O Super El Niño previsto para atingir seu pico entre outubro e dezembro de 2026 pode aumentar a pressão sobre hospitais públicos e privados em diferentes regiões do Brasil. Embora o governo federal preveja gastar até R$ 1,3 bilhão em ações de saúde, monitoramento e resposta a desastres, especialistas da área de saúde e tecnologia alertam que a demanda por atendimento tende a crescer durante os eventos extremos e nos meses seguintes, quando aparecem os efeitos indiretos sobre a população.
Além de aumentar a procura por serviços de saúde, fenômenos assim também podem comprometer a própria capacidade de resposta do sistema. Enchentes, deslizamentos, tempestades e ondas de calor podem interromper o funcionamento de unidades, dificultar o deslocamento de equipes, afetar o abastecimento de medicamentos e ampliar o número de pessoas expostas a diferentes agravos.
Iomani Engelmann, co-CEO da Pixeon, uma das principais empresas brasileiras de tecnologia para a saúde, explica que o sistema de saúde brasileiro costuma reagir às crises mais do que se preparar para elas. “Muitos hospitais possuem planos de contingência, protocolos e estruturas de resposta, mas a implementação é desigual entre regiões e instituições. A mobilização mais intensa normalmente acontece quando o pronto-socorro já está sobrecarregado, há interrupção de acesso, falta de energia, água ou insumos, ou quando a procura por atendimento aumenta de forma abrupta”, explica. A Organização Mundial da Saúde recomenda que hospitais avaliem previamente sua capacidade de continuar funcionando durante emergências, incluindo estrutura física, equipes, medicamentos, transporte e comunicação.
Esses desafios, no entanto, não se encerram com o fim do evento climático. Os impactos de um evento climático de forte intensidade sobre o sistema de saúde podem se estender muito além da sua duração. As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 evidenciaram esse problema. Mesmo após o recuo das águas, o estado registrou mortes por leptospirose e centenas de casos confirmados da doença associados à exposição às águas das cheias.
Segundo Pedro Marton Pereira, presidente e fundador da epHealth, empresa especializada em inteligência para a Atenção Primária à Saúde, esse é um dos principais riscos associados a um Super El Niño. No Sul, por exemplo, pode provocar chuvas intensas, enchentes e deslizamentos, favorecendo a exposição à água contaminada, o deslocamento de famílias para abrigos e a interrupção do acompanhamento de pessoas com doenças crônicas ou em tratamentos contínuos.
“Nesse cenário, os serviços de saúde tendem a enfrentar aumento de atendimentos por traumas, infecções, doenças respiratórias, descompensação de doenças crônicas e sofrimento psíquico. Ao mesmo tempo, cresce a demanda logística: localizar pacientes vulneráveis, garantir o acesso a medicamentos, manter tratamentos contínuos, reorganizar equipes e atender populações deslocadas”, afirma Marton Pereira.
Para o especialista, um dos principais desafios é transformar informações dispersas em uma visão atualizada do território. Em uma emergência, gestores precisam saber rapidamente quais áreas foram atingidas e onde vivem idosos, gestantes, crianças, pessoas acamadas e pacientes que dependem de medicamentos ou procedimentos contínuos. Sem esse mapa situacional, a resposta tende a ser mais lenta e menos precisa.
Do alerta climático ao plano: o que fazer?
Embora não seja possível prever exatamente quais municípios serão mais afetados por um Super El Niño, especialistas afirmam que as projeções climáticas já oferecem informações suficientes para orientar o planejamento da rede de saúde. “O El Niño altera as probabilidades de determinados eventos. Isso já é suficiente para melhorar o planejamento do setor de saúde”, afirma Iomani Engelmann. O primeiro passo, explica o executivo, é transformar as previsões climáticas em cenários de demanda assistencial e revisar previamente os impactos que o fenômeno pode causar na operação dos hospitais.
Para o executivo da epHealth, esse planejamento também deve considerar uma vantagem que o próprio Sistema Único de Saúde já possui: a capilaridade da Atenção Primária, que reúne informações sobre os territórios e a população atendida. O desafio é conectar esses dados aos planos de contingência e transformá-los em ações coordenadas.
“A tecnologia atua antes, durante e depois do evento. Antes, apoia previsões meteorológicas, alertas e planejamento de risco. Durante, permite atualizar as áreas atingidas, localizar populações vulneráveis, organizar equipes, identificar falta de medicamentos e acompanhar novas demandas. Depois, ajuda a monitorar surtos, a continuidade do cuidado e a recuperação dos serviços. A estrutura já existe; é necessário integrá-la aos planos de contingência antes que a crise aconteça”, destaca o presidente da epHealth. De acordo com ele, a Atenção Primária pode atuar como uma infraestrutura descentralizada de resposta às emergências, garantindo a continuidade dos tratamentos e articulando ações com a Defesa Civil.
Para Engelmann, porém, a tecnologia só produz resultados quando está acompanhada de processos bem definidos. “Ela precisa estar associada a processos claros, integração entre equipes, treinamento e capacidade de agir rapidamente”, diz. Isso significa revisar planos de contingência, testar rotinas, fortalecer a comunicação com pacientes e serviços da rede de saúde e reduzir o tempo entre o impacto do evento extremo e uma resposta coordenada. “O objetivo é evitar que as decisões mais importantes sejam tomadas apenas quando a crise já começou”, conclui o executivo.

