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Leitura: Na falta de mão de obra, setor de tecnologia passa a formar seus próprios talentos
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Na falta de mão de obra, setor de tecnologia passa a formar seus próprios talentos

da redação.
Última atualização: 29/07/2026 16:30
da redação.
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Bootcamps corporativos e academias internas ganham força no Brasil como resposta à disputa por profissionais em áreas críticas.Foto: Divulgação.
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A demanda por profissionais de tecnologia segue em ritmo acelerado no Brasil, impulsionada pela digitalização de empresas. Por outro lado, a formação de mão de obra qualificada não acompanha essa velocidade. O descompasso tem levado empresas a assumir um papel que historicamente não lhes cabia: o de formar seus próprios colaboradores, por meio de programas internos estruturados.

Esse movimento começa a ganhar escala e revela uma mudança mais ampla no funcionamento do setor. Em vez de depender exclusivamente do mercado, companhias passam a investir diretamente na capacitação de novos talentos. A estratégia busca não apenas suprir a escassez de profissionais, mas também formar equipes mais alinhadas às práticas e demandas específicas de cada organização.

Para a Premiersoft, empresa de tecnologia com atuação em grandes organizações e ambientes de alta complexidade operacional, o problema vai além da formação quantitativa. “O mercado cresce em um ritmo muito mais acelerado do que a capacidade de formar profissionais qualificados. Existe uma escassez crônica de talentos, agravada pela velocidade das transformações digitais, especialmente em áreas como inteligência artificial e desenvolvimento de software”, afirma o CEO da empresa, Rodrigo Hülsenbeck.

Na Premiersoft, esse movimento se materializou na criação de um programa estruturado de formação em 2021. Batizado de Premiersoft Academy, o projeto foi desenhado como uma resposta direta à dificuldade de contratação em um mercado cada vez mais competitivo. “A principal motivação foi criar oportunidades para quem deseja ingressar no mercado de tecnologia, garantindo inclusive remuneração durante o período de aprendizado, especialmente para pessoas que não teriam condições de estudar sem esse suporte financeiro”, afirma Rodrigo Hülsenbeck.

O programa tem duração de três a quatro meses e segue um formato semelhante ao de um bootcamp interno, com aulas práticas e acompanhamento contínuo de profissionais da companhia. Os participantes são preparados para atuar em áreas como desenvolvimento full stack e quality assurance (QA), além de uma frente mais recente voltada a tech recruiting, que amplia o escopo da iniciativa para além da formação técnica em software.

Os resultados indicam alto nível de absorção desses talentos: na primeira turma concluída, todos os participantes — um total de 23 profissionais — foram contratados em caráter efetivo. “O índice de contratação reforça o papel do programa não apenas como formação, mas como porta de entrada para novos profissionais no setor”, diz Rodrigo.

Abaixo, conheça iniciativas semelhantes promovidas por outras empresas:

Da sala de aula ao intercâmbio

Na WTM, empresa especializada na importação e exportação de serviços e tecnologia, a estratégia inclui aulas de inglês durante o expediente, onboarding estruturado, treinamentos internos, programas de inteligência financeira e experiências internacionais. A empresa promove intercâmbios corporativos em países como Canadá, Dubai e México, permitindo que colaboradores desenvolvam repertório cultural, ampliem a visão de mercado e fortaleçam competências que vão além da formação tradicional. Segundo a companhia, mais de 80% do time já participou de alguma experiência internacional financiada pela empresa.

Para o CEO da WTM International, Lisandro Vieira, formar talentos internamente é parte essencial da construção de uma empresa com propósito global. Na prática, a companhia entende que iniciativas como intercâmbio cultural, aprendizado de idiomas e desenvolvimento em inteligência financeira não são apenas benefícios corporativos, mas pilares de uma infraestrutura estratégica de crescimento. Essa visão reflete uma mudança mais ampla no mercado: em vez de esperar por profissionais prontos, empresas que competem em ambientes internacionais passam a criar jornadas contínuas de aprendizado, preparando seus times para lidar com diferentes culturas, novos mercados e cenários de transformação permanente.

Instituto Atravessando a Ponte

Desenvolvido para ampliar o acesso de jovens de baixa renda ao mercado de tecnologia, o Instituto Atravessando a Ponte vem estruturando programas de formação e inserção profissional voltados à área da Tecnologia da Informação. Criado pela Nexmuv, o projeto oferece bolsas integrais de ensino superior em cursos ligados à tecnologia, desenvolvimento de soft skills e oportunidades de estágio em ambientes voltados à inovação e construção de produtos digitais para universitários de São Paulo. Desde sua criação, em 2021, a iniciativa formou 30 jovens e garantiu a empregabilidade de 100% dos participantes na área.

Segundo Carlos Perobelli, fundador e CEO da Nexmuv, a proposta surgiu da percepção de que a escassez de profissionais no setor está relacionada à dificuldade de acesso à formação e à primeira oportunidade profissional. “Existe uma barreira entre aprender tecnologia e conseguir entrar no mercado. O Instituto nasceu para reduzir essa distância, permitindo que jovens tenham contato com projetos, desenvolvimento de produtos e aplicações de IA dentro de um ambiente corporativo”, afirma. “A ideia é ser uma estrutura que permita a formação técnica e a construção de uma trajetória profissional mais sustentável dentro do setor de tecnologia”, garante o executivo.

