
A inteligência artificial (IA) entrou no centro da estratégia de crescimento do Grupo Supero, ecossistema catarinense de tecnologia especializado em operações complexas, engenharia de software, integração de sistemas e inteligência artificial. Para a empresa, o caminho para a adoção da tecnologia nem sempre começa pela pergunta sobre onde usar IA. Muitas vezes, começa justamente pelo contrário: entender onde ela não é necessária. “Tem cliente que chega e diz: ‘eu preciso fazer alguma coisa com IA’. E aí ele não sabe o que precisa e nem se precisa”, afirma o Chief Revenue Officer (CRO) do grupo, André Junges. Em alguns casos, segundo ele, a recomendação do próprio Grupo Supero é não utilizar inteligência artificial. “Se tu quiser gastar e só para dizer que é IA, vamos fazer com IA, mas não precisa. Dá para fazer o mesmo resultado com muito menos”.
A posição ajuda a explicar a estratégia que vem sustentando uma nova fase da empresa. Com 22 anos de trajetória, o Grupo Supero construiu seu negócio a partir do desenvolvimento de softwares personalizados para grandes empresas. Nos últimos anos, passou a investir de forma mais estruturada em tecnologias emergentes, como inteligência artificial, machine learning, LLMs e analytics. O movimento ganhou força a partir de 2024 e se tornou um dos motores do crescimento recente. Em 2025, o grupo cresceu 40%, enquanto a área de inovação, segundo a empresa, avançou 200% no período.
A expansão também acontece para fora do Brasil. O Grupo Supero realizou uma aquisição na Itália e um investimento em uma empresa de Portugal, ampliando sua presença na Europa e, no caso português, incorporando ao portfólio uma solução especializada em logística portuária, segmento no qual a companhia já possui forte atuação no mercado brasileiro. A estratégia combina acesso a novos mercados, tecnologia e conhecimento de setores específicos.
Quando a IA começa pelo chão de fábrica
O posicionamento do Grupo Supero está ligado à origem da empresa. Diferentemente de companhias que desenvolvem um software de prateleira e o comercializam para diferentes clientes, o grupo trabalha historicamente com soluções construídas sob medida. Essa característica passou a ganhar outra dimensão com a inteligência artificial. Em vez de oferecer uma tecnologia genérica, a empresa procura entender processos específicos e identificar onde a combinação entre software, automação e IA pode gerar impacto.
Em projetos industriais, por exemplo, Junges explica que a equipe pode começar indo até a linha de produção. “Os funcionários explicam como trabalham, onde gastam mais tempo e quais são os principais gargalos. A partir desse diagnóstico, levantamos diferentes possibilidades de aplicação tecnológica e apresentamos ao cliente uma análise de custo e benefício. A gente pensa em 50 soluções. E aí vai apresentando custo-benefício e o cliente vai escolhendo o que quer implantar”, afirma o Chief Revenue Officer (CRO) do Grupo Supero.
A lógica representa uma mudança importante na relação entre empresas e fornecedores de tecnologia. Em vez de partir de uma ferramenta e procurar um problema para ela resolver, o processo parte da operação e chega à tecnologia. Para Junges, é justamente aí que está uma das diferenças entre uma solução personalizada e um produto generalista. “Quando o software é desenvolvido especificamente para determinado processo, a tecnologia pode atacar uma dor que não necessariamente existe da mesma forma em outra empresa”.
Do botijão ao dado de mercado
Um dos exemplos citados pelo executivo envolve uma empresa do setor de gás. Em uma primeira etapa, o Grupo Supero trabalhou em um sistema de autoatendimento. Havia, porém, um problema operacional: o consumidor poderia entregar um botijão de determinado tamanho e retirar outro maior, gerando prejuízo para a empresa. Junges ressalta que a solução combinou tecnologia LiDAR, capaz de mapear objetos em três dimensões, com algoritmos de inteligência artificial. “O sistema passou a identificar o tamanho do recipiente e restringir a retirada a um botijão equivalente”.
