A inteligência artificial já saiu da fase experimental e passou a integrar a operação diária de empresas brasileiras. O problema é que, em muitos casos, a adoção avançou mais rápido do que a capacidade das organizações de monitorar, controlar e governar esse uso. O fenômeno, conhecido no mercado como “Shadow AI”, começa a preocupar lideranças de tecnologia e áreas de compliance ao reproduzir um movimento semelhante ao da chamada “Shadow IT”, quando colaboradores passaram a adotar tecnologias fora da supervisão formal dos departamentos de TI nos anos 2000 — agora com impacto potencialmente maior, envolvendo dados sensíveis, automação de decisões e operações críticas.
Uma pesquisa global da Salesforce com mais de 14 mil profissionais de 14 países apontou que 28% dos trabalhadores já utilizam ferramentas de IA generativa no ambiente de trabalho e, entre eles, mais da metade faz isso sem aprovação formal das empresas. Cerca de 39% dos trabalhadores também afirmam que suas empresas não possuem uma posição clara sobre o uso de IA generativa no ambiente corporativo.
Na prática, ferramentas de inteligência artificial já são utilizadas de forma descentralizada em áreas como atendimento, vendas, marketing, jurídico, RH e desenvolvimento de software, muitas vezes sem políticas corporativas definidas, monitoramento centralizado ou rastreabilidade sobre quais dados estão sendo processados. “A IA deixou de ser um tema restrito à inovação ou à TI: hoje ela está distribuída pela operação das empresas. O que vemos é que a adoção aconteceu mais rápido do que a capacidade de governança”, afirma o CGO da Premiersoft, João Paulo Ros.
Segundo o executivo, o cenário atual cria uma nova camada de complexidade para empresas de médio e grande porte: “As organizações sabem que colaboradores estão usando IA, mas muitas vezes não sabem exatamente como, com quais ferramentas, quais dados estão sendo enviados ou quanto isso já representa em custo operacional”, diz João Paulo.
A avaliação da Premiersoft é baseada no trabalho desenvolvido pelo Innovation Hub da empresa e no relacionamento com organizações em processo acelerado de adoção de IA corporativa. Com quase 15 anos de atuação em tecnologia e transformação digital, a companhia atende grandes empresas de setores como financeiro, educação, indústria e serviços.
Segundo a Premiersoft, entre os principais problemas observados pelas empresas estão custos operacionais dispersos e difíceis de rastrear, múltiplas assinaturas contratadas sem controle centralizado, uso de modelos de IA sem políticas de segurança, ausência de rastreabilidade sobre prompts e respostas, exposição de informações corporativas a plataformas externas, dependência excessiva de um único provedor, e automações sem mecanismos adequados de supervisão.
“A IA já está em produção dentro das empresas, mas a camada de controle ainda está em estágio inicial. Ou seja, a operação avançou antes da governança”, afirma João Paulo. Segundo ele, a descentralização do uso é um dos principais fatores que diferenciam a atual onda de IA de ciclos tecnológicos anteriores. “Historicamente, a adoção de tecnologia corporativa passava pela TI”, explica. “Com IA generativa, as áreas passaram a contratar e utilizar ferramentas diretamente. Isso muda completamente o papel da governança tecnológica”.
A preocupação ganha relevância especialmente em setores regulados, onde temas como LGPD, auditoria, compliance e segurança da informação tornam o uso não monitorado de IA um risco operacional e jurídico. Segundo projeção da Gartner, até 2027 mais de 40% dos incidentes de vazamento de dados relacionados à inteligência artificial deverão ser provocados pelo uso inadequado de IA generativa em operações que envolvem diferentes jurisdições e fronteiras geográficas.
Um dos pontos mais críticos é a falta de visibilidade sobre custos e fluxos de dados. “O modelo de precificação baseado em tokens é extremamente difícil de prever para empresas que não possuem observabilidade estruturada. Muitas organizações só descobrem o tamanho real do consumo quando consolidam assinaturas, APIs e ferramentas espalhadas por diferentes áreas”, diz João Paulo.
Outro desafio recorrente é a ausência de rastreabilidade sobre decisões assistidas por IA: “Em muitos casos, não existe registro sobre qual modelo foi utilizado, qual prompt originou determinada resposta ou quem realizou determinada interação. Quando surge uma necessidade de auditoria, reconstruir esse fluxo se torna praticamente impossível”, afirma o executivo.
Plataforma busca criar camada de governança para IA corporativa
O avanço desse cenário levou a Premiersoft a desenvolver o Prismon, plataforma que foi oficialmente apresentada durante o 4CIO RS, evento voltado a lideranças de tecnologia realizado em junho no Rio Grande do Sul. A proposta da solução é funcionar como uma camada central entre empresas e provedores de IA, oferecendo monitoramento, controle de custos, rastreabilidade, observabilidade e políticas de governança sobre operações que utilizam inteligência artificial.
A plataforma permite consolidar diferentes modelos de IA em um único ambiente, monitorar consumo e custos em tempo real, definir políticas de uso por área, criar mecanismos de controle de acesso e registrar todas as interações realizadas. “A discussão não é mais se as empresas vão usar IA. Isso já está acontecendo. O desafio agora é garantir que esse uso seja seguro, eficiente, rastreável e sustentável do ponto de vista operacional”, afirma João Paulo Ros, da Premiersoft.
Sobre a Premiersoft
Fundada em Blumenau (SC), a Premiersoft atua há quase 15 anos em projetos de transformação digital para grandes organizações, incluindo empresas dos setores financeiro, educação, indústria e serviços. A companhia trabalha com desenvolvimento de software, squads dedicados, modernização de sistemas, sustentação de ambientes críticos e iniciativas voltadas à inteligência artificial e governança tecnológica.

