As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 deixaram uma evidência difícil de ignorar. Diante de eventos climáticos extremos, não basta prever. É preciso ter dados confiáveis e em tempo real para saber o que está acontecendo no território e orientar decisões.
Em Porto Alegre, sensores de radar instalados próximos aos rios foram atingidos e deixaram de funcionar. Justamente quando a cidade mais precisava de olhos sobre a água, parte deles foi levada pela própria enchente.
Um deles permaneceu funcionando a mais de 40 metros de altura durante todo o pico da crise. “Nosso sensor foi o único a ficar operante aqui durante as enchentes na capital gaúcha”, relata Vitor Hugo Almeida Júnior, co-fundador da TideSat Global, a startup por trás do equipamento.
Medir a água sem tocar na água
A TideSat não fabrica um sensor “melhor”. Ela resolveu um problema diferente. Em vez de posicionar equipamentos próximos ao rio, vulneráveis justamente no momento em que a informação é mais crítica, a empresa desenvolveu uma tecnologia que mede o nível da água a partir da reflexão de sinais de satélites de navegação. O sensor fica longe, no alto, fora de alcance da cheia, e ainda assim “enxerga” a água através dos sinais que ela reflete.
É por isso que, mesmo diante de uma enchente histórica, o equipamento continuou funcionando. “Ele consegue ficar monitorando mesmo quando atingir uma enchente desse tamanho”, explica Vitor.
A tecnologia nasceu em 2020, dentro de um laboratório ligado ao Instituto de Geociências, à Engenharia Cartográfica e ao Programa de Pós-Graduação em Sensoriamento Remoto da UFRGS. “Queríamos trazer essa tecnologia que estava sendo utilizada dentro do laboratório para toda a sociedade”, afirma Vitor.
O caminho não foi rápido. Quatro anos separam a fundação do primeiro faturamento, que só veio no fim de 2024 sustentado, até ali, principalmente por editais de subvenção. Hoje a equipe soma cerca de dez pessoas, entre sócios, estagiários e bolsistas de iniciação científica e mestrado. O professor Felipe Nevinski segue como conselheiro e mentor da empresa.
O verdadeiro problema não é a enchente. É o silêncio dos dados
Se a resistência física do sensor é o que chama atenção, para Vitor o desafio real da TideSat é outro, menos visível e mais estrutural: o Brasil simplesmente não tem dados suficientes.
Apenas cerca de 15% da rede nacional de monitoramento é telemétrica, ou seja, capaz de enviar informações em tempo real. Em um país continental, sujeito tanto a enchentes quanto a secas prolongadas, isso significa operar às cegas boa parte do tempo.
“Se não tiver dados, se não tiver informação, seja de nível d’água, seja de chuvas e etc., a gente não tem como ter um modelo mais assertivo para trabalhar essas previsões”, diz Vitor.
A ciência que pode nos proteger do El Niño 2026
A TideSat não quer só vender equipamentos, ela quer ampliar quem tem acesso à informação. Hoje são mais de 30 sensores operando no Rio Grande do Sul, atendendo a Prefeitura de Estrela, a autoridade portuária do Rio Grande do Sul, universidades como UFRGS, FURG e organizações como a Metsul e o Instituto Caldeira. Parte do trabalho está justamente ligada a levar mais monitoramento a órgãos públicos e Defesas Civis, historicamente carentes de dados em tempo real.
Para isso, a startup também desenvolve uma plataforma de visualização simplificada, pensada para transformar uma medição técnica em algo que qualquer pessoa consiga interpretar na hora de uma decisão urgente.
“A intenção da TideSat é democratizar o acesso dessa informação”, resume Vitor.
Três características tornam o sensor especialmente adequado para escalar: custo inferior ao das soluções convencionais, instalação em uma a duas horas mesmo em locais de difícil acesso e a possibilidade de ficar posicionado longe da água, sem perder precisão. É mais barato, mais rápido de instalar e mais resistente ao próprio fenômeno que se propõe a monitorar.
A trajetória da TideSat sintetiza o retrato de como conhecimento produzido dentro de uma universidade pode se transformar em infraestrutura de proteção para a sociedade civil. Nasceu num laboratório, foi testada sob pressão real durante a pior crise climática recente do estado, e saiu de lá comprovadamente mais resistente do que soluções já consolidadas no mercado.
Para este ano, o Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos elevou para 81% a chance de o El Niño atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026, o que colocaria o fenômeno entre os mais intensos já registrados desde a década de 1950. Modelos climáticos indicam ainda confiança elevada de que o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial deve permanecer ativo até o início do outono de 2027, prolongando os efeitos sobre o clima em diferentes regiões do planeta, o que inclui o Rio Grande do Sul, historicamente sensível ao fenômeno.
É exatamente nesse ponto que a história da TideSat deixa de ser sobre uma startup e passa a ser sobre janela de tempo. O Rio Grande do Sul já sabe, na pele, o que acontece quando a informação falta no momento em que mais se precisa dela. Com um novo El Niño de proporções potencialmente históricas se formando no horizonte, ampliar o monitoramento em tempo real deixou de ser uma meta de longo prazo, virou uma corrida contra um prazo que já está marcado no calendário.

