilidade: ao longo da jornada, as startups selecionadas se conectam a investidores, grandes empresas e atores estratégicos do ecossistema de inovação. A iniciativa seleciona até mil empresas inovadoras em estágio inicial e leva a final para o palco principal do Startup Summit, em Florianópolis (SC), entre 26 e 28 de agosto. As inscrições para a edição de 2026 vão até o dia 30 de abril. A campeã nacional receberá R$ 250 mil.

