Durante muito tempo, ter informação foi uma vantagem competitiva no mercado financeiro. Quem conhecia melhor o cliente, tinha mais dados e conseguia acessá-los antes largava na frente na hora de conceder crédito. Essa vantagem mudou de lugar.
Hoje, nunca tivemos tanta informação disponível. Dados financeiros, cadastrais, transacionais e comportamentais podem ser cruzados em segundos. A inteligência artificial acelerou ainda mais esse movimento e colocou uma capacidade de processamento enorme ao alcance de praticamente qualquer empresa. Ainda assim, temos 81,7 milhões de CPFs e 9,1 milhões de CNPJs inadimplentes no Brasil, segundo dados da Serasa apresentados em 2026.
Esse contraste diz muito sobre o momento atual: ter informação não significa necessariamente tomar uma boa decisão. Quem trabalha com crédito conhece bem essa realidade. Coloque dez analistas em uma sala, entregue exatamente os mesmos dados sobre uma empresa e provavelmente teremos diferentes avaliações de risco. Um olhará o score. Outro perceberá uma queda de margem. Um terceiro dará mais peso à concentração de clientes ou às perspectivas daquele setor. Veja que a informação é a mesma, mas a leitura, não.
E acredito que é justamente aí que está a nova assimetria competitiva do crédito. O diferencial deixou de ser simplesmente acessar dados e passou a ser a capacidade de cruzá-los, interpretá-los e tomar decisões melhores e mais rápidas, de acordo com a realidade e o apetite de risco de cada negócio.
É nesse ponto que a inteligência artificial tem um papel enorme. Não para substituir o conhecimento de quem está no mercado, mas para ampliá-lo. A tecnologia consegue identificar correlações, acompanhar milhares de sinais simultaneamente e perceber mudanças que dificilmente seriam analisadas na mesma velocidade por uma pessoa.
Porque risco não é uma fotografia. É um filme. Quando um cliente deixa de pagar, a deterioração muitas vezes começou meses antes. O desafio é identificar esses sinais enquanto ainda existe tempo para agir. Essa é também uma das premissas centrais da discussão sobre a nova assimetria do crédito.
Mas existe uma parte dessa equação que continua humana. Nenhuma inteligência artificial tomou um café comigo, visitou um cliente ou passou anos acompanhando as particularidades de determinado setor. Experiência, contexto, relacionamento e julgamento continuam tendo peso enorme na decisão.
Por isso, não vejo essa transformação como uma disputa entre pessoas e tecnologia. Vejo como uma combinação. A IA aumenta nossa capacidade de enxergar. O profissional continua responsável por entender o que fazer com aquilo que está vendo. E quem fizer isso melhor terá uma vantagem que vai além da concessão de crédito.
Em um mercado no qual o funding pesa cada vez mais na rentabilidade das operações, ler risco melhor também significa ter melhores condições para captar e multiplicar recursos. Entre outros pontos, a apresentação que fiz recentemente ao mercado, evidencia o avanço dos FIDCs e da securitização e estabelece uma relação direta entre a qualidade da leitura de risco e a capacidade de funding.
No fim, o dinheiro é um só. A disputa está em quem consegue captá-lo, alocá-lo e multiplicá-lo melhor. E talvez a pergunta mais importante para o mercado de crédito daqui para frente seja esta: o que eu gostaria de ter sabido sobre esse cliente antes que aquele crédito virasse prejuízo?
Os dados para responder a essa pergunta provavelmente já existem. A vantagem estará em quem souber lê-los antes.

