À medida que escalam, muitas startups veem o negócio crescer mais rápido do que sua capacidade de gestão, criando desafios internos que podem comprometer a operação. Segundo a especialista em recrutamento de C Levels e fundadora da PS Contrata, Paola Salgado, muitas empresas cometem o erro de adiar contratações estratégicas até que esses problemas já estejam instalados. “Os fundadores normalmente são excelentes tecnicamente, conhecem profundamente o produto e o mercado, mas nem sempre possuem experiência em gestão. Muitas vezes, enxergam a contratação de uma liderança mais madura apenas como um custo alto”.
O problema, segundo ela, é que essa economia inicial pode gerar prejuízos muito maiores no futuro. Um estudo da Gallup aponta que uma contratação equivocada pode custar até duas vezes o salário anual de um executivo quando se considera perda de produtividade, turnover e impactos operacionais. Já a Society for Human Resource Management (SHRM) estima que uma contratação errada pode representar perdas entre 30% e 50% do salário anual do profissional, percentual que tende a ser ainda maior em posições estratégicas.
“Já atendemos empresas que buscaram lideranças apenas quando a operação estava colapsada. Nesses casos, o custo sobe muito, porque a empresa precisa trazer alguém extremamente pronto, com repertório específico e capacidade imediata de reorganizar a operação”, avaliou Paola.
Por outro lado, quando a contratação de heads acontece de forma antecipada, antes de a operação se tornar um problema, há mais margem para atrair profissionais com salários mais competitivos, inclusive talentos que não necessariamente vêm do setor de tecnologia. “Esses profissionais conseguem se adaptar a uma nova área com muito mais tranquilidade”.
Além do impacto financeiro, startups também enfrentam dificuldades crescentes para atrair esses profissionais em momentos de crise. “Muitos executivos de tecnologia hoje já possuem salários altos, bônus agressivos e pacotes robustos de stock options. Aquilo que antes era um diferencial competitivo para startups já não é mais suficiente porque muitos desses profissionais já têm acesso a esse tipo de benefício.”
Com isso, empresas que demoram para contratar acabam restringindo drasticamente seu próprio funil de talentos e passam a buscar perfis extremamente específicos, com pouca margem para desenvolvimento interno. Paola relembra um processo seletivo recente para uma posição de COO em que a startup procurava uma liderança quando a operação já enfrentava um cenário crítico. “A profissional era excelente e, em um ambiente mais estruturado, teria total capacidade de crescer junto com a empresa e até assumir posições ainda maiores no futuro. Mas a operação estava tão pressionada que ela não teria tempo para passar pela curva natural de adaptação”.
Segundo a especialista, esse é um erro comum no ecossistema: acreditar que apenas executivos vindos do setor de tecnologia conseguem escalar startups.”Isso não é regra. Existem profissionais de outros setores com enorme capacidade de liderar processos de crescimento. O problema é que, quando a empresa demora demais para contratar, ela perde justamente o tempo necessário para desenvolver esses talentos.”
Casos como os da Shippify e da Soutag ilustram o movimento oposto. Antes que gargalos operacionais e financeiros se transformassem em crises estruturais, ambas anteciparam suas necessidades de gestão, reforçaram seus times e trouxeram lideranças estratégicas com tempo para adaptação e construção de processos.
No caso da Shippify, um exemplo citado por Paola foi a contratação, por meio da PS, de uma executiva para uma posição de Head quando a operação ainda estava saudável e em expansão. Vinda de outro segmento, ela teve tempo para compreender o negócio, estruturar processos e implementar melhorias de forma gradual.
O resultado foi concreto, pois após um período ela assumiu a posição de CFO Latam da companhia, demonstrando como contratações feitas no momento certo podem gerar impacto direto no crescimento sustentável do negócio. Embora esse tipo de movimentação represente um investimento inicial mais alto, Paola afirma que o retorno costuma ser mais consistente no longo prazo. “Crescer com estrutura é o que sustenta o negócio no longo prazo”, conclui.