Em outro projeto, a empresa desenvolveu um aplicativo para ajudar o consumidor a identificar se um botijão está cheio ou vazio. Para isso, foram feitas gravações do som produzido ao bater no recipiente em diferentes níveis de preenchimento. A IA passou a analisar essas características para estimar a quantidade de gás. O projeto, entretanto, gerou um efeito que vai além da experiência do consumidor. A empresa passou a obter informações sobre onde e como o aplicativo estava sendo utilizado. Com esses dados, foi possível identificar regiões de maior demanda e direcionar a distribuição dos botijões. “É um exemplo do tipo de aplicação que o Grupo Supero busca desenvolver: uma tecnologia que resolve uma tarefa específica, mas que também produz novos dados para apoiar decisões do negócio”, destaca Junges.
Brasil e Europa em ritmos diferentes
Segundo Junges, a expansão internacional adicionou outra camada à estratégia do Grupo Supero. A aquisição na Itália e o investimento em Portugal colocaram a empresa em contato mais direto com o mercado europeu. Ele conta que percebe diferenças importantes entre os mercados. “O processo comercial europeu é mais longo e depende mais de provas sociais locais. Ter experiência com grandes empresas no Brasil não significa, necessariamente, que a mesma referência será suficiente para conquistar um cliente europeu”.
Além disso, o ambiente também é mais regulado, especialmente em temas relacionados à proteção de dados e inteligência artificial. Para o executivo, esse cenário torna os projetos mais complexos, mas também exige um nível maior de preparação das empresas de tecnologia. “Portugal apresenta um ritmo um pouco mais rápido dentro desse contexto”, destaca Junges.
A estratégia internacional, portanto, não se resume a vender no exterior. A companhia também busca utilizar a presença europeia para acessar tecnologias e conhecimentos que possam ser aplicados no Brasil.
Entender ainda mais o negócio
Se a primeira fase da transformação do Grupo Supero foi combinar desenvolvimento sob medida e novas tecnologias, o próximo movimento pretende adicionar uma camada ainda mais profunda de especialização: o conhecimento sobre os setores atendidos. “Hoje a gente está direcionando muito para uma linha de especialização em negócio”, afirma Junges.
A estratégia é trabalhar com nichos cada vez mais específicos. Em vez de atuar simplesmente com logística, por exemplo, a empresa busca aprofundar sua atuação em logística portuária. Para isso, traz especialistas que conhecem profundamente o setor e conseguem traduzir os problemas da operação para a equipe tecnológica. “O mesmo movimento começa a ser aplicado a outros segmentos, como finanças, cooperativas e indústria”, destaca Junges.
Esse posicionamento também aparece na própria operação interna do Grupo Supero. A companhia vem utilizando inteligência artificial para modificar o processo de desenvolvimento de software e pretende levar parte dessa metodologia para outras empresas que não competem diretamente com seu modelo de negócio.
Um dos produtos criados a partir dessa experiência é o rivvn.ai, ainda em estágio inicial. A ferramenta utiliza agentes de IA para apoiar a etapa de documentação e planejamento que antecede a programação. Antes de uma linha de código ser escrita, projetos de software exigem definição de arquitetura, requisitos, histórias de usuário e uma série de outros documentos. Segundo Junges, essa etapa consumia muito tempo e frequentemente era negligenciada. “Com a aplicação de IA, reduzimos mais de 80% o tempo gasto nessa fase”.
Menos código, mais conhecimento
O movimento do Grupo Supero acompanha uma transformação maior no mercado de tecnologia. Se a inteligência artificial torna a programação mais acessível, a capacidade de simplesmente escrever código tende a deixar de ser o principal diferencial. “O valor passa a estar também na capacidade de compreender uma operação, identificar um problema relevante, avaliar se a IA realmente é necessária e construir uma solução que possa funcionar de maneira segura e economicamente sustentável”, destaca Junges.
É justamente nesse espaço que o Grupo Supero pretende crescer nos próximos anos: menos como uma fornecedora genérica de tecnologia e mais como uma empresa especializada em determinados negócios, capaz de combinar conhecimento setorial, desenvolvimento sob medida e inteligência artificial.