Audaces efetiva 85% dos estagiários da empresa
A Audaces, multinacional ítalo-brasileira referência em tecnologia para a moda e indústria têxtil, aposta no desenvolvimento interno de talentos e vê os estagiários como parte estratégica da cultura da empresa. De acordo com Maralise Peroni, gerente de gestão de pessoas da companhia, o estágio representa mais do que uma experiência profissional: é uma trajetória de crescimento e transformação. Atualmente, 85% das pessoas que iniciaram a carreira na empresa como estagiárias foram efetivadas, reforçando a valorização da formação de profissionais desde os primeiros passos no mercado de trabalho.

Além do programa de estágio, a Audaces também apoia iniciativas de capacitação voltadas a pessoas em situação de vulnerabilidade social, como o Prototipando a Quebrada (PAQ) e o Novos Caminhos. A cultura organizacional da companhia também prioriza a promoção interna e o reconhecimento de colaboradores que crescem junto com o negócio. “Acreditamos que nosso maior patrimônio são as pessoas. Sempre que possível, buscamos preencher novas vagas e posições de liderança com talentos que já fazem parte do nosso time, reconhecendo o desempenho, o potencial e a dedicação de cada colaborador”, destaca Maralise.

Caldeira aproxima jovens das profissões da nova economia

No Instituto Caldeira, hub de inovação sediado em Porto Alegre, a percepção da escassez de profissionais qualificados entre as empresas da própria comunidade levou à criação de uma frente estruturada de educação e talentos. A iniciativa busca aproximar jovens das oportunidades da nova economia e, ao mesmo tempo, ajudar empresas a enfrentar gargalos de contratação em áreas ligadas à tecnologia, negócios e inovação. “O que buscamos construir no Caldeira é uma ponte entre desenvolvimento social, educação e competitividade econômica”, afirma Felipe Amaral, Diretor de Educação e Talentos do Campus Caldeira. “Acreditamos que a educação precisa estar mais conectada às transformações do mercado e às habilidades exigidas pela nova economia.”

O principal programa dessa estratégia é o Geração Caldeira, voltado à capacitação e empregabilidade de jovens de 16 a 24 anos que cursam ou concluíram o ensino médio em escolas públicas. A iniciativa oferece formação gratuita, bolsa de estudos de R$ 5 mil e trilhas em áreas de alta demanda, como Programação Java, Dados e IA, Marketing e Design e Gestão Comercial. A metodologia combina desafios práticos, integração com empresas da comunidade Caldeira e conexão direta com vagas de trabalho. Mais de 200 mil jovens também já foram impactados pelas ações educacionais do Caldeira, enquanto outros 45 mil participaram de capacitações online.

Empresas estruturam formação interna em inteligência artificial 

A popularização da inteligência artificial acelerou um novo movimento dentro das empresas de tecnologia: a necessidade de requalificar continuamente seus próprios colaboradores e estruturar ambientes preparados para incorporar IA à operação. Na Zucchetti Brasil, multinacional italiana especializada em sistemas de gestão para setores como varejo, indústria e recursos humanos, esse processo vem sendo conduzido por meio da ‘Trilha de IA’, iniciativa lançada em julho de 2025 em parceria com a Aimana. O projeto busca preparar diferentes áreas da companhia para utilizar inteligência artificial tanto em atividades operacionais quanto em decisões estratégicas, ampliando a autonomia das equipes e democratizando o acesso à tecnologia dentro da organização.

A formação foi estruturada em três frentes complementares. A primeira, AI Leadership, é voltada às lideranças e reúne encontros focados em estratégia, produtividade e transformação cultural a partir do uso de IA. Já o AI Champions aposta em laboratórios práticos, mentorias e treinamentos voltados a colaboradores que passam a atuar como multiplicadores internos da tecnologia. Por fim, o AI Hub funciona como uma plataforma contínua de aprendizagem, oferecendo trilhas base e conteúdos on-demand acessíveis aos funcionários da companhia. Paralelamente, a empresa também desenvolveu uma plataforma própria de IA que permite que mais de 500 colaboradores criem assistentes, agentes e automações de forma autônoma, utilizando diferentes modelos de inteligência artificial em um ambiente corporativo centralizado e com governança sobre o uso da tecnologia.

Para Ana Paula Zancanaro Socha, diretora de RH da Zucchetti Brasil, a adoção de inteligência artificial exige mais do que conhecimento técnico e passa necessariamente pela preparação das pessoas para novas formas de trabalho. “Mais do que contratar especialistas, o desafio passa a ser desenvolver os profissionais que já fazem parte da organização, criando um ambiente preparado para evoluir junto com a tecnologia”, afirma. A estratégia reflete uma mudança mais ampla observada no setor de tecnologia, em que empresas deixam de depender exclusivamente da formação tradicional do mercado e passam a assumir um papel mais ativo na capacitação, governança e aplicação prática da IA no dia a dia corporativo, incentivando inclusive que colaboradores desenvolvam soluções voltadas às próprias demandas operacionais.

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