Nunca tivemos tantos dados disponíveis dentro das empresas. Dashboards em tempo real, modelos preditivos, inteligência artificial, algoritmos de previsão de demanda. A capacidade analítica do varejo evoluiu de forma impressionante na última década.
Mas existe um paradoxo que me chama atenção: nunca foi tão fácil continuar desperdiçando sem perceber.
Antes de fundar a Food To Save, fui franqueado do Carrefour Express. E foi ali, vivendo a operação diariamente, que aprendi uma lição que continua fazendo sentido até hoje.
Os dados só têm valor quando mudam uma decisão.
Eu sabia que a segunda-feira tinha um comportamento completamente diferente da sexta. Sabia quais produtos giravam em poucos dias e quais invariavelmente acabavam virando perda. Mas essa informação, por si só, não mudava nada. O desperdício só começou a cair quando ela passou a influenciar a operação. Comprar diferente, antecipar uma promoção, rever um pedido, reduzir um volume antes que o produto chegasse ao vencimento.
Na prática, eficiência operacional nunca foi sobre saber mais. Sempre foi sobre agir melhor.
Anos depois, conversando com algumas das maiores redes do país por meio da Food To Save, percebo que o desafio continua exatamente o mesmo, apenas em outra escala.
Hoje, grandes empresas conseguem prever demanda com enorme precisão, acompanham indicadores em tempo real, conhecem o giro de cada categoria e sabem exatamente onde estão suas maiores perdas. Ainda assim, parte desse desperdício continua acontecendo.
Não porque faltam dados.
Porque falta transformar dados em comportamento operacional.
É comum encontrar empresas que sabem quais lojas apresentam maior índice de obsolescência, quais categorias concentram as perdas e em que período isso acontece. O diagnóstico existe. O que muitas vezes não existe é um processo capaz de transformar essa informação em uma decisão diferente no dia seguinte.
O algoritmo prevê queda de demanda, mas a política de abastecimento permanece igual. O sistema identifica redução no giro de um produto, mas a ação comercial só acontece quando ele já está próximo do vencimento. O indicador aponta uma oportunidade, mas a rotina da operação continua seguindo regras definidas meses atrás.
O dado estava certo. A decisão continuou errada.
Talvez esse seja um dos maiores desafios das grandes organizações. Criamos estruturas cada vez mais sofisticadas para produzir informação, mas ainda encontramos dificuldade para fazer essa informação percorrer toda a empresa e chegar rapidamente a quem realmente muda o resultado: quem compra, quem negocia, quem abastece, quem opera a loja.
Essa discussão vai muito além do desperdício de alimentos. Ela fala sobre produtividade, margem, capital de giro, disponibilidade de produtos e eficiência operacional. Em um mercado de margens cada vez mais pressionadas, pequenas decisões tomadas diariamente geram impactos gigantescos no resultado da companhia.
Na Food To Save vemos isso acontecer todos os dias. O desperdício raramente nasce de uma decisão isolada. Ele normalmente é consequência de dezenas de pequenas decisões que deixaram de ser tomadas no momento certo.
Por isso, acredito que a próxima vantagem competitiva do varejo não estará em coletar mais dados. Isso já deixou de ser diferencial.
Ela estará na capacidade de transformar informação em execução, conectando analytics, compras, comercial e operação de forma muito mais integrada.
Porque, no fim do dia, dashboard não reduz desperdício.
Quem reduz desperdício são pessoas tomando decisões melhores.

