O Carnaval é um dos maiores ativos culturais do Brasil. Não apenas pela escala, pela visibilidade internacional ou pelo impacto econômico, mas pela sua capacidade rara de organizar um país inteiro em torno da cultura. Durante alguns dias, o Brasil se reorganiza: férias são planejadas, empresas ajustam seus calendários, cidades mudam seus fluxos e milhões de pessoas alinham seus desejos em torno de uma mesma experiência. Poucos consensos sociais têm essa força. O Carnaval é, talvez, o maior acordo cultural do país.
Ele nos oferece algo cada vez mais escasso: uma experiência coletiva de sentido. Em um mundo fragmentado, o Carnaval ainda opera no plural. Ele suspende a rotina, reorganiza o tempo e cria uma licença simbólica para que o país se observe sem mediação, sem filtros e sem a necessidade de tradução.
Durante o Carnaval, o Brasil vive uma imersão cultural em escala máxima. Não se trata de consumo passivo de cultura, mas de participação. Aprende-se sobre religiões de matriz africana pela presença de seus símbolos no espaço público. Aprende-se sobre o Nordeste ao ouvir o frevo de Pernambuco, o maracatu, os blocos afro, o samba de roda e o axé que domina as ruas de Salvador. Reconhece-se a força simbólica do boi‑bumbá no Norte, a tradição dos blocos cariocas e paulistanos, as marchinhas e as referências que atravessam gerações. É também uma oportunidade de aprendizado sobre a história de povos originários, culturas afro-brasileiras e minorias, reforçando como a diversidade é o núcleo do Brasil. Em Salvador, mais de 3,5 milhões de pessoas participaram das festas em 2025, gerando mais de R$ 7 bilhões em receita e consolidando a folia como patrimônio cultural e econômico da região.
Cada brasileiro vive o Carnaval à sua maneira, seja nas ruas, nos desfiles ou no aconchego de casa. Essa liberdade reforça o caráter democrático da festa e explica por que ela é tão universal e, ao mesmo tempo, tão pessoal.
O Carnaval também é um motor criativo. Fantasias, músicas, coreografias, memes e narrativas nascem nas ruas e continuam circulando durante o ano inteiro. Ele produz linguagem, repertório e memória compartilhada, influencia publicidade, moda, audiovisual e a forma como o Brasil se comunica consigo mesmo e com o mundo. A criatividade brasileira não se encerra na Quarta‑feira de Cinzas. Ela se acumula.
Minha relação com o Carnaval é atravessada por memória e prática. Quando criança, eu ouvia minha avó contar histórias dos carnavais de sua juventude em Porto Alegre, nos bailes dançantes, na emoção coletiva que marcava aquele período. Anos depois, já adulta, passei a viver o Carnaval do Rio de Janeiro de perto, acompanhando desfiles e festas de rua. Em meio ao caos e à intensidade da cidade, encontrei alegria, pertencimento e a liberdade que só o Carnaval oferece.
Olhar para o Carnaval apenas como entretenimento é uma leitura limitada. Ele é também um ativo cultural estratégico e econômico. Para o Carnaval de 2025, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo estimou que a festa deve movimentar cerca de R$ 12,03 bilhões em receitas, com crescimento real em relação ao ano anterior e atração de quase 869 mil turistas estrangeiros, o maior número desde 2018. Aproximadamente 32,6 mil empregos temporários foram projetados, concentrados em bares, restaurantes, hospedagem e transporte, mostrando como celebrar a brasilidade também é gerar oportunidades.
Consumir Carnaval é consumir brasilidade. E brasilidade, hoje, é um ativo global. Em uma viagem a Barcelona, ao entrar em uma loja da Zara na Passeig de Gràcia, encontrei uma coleção com referências diretas à bandeira do Brasil. Isso aconteceu um ano antes da Copa do Mundo. Era desejo. O Brasil já estava ali, em um dos maiores centros de moda da Europa, estampado em cor, identidade e narrativa. O Carnaval, em essência, é democrático, plural e sinônimo do Brasil.
O mundo olha para a América Latina com mais atenção porque reconhece sua potência criativa. O Super Bowl deste ano mostrou que nosso continente é palco global de cultura e tendências. Nosso repertório cultural, nossa capacidade de criar a partir da mistura, nossa habilidade de transformar escassez em invenção se tornaram ativos centrais. O Carnaval é a expressão mais organizada, visível e sofisticada desse capital simbólico.
Cabe às marcas, às empresas e às instituições compreender que não se trata apenas de patrocinar festas ou estampar símbolos. Trata-se de respeitar contextos, histórias e origens. Quem entende o Carnaval como acordo cultural percebe que ele não é um evento isolado, mas um ecossistema de sentidos, memórias e futuros possíveis.
No Carnaval, o Brasil se reconhece em sua diversidade, criatividade e história. A festa transforma cultura em memória, celebração e potência social e econômica.
Referências
BRASIL. Ministério da Cultura. Carnaval fortalece bens culturais e desenvolve a economia criativa das regiões. Disponível em: https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/carnaval-fortalece-bens-culturais-e-desenvolve-a-economia-criativa-das-regioes. Acesso em: fev. 2026.
GENTE GLOBO. Cultura do Carnaval: identidade brasileira e potência social. Coleção Expoentes Culturais. Disponível em: https://gente.globo.com/colecao/expoentes-culturais/texto/cultura-do-carnaval-identidade-brasileira-e-potencia-social.ghtml. Acesso em: fev. 2026.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Bens culturais registrados como patrimônio imaterial brasileiro. Disponível em: https://www.gov.br/iphan. Acesso em: fev. 2026.
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO COMÉRCIO DE BENS, SERVIÇOS E TURISMO (CNC). Projeções Econômicas do Carnaval 2025. Dados de receita, fluxo turístico e emprego. Disponível em: https://www.gov.br/turismo. Acesso em: fev. 2026.

