A sobrecarga de trabalho tem se tornado um dos principais desafios para profissionais de saúde no Brasil. Um estudo epidemiológico baseado em dados do DATASUS identificou aumento de 96,4% nas notificações de burnout no país em dez anos, entre 2014 e 2024, com o maior número de registros concentrados em 2024. O cenário evidencia a pressão sobre profissionais que lidam diariamente com aumento da demanda, responsabilidade clínica e jornadas intensas em diferentes áreas da saúde.
Na medicina diagnóstica, o crescimento do volume de exames acrescenta pressão a uma rotina que exige concentração e precisão. Segundo o 7º Painel Abramed, as empresas associadas à entidade realizaram 24,4 milhões de exames de diagnóstico por imagem em 2024, alta de 43,4% em relação ao ano anterior. O aumento significa mais exames para analisar e mais laudos para produzir, revisar e entregar, colocando ainda mais pressão sobre os profissionais envolvidos nesse processo.
“A rotina do profissional de saúde envolve atividades que vão além da interpretação dos exames. Digitação, organização das informações, formatação de documentos e preenchimento de templates também ocupam parte do expediente e podem aumentar a pressão em atividades que exigem concentração constante”, explica Roberto Cruz, Co-CEO da Pixeon, uma das principais empresas de tecnologia para a saúde do Brasil.
Segundo Roberto, as transformações tecnológicas têm tido um papel importante para atenuar o cenário — especialmente as ferramentas de inteligência artificial, que conseguem reduzir o tempo gasto em tarefas repetitivas para que o profissional possa concentrar sua atenção na análise clínica. O especialista menciona exemplos como softwares que incorporam reconhecimento de voz baseado em IA ao ambiente de elaboração de laudos. No caso da radiologia, o profissional pode ditar o conteúdo, acompanhar a transcrição, revisar as informações e finalizar o documento no mesmo fluxo, sem precisar alternar entre diferentes aplicações.
“A ideia é usar a tecnologia para devolver tempo ao médico. Ao reduzir etapas manuais e tarefas que não exigem sua avaliação clínica, temos percebido que a IA diminui parte da sobrecarga da rotina e permite que o profissional dedique mais atenção ao paciente e àquilo que depende de sua expertise”, afirma Felipe Nirenberg, Diretor de Negócios da Laudite.
A tecnologia possui ganho médio estimado de 50% em produtividade na elaboração dos documentos. Para quem utiliza a ferramenta, o impacto aparece principalmente na redução do tempo dedicado ao laudo. O radiologista Rogério Lacerda relata uma redução de pelo menos 60% a 70% nesse tempo. Já o ultrassonografista José Carlos Godeiro afirma que documentos que antes ficavam para depois do turno passaram a ser concluídos durante o expediente. Para a diretora médica Mariana Coelho, a tecnologia permite combinar produtividade e padronização. “Consigo aumentar minha produção e garantir qualidade de formatação e digitação no relatório médico”, afirma.
“A inteligência artificial entra como uma ferramenta de apoio ao trabalho médico, não como substituta. Assim, a tecnologia permite que o radiologista seja mais eficiente sem abrir mão da análise e da decisão clínica, que continuam sob responsabilidade do profissional”, afirma Cruz.

