Domingo foi o meu primeiro Dia das Mães. A Lara completou um mês de vida essa semana, e ainda estou processando o quanto os últimos 40 dias me transformaram, não só como mulher e como mãe, mas como profissional. Como CEO e fundadora da Vittude, passei os últimos anos estudando resiliência, gestão de risco psicossocial e o impacto da liderança na saúde mental das equipes. Conhecia esses temas de dentro para fora, na teoria e na prática organizacional. Até que a maternidade chegou e me deu um curso acelerado e completamente inesperado sobre tudo isso, aplicado à minha própria vida.
Não estou aqui para romantizar, mas para ser honesta sobre o que aprendi. Me preparei durante nove meses para um parto normal. Controlei a alimentação com precisão cirúrgica, mantive a glicemia monitorada, fiz fisioterapia pélvica, yoga, agachamentos e exercícios na bola de pilates. Continuei me exercitando até as 39 semanas e seis dias de gestação. Me preparei mentalmente para um trabalho de parto longo, e havia feito meu planejamento, minha gestão de riscos e minha preparação.
Com 28 semanas, descobri uma diabetes gestacional. Aprendi na pele que os hormônios placentários não negociam com disciplina, e qualquer mínima ingestão de carboidratos disparava minha glicemia. Mais controle, mais rigor, mais adaptação. Isso eu consegui gerenciar. O que eu não consegui gerenciar foi o que aconteceu no momento final. Após 29 horas entre indução e trabalho de parto ativo, entre contrações, chuveiro, piscina, e dilatação chegando a 8 cm, a equipe médica me informou que precisaríamos de uma cesárea. A cabeça da Lara não encaixou na minha pelve. Não tínhamos o chamado encaixe chave-fechadura, e continuar seria colocar nossas vidas em risco.
Chorei de frustração e de raiva, mais do que de dor. Não me preparei emocionalmente para uma cirurgia, e ali entendi, de forma visceral, uma das lições mais difíceis de qualquer carreira: preparação reduz riscos, mas não elimina imprevistos. E a nossa capacidade de responder ao que não planejamos é tão importante quanto tudo aquilo que planejamos. A Lara nasceu no domingo de Páscoa, à 1h44 da manhã. Saudável, linda e com exames perfeitos.
A obstetra que conduziu meu parto teve que me dar uma notícia que eu claramente não queria ouvir, em um momento em que eu estava exausta e emocionalmente no limite. Ela fez isso com clareza, empatia e firmeza. Não cedeu à minha frustração ou abriu espaço para negociação onde não havia espaço seguro para negociar.
Fiquei pensando nisso nos dias seguintes. Quantas vezes, como líderes, precisamos tomar decisões contrárias ao desejo de quem está ao nosso lado? Quantas vezes o papel de quem lidera é exatamente esse: dizer o que precisa realmente ser dito, mesmo quando o outro não quer ouvir, mesmo quando isso gera resistência, frustração, choro?
O melhor julgamento nem sempre é o mais popular, e líderes que abdicam dessa responsabilidade para evitar o desconforto alheio, ou o próprio, estão falhando com quem confiam neles. Aprendi isso numa sala de cirurgia, às duas da manhã, com uma cicatriz de sete camadas sendo feita no meu corpo.
Pedir ajuda não é fraqueza
Os primeiros dias em casa foram uma introdução brutal ao que ainda estava por vir. A Lara chorava incessantemente, e passamos uma noite inteira sem dormir, sem entender o que estava acontecendo. No dia seguinte, consultei a pediatra, e a resposta foi direta: meu leite ainda não havia descido, e ela provavelmente estava desidratada, sem fazer xixi, sem fazer coco e passando fome.
Entrar com fórmula não estava nos planos. Gerou uma frustração enorme, e uma sensação de culpa que me parece muito familiar para quem acompanha mães nos primeiros dias de vida de um bebê: de não estar dando conta, de estar falhando na tarefa mais básica. Chorei pedindo desculpas para a minha pequena por não conseguir alimentá-la. Uma coisa, quando escrevo assim, que parece absurda. Mas quem passou por isso sabe exatamente do que estou falando.
O que me tirou desse lugar foi a ajuda especializada. Além da pediatra, tive uma enfermeira especialista em amamentação que me acompanhou em casa nas primeiras três semanas. Com suporte, remédio, chá, massagem, compressa quente e muita paciência, o leite apareceu. Não na quantidade que eu queria e que a Lara precisava, mas apareceu.
No trabalho, tendemos a tratar a busca por ajuda como admissão de incompetência. Como se pedir suporte especializado fosse sinal de que não estamos à altura da função. A maternidade me mostrou o contrário: reconhecer o limite do que você sabe e trazer quem sabe mais é, na verdade, a decisão mais inteligente que você pode tomar.
Fiz tudo que estava ao meu alcance para produzir mais leite, e ainda assim, não produzo o suficiente para alimentar a Lara sozinha. Não porque não tentei ou não me dediquei. O meu corpo, simplesmente, não produz. Essa é uma das lições mais contraculturais que a maternidade me deu, e uma das mais importantes para qualquer profissional: esforço e dedicação são necessários, mas não são suficientes. Existem variáveis que estão fora do nosso controle, e resultados que não dependem apenas do quanto nos entregamos a eles.
A cultura corporativa, especialmente a cultura de alta performance, ainda tem muita dificuldade com esse conceito. A narrativa dominante é a do esforço recompensado, do mérito linear, do resultado que sempre vem para quem trabalha o suficiente e se esforça bastante. Mas a realidade é mais complexa, mais humana e menos controlável do que isso. Reconhecer onde está o limite do que você pode controlar não é desistir, mas sim maturidade.
Tenho escutado muito sobre como a maternidade transforma mulheres profissionais. Agora estou dentro da transformação e posso falar do que é real: ela não te torna uma profissional melhor automaticamente, mas te coloca, de forma acelerada e involuntária, diante das suas maiores vulnerabilidades. Te ensina a tolerar a incerteza, e a tomar decisões com informação incompleta e exaustão total. A aceitar que o plano vai mudar, e que mudar o plano não significa ter falhado. Te ensina que impotência e competência podem coexistir no mesmo momento, na mesma pessoa.
Aprendi mais sobre gestão de imprevistos nessas quatro semanas do que em muitos treinamentos de liderança. Aprendi sobre o valor de uma equipe competente e empática, sobre o que significa confiar em especialistas mesmo quando a decisão deles dói, sobre como é diferente saber de algo na teoria e viver esse algo na prática.
Celebrei o meu primeiro Dia das Mães com a Lara no colo, sem dormir o suficiente, com uma cicatriz que ainda dói e com mais gratidão do que jamais senti. Gratidão pela equipe médica que tomou a decisão certa. Pela enfermeira que foi para minha casa me apoiar no processo de amamentação. Pela pediatra que foi direta quando precisou ser. E, acima de tudo, pela Lara. Que em um mês de vida já me ensinou mais sobre mim mesma do que eu esperava aprender em anos.

