Acabo de voltar de Davos. Para quem não sabe, Davos – eu também não sabia – é a cidade mais alta da Europa. O ar é rarefeito, seco, e no inverno, com uma neve branca e intensa. Há uma mistura estranha de quietude e intensidade no lugar. Helicópteros cortando o vale, conversas que transbordam de hotéis, cafés, salas paralelas e jantares que se estendem noite adentro. Líderes globais, investidores, inovadores, ministros, fundadores, todos se movendo rápido, falando com urgência, sentindo que algo fundamental está mudando.
Havia sinceridade genuína nas salas em que estive. E preocupação. E uma abertura crescente para “novas” perspectivas: sistemas de conhecimento indígenas, inteligência ecológica, pensamento de longo prazo, visões de mundo relacionais. E, ainda assim, por baixo de todo esse burburinho, senti uma corrente mais silenciosa atravessando as conversas. Não exatamente discordância. Nem resistência explícita. Mas incerteza.
Isso porque as pessoas sabem o que precisa mudar. O que ainda não é muito claro é como a mudança realmente acontece, não em discursos ou apresentações estratégicas, mas dentro de organizações vivas, com hábitos, incentivos, hierarquias e histórias.
Muitos painéis que terminavam com “precisamos de novos modelos”, mas sem indicar caminhos. Em conversas paralelas, ouvi pessoas admitiam, em voz baixa, que suas organizações dizem as coisas certas, e depois voltam ao “business as usual”.
A sensação que fica é que temos linguagem de sobra e pouca incorporação prática. Isso não é uma falha de intenção, mas sim algo muito mais estrutural.
A lacuna entre intenção e ação é real
O que muitos estavam contornando em Davos tem um nome na ciência: a lacuna entre intenção e ação.
Na psicologia, na neurociência, na economia comportamental e na teoria dos sistemas, o achado é consistente: saber o que deveria mudar não leva, de forma confiável, à mudança de comportamento. Mesmo compromissos fortes colapsam quando o sistema ao redor permanece o mesmo.
Nos indivíduos, essa lacuna explica por que as pessoas sinceramente querem viver de forma diferente, e não conseguem. É o estágio do “eu quero querer mudar”. Nas organizações, explica por que compromissos ousados raramente sobrevivem ao contato com a operação diária.
Insight, por si só, não reorganiza um sistema. Porque insight é um pensamento, e pensamentos não mudam coisas apenas existindo na mente.
Vale reforçar que Davos não foi superficial nas salas em que estive. O diagnóstico era sofisticado. Havia curiosidade genuína sobre pensamento sistêmico, letramento em futuros e formas de conhecimento que fogem dos referenciais ocidentais dominantes. Fui para lá levando perspectivas indígenas não como símbolo, mas como fontes reais de inteligência.
Por fim, pensar o futuro deixou de ser um exercício abstrato. O desafio agora é transformar visão em forma concreta. Isso exige olhar para como decisões são tomadas sob pressão, como prioridades são definidas e quais comportamentos são, de fato, incentivados.

