A inteligência artificial começou a alterar a dinâmica das compras públicas no Brasil, principalmente do lado das empresas que vendem ao governo, mas também por parte dos órgãos de controle responsáveis por fiscalizar contratos e licitações. Ferramentas de IA já começaram a ser usadas por órgãos federais para monitorar compras, identificar riscos e automatizar análises de processos licitatórios.
Sistemas como Alice, Sofia e Mônica, utilizados pela Controladoria-Geral da União (CGU) e pelo Tribunal de Contas da União (TCU), ajudam a cruzar dados, detectar inconsistências e ampliar o monitoramento sobre contratações públicas. Do lado privado, fornecedores passaram a usar automação para encontrar licitações, analisar editais, cadastrar propostas e reduzir custos operacionais.
Segundo Maicon Schelter, CTO da Effecti, empresa de tecnologia para licitantes, esse movimento começa a mudar o padrão de exigência sobre fornecedores públicos, especialmente em temas ligados à rastreabilidade, documentação, previsibilidade operacional e governança. “Quanto mais eficiente fica a operação do fornecedor, maior tende a ser a concorrência e menor o custo da compra pública. O aumento da competitividade e da previsibilidade operacional tende a reduzir desperdícios, evitar falhas em contratações públicas e melhorar a continuidade de serviços essenciais”.
Na avaliação do executivo, o uso de inteligência artificial nas compras públicas tem cinco principais impactos:
1. IA pode ajudar a evitar licitações desertas e reduzir risco de falta de serviços essenciais
Um dos principais gargalos das compras públicas são as chamadas licitações desertas, quando nenhum fornecedor apresenta proposta para determinado processo. Isso pode afetar diretamente serviços públicos essenciais, desde a compra de merenda escolar até a aquisição de medicamentos, materiais hospitalares e contratos de manutenção.
Segundo Maicon, ferramentas de inteligência artificial passaram a facilitar a identificação de oportunidades e permitem que fornecedores encontrem processos que antes passavam despercebidos. “Hoje a IA consegue analisar grandes bases públicas e localizar oportunidades com muito mais velocidade. Isso reduz a chance de processos sem interessados e aumenta a competitividade”, diz.
O executivo afirma que algumas plataformas já conseguem inclusive detectar situações de “iminência de deserto”, quando há poucos participantes cadastrados em uma licitação ainda em andamento.
Ou seja, segundo ele, quanto maior a concorrência, menor tende a ser o custo da compra pública. O que amplia a capacidade do governo de direcionar recursos para serviços que chegam ao cidadão.
2. A leitura automatizada de editais aumenta o nível de exigência sobre fornecedores
Outra mudança está na análise automatizada de editais e documentos licitatórios. Ferramentas de IA conseguem identificar cláusulas críticas, exigências técnicas, inconsistências documentais e riscos jurídicos antes mesmo do envio da proposta.
Para Maicon, isso muda o perfil operacional exigido das empresas que vendem ao governo. “O fornecedor que ainda trabalha de forma muito manual tende a perder competitividade. A discussão começa a sair apenas da tecnologia e vai para governança, rastreabilidade e previsibilidade operacional”, afirma.
Na avaliação do executivo, empresas maiores devem ampliar a cobrança por controle documental, compliance e padronização dos processos de participação em licitações ao longo dos próximos anos.
3. Automação reduz custo operacional e pode ampliar a competição nas compras públicas
Grande parte da operação de licitações ainda depende de tarefas repetitivas, como busca de editais, análise de documentação, cadastro de propostas e monitoramento de processos. Com automação, parte dessas etapas passa a ser executada em minutos, o que reduz custos operacionais para fornecedores e tende a aumentar o número de empresas aptas a participar de processos públicos.
“Se a operação fica mais barata e mais eficiente para o fornecedor, isso naturalmente aumenta a competitividade e melhora a relação de custo para o órgão público”, diz. O ganho de eficiência pode gerar impacto indireto sobre os preços pagos pelo governo e sobre a capacidade de execução dos contratos públicos.
4. IA transforma licitação em inteligência de mercado
Maicon explica que já é possível utilizar IA para avaliar comportamento de concorrentes, histórico de disputas, regiões com maior demanda e padrões de compra de determinados órgãos públicos. Ou seja, além da automação operacional, empresas passaram a usar inteligência artificial para análise estratégica do mercado público.
A tecnologia também pode cruzar informações de documentos públicos, como planos orçamentários e previsões de contratação, para antecipar tendências de demanda.
“O mercado ainda usa muita planilha para analisar a operação. A IA consegue olhar para margem, logística, imposto, custo operacional e ajudar a entender se aquela estratégia faz sentido ou não. Isso muda o comportamento do fornecedor, que passa a operar menos por reação e mais por planejamento orientado a dados”, afirma.
5. Governança e previsibilidade devem ganhar peso nas compras públicas
O executivo acredita que a tendência é que a automação deixe de ser diferencial competitivo e passe a funcionar como requisito operacional para empresas que atuam em contratos públicos de maior porte.
O movimento acompanha a crescente digitalização das compras públicas e a necessidade de operar com maior controle documental e previsibilidade. “O avanço da IA muda o padrão de cobrança sobre o fornecedor. Não é só uma discussão sobre usar tecnologia, mas sobre capacidade de operação, rastreabilidade e controle”, afirma.
Na sua avaliação, empresas que conseguirem estruturar processos mais organizados e automatizados tendem a ganhar competitividade em um cenário de maior pressão por eficiência fiscal.
No fim, o impacto pode chegar além da rotina administrativa das empresas. Menos falhas operacionais, mais concorrência e processos mais previsíveis tendem a aumentar a eficiência das compras públicas, com potencial de melhorar a continuidade de serviços que chegam diretamente ao cidadão.

