Depois de um período marcado por queda nos aportes, valuations pressionados e maior dificuldade para levantar novas rodadas, o mercado de venture capital voltou a mostrar sinais de força. Mas existe uma diferença importante entre a retomada do dinheiro e a volta do comportamento que predominou durante o boom de 2020 e 2021.
O capital está voltando. A tolerância ao crescimento a qualquer custo, não.
Os números de 2025 ajudam a explicar essa mudança. Nos Estados Unidos, empresas de venture capital movimentaram US$320 bilhões em mais de 15 mil negócios, alta de 51% no valor investido em relação a 2024, segundo dados da PitchBook publicados pela National Venture Capital Association (NVCA). Ao mesmo tempo, 65,4% do valor investido foi destinado a empresas de inteligência artificial.
Durante o período de abundância de capital, levantar uma nova rodada muitas vezes era apresentado como consequência de uma história de crescimento. Agora, o negócio precisa provar que é capaz de gerar valor. A mudança aparece também no tamanho e na concentração das rodadas.
No terceiro trimestre de 2025, os negócios abaixo de US$5 milhões representaram 50,3% das transações de venture capital nos EUA, contra 57% em 2024, o menor percentual da década, de acordo com o PitchBook-NVCA Venture Monitor. Ao mesmo tempo, investidores estão concentrando mais capital em empresas consideradas capazes de sustentar grandes teses de crescimento. No primeiro trimestre de 2026, cinco negócios responderam por 73% dos US$267 bilhões em valor de transações registradas nos EUA, segundo PitchBook e NVCA.
Isso não significa que startups menores deixaram de receber investimento, mas a seleção ficou mais rigorosa e os números agregados do mercado podem esconder uma realidade bastante desigual.
Receita crescendo é importante, número de clientes também. Mas investidores passaram a olhar com mais atenção para margem, retenção, custo de aquisição, eficiência comercial, geração de caixa, produtividade e capacidade de transformar crescimento em valor econômico.
O próprio PitchBook-NVCA destacou, em sua análise de 2025, que fundadores que mantêm foco nos fundamentos, crescimento disciplinado e capacidade de preservar alternativas de financiamento tendem a estar melhor posicionados no longo prazo. É uma mudança de mentalidade do mercado, que deixou de ter como objetivo a próxima rodada, mas agora foca em construir uma empresa que não dependa permanentemente dela.
Existe outra razão para a maior seletividade, o investidor também precisa devolver resultados para quem colocou dinheiro no fundo. Em 2025, os exits de empresas apoiadas por venture capital nos EUA somaram US$217,1 bilhões, mais que o dobro do ano anterior. Ainda assim, esse valor correspondia a apenas 27% do pico registrado em 2021, segundo a NVCA. O ecossistema terminou o ano com 859 unicórnios ativos, avaliados em US$4,34 trilhões.
O que vemos é muito capital entrando e uma quantidade ainda limitada de liquidez saindo. Para o investidor, isso aumenta a importância de pensar desde o início em como o negócio pode chegar a uma aquisição, IPO ou outra forma de liquidez. Para o empreendedor, significa que a tese de investimento precisa estar acompanhada de uma tese de criação de valor.
A volta dos investimentos não significa que o “inverno das startups” simplesmente terminou e o mercado voltou ao passado. Os dados mostram um ambiente mais seletivo, concentrado e desigual. A inteligência artificial absorveu uma parcela extraordinária do capital, grandes rodadas dominaram os números e a liquidez continua sendo uma preocupação para o ecossistema.
Finalizo destacando que para quem empreende, é preciso entender que o crescimento continua sendo importante, mas precisa vir acompanhado de eficiência, fundamentos sólidos e uma trajetória plausível de criação de valor. Já para quem investe, já não basta encontrar empresas que crescem, mas identificar quais conseguem transformar capital em vantagem competitiva, execução e, no futuro, retorno.

