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No transporte rodoviário, ESG já não é diferencial, é condição de mercado

Kassio Seefeld
Última atualização: 16/03/2026 14:02
Kassio Seefeld - CEO da TruckPag
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Entre janeiro de 2023 e junho de 2024, transportadoras que adotaram práticas de ESG aumentaram em 16% sua participação de mercado e conquistaram 14% mais contratos com embarcadores que exigem critérios sustentáveis. Os dados, apresentados pelo pesquisador Cleverson Forato na TranspoSul 2025, evidenciam uma mudança estrutural no setor: o ESG deixou de ser discurso institucional e passou a atuar como um filtro real de competitividade no transporte rodoviário.

Apesar disso, o tema ainda desperta ceticismo. Para quem convive diariamente com o diesel caro, margens apertadas e a escassez de motoristas, falar de Environmental, Social and Governance costuma soar como custo adicional, burocracia ou algo distante da realidade da estrada. Essa percepção, no entanto, ignora o papel do ESG como ferramenta prática de gestão, eficiência e sobrevivência dos negócios.

A experiência recente do setor mostrou que empresas com visão de longo prazo tendem a atravessar períodos de crise com mais resiliência. Durante a pandemia, por exemplo, transportadoras que se posicionaram ao lado de seus parceiros e motoristas, entendendo seu papel essencial no abastecimento do país, conseguiram manter operações e crescer mesmo em um cenário adverso. Ainda que o conceito de ESG não estivesse no centro do debate naquele momento, seus princípios já orientavam decisões estratégicas.

No transporte, o pilar ambiental está diretamente ligado à eficiência operacional. O principal inimigo do meio ambiente é o mesmo que compromete o caixa das empresas: o desperdício. Estudos da NStech indicam que a gestão eficiente de frotas contribui para a redução da ociosidade dos veículos e para a melhora no consumo de diesel. Em frotas médias, pequenas variações percentuais representam economias mensais significativas. A redução da pegada de carbono, nesse contexto, é consequência direta do controle de custos.

Casos observados no setor mostram que, quando a gestão do combustível deixa de ser intuitiva e passa a ser orientada por dados, os resultados aparecem de forma consistente. Redução no preço médio do diesel, ganhos financeiros acumulados e melhor aproveitamento de negociações são efeitos recorrentes de modelos de gestão mais estruturados. O “E” do ESG, portanto, não deve ser visto como custo, mas como eficiência financeira aplicada.

O mesmo raciocínio vale para o pilar social. O transporte enfrenta um apagão de mão de obra, e motoristas qualificados estão cada vez mais seletivos. Dados da Confederação Nacional do Transporte indicam que investimento em treinamento, valorização profissional e previsibilidade operacional contribui para a redução de acidentes, economia de combustível e diminuição do turnover, um dos principais fatores de pressão sobre o caixa das transportadoras. Empresas que negligenciam esse aspecto lidam com mais acidentes, processos trabalhistas e dificuldade para escalar suas operações.

A governança, por sua vez, segue como o ponto mais sensível, especialmente em empresas familiares. A ausência de processos claros, a mistura entre finanças pessoais e empresariais e o uso de controles informais limitam o acesso a crédito e afastam grandes embarcadores. Pesquisas de inteligência logística apontam que a maioria dos contratantes já considera a gestão auditável um critério decisivo na escolha de parceiros. Sem governança, as melhores oportunidades simplesmente deixam de existir.

A maturidade do setor mostra que crescimento sem controle cobra um preço elevado. Processos, indicadores e transparência não travam a operação; ao contrário, garantem fôlego para atravessar crises, tomar decisões estratégicas e sustentar uma visão de longo prazo.

No transporte rodoviário, ESG não é modismo nem exigência distante de consultoria. Trata-se de um modelo de gestão que conecta eficiência operacional, cuidado com pessoas e credibilidade de mercado. Em poucos anos, não haverá distinção entre empresas “com” ou “sem” ESG. Existirão aquelas que se adaptaram, ganharam competitividade e seguem operando e aquelas que ficaram pelo caminho.

Encarar o ESG como custo é uma escolha. Entendê-lo como estratégia é o caminho para garantir que as transportadoras ainda estejam rodando em 2030.

TAGS:opinião
Por Kassio Seefeld CEO da TruckPag
Kassio Seefeld é CEO e cofundador da TruckPag, empresa de tecnologia de meios de pagamentos para frotas pesadas. Sob liderança do empreendedor gaúcho, a companhia atingiu o marco de R$2.2 bilhões transacionados por ano, com crescimento 100% bootstrap. Com mais de 15 anos de trajetória em negócios B2B, Kassio também é sócio da 3Sat Tecnologia. Seu estilo de gestão é marcado pela valorização da cultura organizacional, inovação contínua e pela execução prática como motor do crescimento. Além de sua atuação à frente dos negócios, Kassio escreve e compartilha conteúdos sobre empreendedorismo, gestão e mercado em seu blog, kassioseefeld.com.br.
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