A forma como empresas são encontradas na internet está passando por uma das maiores transformações das últimas décadas. Se antes o foco estava em aparecer bem-posicionado no Google, agora uma nova dinâmica começa a ganhar força: ser corretamente interpretado e recomendado por sistemas de inteligência artificial (IA). Nesse novo cenário, surge um desafio inédito: não basta mais aparecer, é preciso garantir que a IA diga a coisa certa.
Essa é a aposta da Teia Studio, startup brasileira que desenvolveu uma plataforma para monitorar, auditar e mensurar como marcas, instituições e pessoas são representadas por sistemas de IA generativa. “As fontes de verdade deixaram de ser apenas os buscadores. Elas estão nos modelos de linguagem. Ou seja: a disputa digital passou a ser por interpretação”, afirma o fundador e CDAO da empresa, José Enrique Vásquez Valenzuela.
Do SEO ao GEO: quando a busca vira narrativa
O movimento acompanha o avanço de um conceito recente no mercado: o GEO (Generative Engine Optimization), formalizado em 2023 por pesquisadores de instituições como Princeton e Georgia Tech. Na prática, ele expande a lógica do SEO (Search Engine Optimization) para um novo cenário, em que não basta mais posicionar páginas nos buscadores, é preciso entender como essas informações são captadas, interpretadas e reproduzidas por modelos de linguagem.
Segundo Valenzuela, a mudança é estrutural. “Durante mais de duas décadas, o usuário navegava por uma lista de links e decidia em quem confiar. Agora, esse processo é intermediado pela inteligência artificial, que sintetiza conteúdos, cruza fontes e entrega uma resposta única, pronta, muitas vezes sem espaço para comparação ou segunda opinião”.
Nesse novo modelo, o controle das marcas sobre sua própria narrativa diminui. “Se no SEO ainda era possível atuar sobre palavras-chave, autoridade de domínio e indexação, no ambiente generativo a lógica é menos transparente, e o risco deixa de ser apenas não aparecer, passando a incluir ser ignorado ou, pior, representado de forma incorreta”, alerta o fundador da Teia Studio.
Para Valenzuela, esse é um ponto crítico: a resposta gerada pela IA nem sempre reflete a realidade. “Quando isso acontece, o impacto deixa de ser invisível e passa a afetar diretamente a percepção do público”.
Quando a IA inventa, o risco vira concreto
Valenzuela explica que, durante a realização do programa piloto da Teia Studio, que monitorou quatro modelos de IA ao longo de duas semanas, os resultados expõem um cenário mais crítico do que o esperado. Ao todo, foram analisadas 640 respostas geradas a partir de 79 perguntas distintas. Desse universo, 58 apresentaram algum tipo de alucinação, sendo 18 classificadas como de alta gravidade, com informações completamente fabricadas.
“Os erros vão além de imprecisões pontuais. Entre os casos identificados estão a criação de médicos inexistentes com registros profissionais falsos, a indicação de endereços incorretos e a atribuição de serviços que nunca foram oferecidos por instituições reais”, ressalta.
Em um dos exemplos mais críticos, a IA chegou a direcionar usuários para sites inexistentes e canais de atendimento falsos, um tipo de erro que, no contexto da saúde, pode ter consequências diretas para o cidadão. Além disso, a inconsistência entre os próprios modelos chama atenção. Em quase um terço das interações analisadas, as respostas foram contraditórias entre si, evidenciando que a informação recebida pelo usuário pode variar significativamente dependendo da ferramenta utilizada.
Outro dado relevante reforça o problema: mesmo quando questionadas diretamente, as IAs citaram a marca analisada em apenas cerca de 44% das respostas. Nos demais casos, a instituição foi simplesmente ignorada.
Para Valenzuela, o impacto desse cenário ultrapassa o campo tecnológico e já afeta diretamente os negócios. “Se a IA recomenda um concorrente no lugar da sua marca, isso tem impacto direto no negócio. Não é só um erro técnico, é uma perda real”.

De otimização a governança: nasce o IGO
Ao avançar sobre as limitações do GEO, a Teia Studio estruturou uma nova camada conceitual: o IGO (Intelligence Governance & Observability). A proposta é ir além da otimização de presença e criar um sistema contínuo de auditoria, mensuração e monitoramento do que as inteligências artificiais efetivamente dizem sobre uma marca.
Na prática, o IGO transforma a presença em ambientes generativos em um ativo mensurável, com indicadores comparáveis, rastreáveis e auditáveis. “O GEO arruma a vitrine. O IGO entra na loja para entender o que está sendo dito ao cliente”, resume o fundador da Teia Studio.
A operação parte de um princípio central: o site oficial como fonte primária de verdade. A partir dessa base, a plataforma executa ciclos contínuos de auditoria, enviando perguntas padronizadas simultaneamente a diferentes modelos de IA, como ChatGPT, Gemini, Claude e Perplexity, e registrando integralmente cada resposta para análise.
Essas interações são então processadas por uma metodologia proprietária baseada em KAPIs (Key Algorithmic Performance Indicators), que traduzem o comportamento das IAs em métricas objetivas. Entre os principais indicadores estão a frequência e qualidade de citação da marca, a precisão e profundidade das informações, o nível de consistência entre modelos e a estabilidade das respostas ao longo do tempo.
O resultado é a criação de uma camada inédita de governança sobre sistemas generativos, um campo que, até então, operava sem mecanismos claros de controle ou accountability.
Uma janela de oportunidade
Diferente de outras tendências digitais, o impacto da IA na reputação não se limita a um setor específico. Saúde, varejo, educação, indústria e até o setor público enfrentam o mesmo desafio: ou são corretamente interpretados, ou correm o risco de serem ignorados, ou mal representados. “Assim como o Google não diferencia setores, a IA também não. Ela reconhece, ignora ou inventa”, afirma Valenzuela.
A avaliação da startup é que o tema ainda está fora do radar da maioria das empresas, apesar de já gerar efeitos práticos. Para a Teia Studio, o momento atual representa uma janela crítica. Como os modelos de IA ainda estão em constante evolução, há espaço para influenciar a forma como marcas são interpretadas e consolidadas nesses sistemas.
“É como um diagnóstico precoce. Se você atua agora, o custo é menor e a correção é mais simples. Se espera, o problema se espalha e se torna muito mais difícil de reverter”, compara o fundador.
A metáfora não é por acaso. Segundo ele, informações incorretas podem ser replicadas em larga escala e consolidar-se como verdade em múltiplos sistemas, tornando sua correção um processo complexo e caro.
O futuro da reputação digital
Com a plataforma operando desde janeiro e já em uso em um programa piloto com diferentes setores, a Teia Studio aposta que o monitoramento da reputação em IA deve se tornar parte essencial da estratégia digital nos próximos anos.
Para Valenzuela, a mudança é inevitável. “O SEO pergunta se você aparece no Google. O GEO pergunta se a IA menciona você. O IGO pergunta se o que ela diz é verdade e com que consistência”, resume.

