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A inteligência artificial pode estar deixando as empresas burras?

Rossana Parizotto
Última atualização: 09/02/2026 15:01
Rossana Parizotto - Administradora, doutora em Administração pela Unisinos e pós-doutoranda pela PUCRS. Fundadora da PeopleESG.
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Posso estar sendo provocativa, mas essa é uma pergunta que começa a fazer cada vez mais sentido em 2026. Nunca tivemos tantas ferramentas inteligentes, tantos dados, tantos dashboards, tantos modelos preditivos. E, paradoxalmente, nunca foi tão comum ver empresas errando de forma básica, reagindo mal a crises, copiando concorrentes sem estratégia e tomando decisões que parecem desconectadas da realidade.

A IA promete eficiência, velocidade e precisão. E de fato entrega tudo isso. O problema começa quando as organizações passam a terceirizar o pensamento. Em muitas empresas, decisões estratégicas estão sendo cada vez mais orientadas por modelos, algoritmos e recomendações automáticas, sem que haja compreensão real do contexto, das pessoas e dos territórios onde essas decisões vão impactar.

O risco não é a IA errar. O risco é a empresa parar de saber por que está fazendo o que faz.

Quando todo mundo usa os mesmos modelos, as mesmas bases de dados e os mesmos critérios de otimização, as organizações começam a se parecer demais. Estratégias ficam padronizadas, respostas a crises se tornam previsíveis e a capacidade de ler sinais fracos do mundo real diminui. A IA é excelente em encontrar padrões no passado, mas o mundo de 2026 é cada vez menos parecido com o passado.

Isso gera um paradoxo perigoso: empresas ficam mais eficientes e, ao mesmo tempo, menos inteligentes. Processos rodam melhor, mas a capacidade de interpretar mudanças sociais, climáticas e políticas se enfraquece. Algoritmos não sentem medo, não percebem injustiça, não entendem tensões culturais e não captam mudanças de humor social, exatamente os fatores que hoje mais influenciam risco e valor.

Talvez eu esteja sendo dura, mas vemos isso o tempo todo: empresas que otimizam custos com IA e depois são surpreendidas por boicotes, conflitos trabalhistas, crises reputacionais ou colapsos de cadeia de suprimentos. A máquina não errou. Ela apenas fez o que foi programada para fazer. O erro foi achar que isso era pensar.

No contexto do ESG, isso é ainda mais crítico. Sustentabilidade, impacto social e governança não são problemas puramente técnicos. Eles envolvem valores, conflitos, poder, desigualdades e escolhas morais. Nenhum modelo de IA consegue decidir o que é justo para uma comunidade afetada por uma barragem, ou o que é aceitável para trabalhadores em uma cadeia global de fornecimento. Se as empresas delegam isso aos algoritmos, elas não ficam mais modernas, ficam mais perigosas.

A verdadeira vantagem competitiva em 2026 não é ter mais IA, mas saber usá-la sem perder inteligência humana. As organizações que vão sobreviver não são as que automatizam tudo, mas as que combinam tecnologia com leitura social, escuta ativa, governança forte e capacidade de questionar os próprios números.

Talvez eu esteja sendo otimista, mas ainda acredito que a IA pode nos tornar melhores, se não abrirmos mão de pensar. Porque, no fim, nenhuma empresa quebra por falta de dados. Elas quebram quando deixam de entender o mundo em que estão inseridas.

TAGS:tecnologia
Por Rossana Parizotto Administradora, doutora em Administração pela Unisinos e pós-doutoranda pela PUCRS. Fundadora da PeopleESG.
Administradora, doutora em Administração pela Unisinos e pós-doutoranda pela PUCRS. Com mais de 10 anos de experiência em Recursos Humanos e 6 anos dedicados à responsabilidade social corporativa, ela é fundadora da PeopleESG. Sua empresa promove a transformação por meio de tecnologias sociais e práticas de ESG, criando soluções que conectam organizações a um impacto socioambiental positivo, fortalecendo a responsabilidade social corporativa e impulsionando mudanças significativas no mercado e na sociedade.
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