Em muitas empresas, o líder que assume tarefas da equipe, resolve problemas de última hora e está sempre disponível é visto como exemplo de comprometimento. Mas essa postura, quando se torna rotina, pode produzir o efeito contrário ao esperado: gestores sobrecarregados, equipes dependentes e problemas organizacionais que permanecem sem solução.
Para Susana Azevedo, especialista em desenvolvimento de lideranças e sócia da Quantum Development, o risco não está em ajudar pontualmente, mas em transformar essa ajuda em um modelo permanente de funcionamento. “O líder começa a ocupar seu tempo com atividades que deveriam estar em outros níveis e deixa de fazer aquilo que é esperado do seu papel: olhar para o negócio, antecipar desafios, desenvolver pessoas, pensar estrategicamente. E há um risco de esgotamento, porque continua responsável pelo seu trabalho enquanto assume parte do trabalho dos outros”, explica.
A dinâmica pode criar um ciclo difícil de romper. O gestor assume as entregas porque acredita que a equipe não tem condições de realizá-las. Sem oportunidades para decidir, experimentar e aprender, os profissionais deixam de desenvolver justamente as competências necessárias para conquistar autonomia. O resultado pode afetar também o engajamento e a retenção de talentos. “O resultado pode ser um líder cada vez mais sobrecarregado e uma equipe cada vez mais dependente. E isso também tem consequências para o engajamento. Pessoas com potencial, que procuram desafios, autonomia e oportunidades de crescimento, podem começar a sentir que não têm espaço para se desenvolver. Algumas acabam por sair”.
Outro fator que alimenta esse comportamento é a dificuldade de alguns profissionais em abandonar a identidade de executores após assumirem cargos de gestão. Acostumados a serem reconhecidos pela capacidade de solucionar problemas, continuam concentrando decisões e atividades, mesmo quando deveriam priorizar o desenvolvimento de outras pessoas. Para Susana, essa mudança exige mais do que aprender técnicas de delegação. “E isso não se resolve simplesmente com um curso de delegação. Envolve rever crenças sobre controle, confiança, competência e até sobre a própria identidade profissional. Se acredito que ninguém fará tão bem ou tão rápido quanto eu, que espaço estou realmente criando para que os outros aprendam?”
A sobrecarga, porém, nem sempre nasce de dificuldades individuais. Excesso de prioridades, recursos insuficientes e processos pouco eficientes também podem levar gestores a compensar, com esforço pessoal, limitações da própria organização. Quando as entregas continuam acontecendo, mesmo à custa de jornadas excessivas, esses problemas podem permanecer invisíveis para a alta liderança. A especialista defende que a solução passe pela revisão de prioridades, pela participação das equipes nas decisões e por conversas mais transparentes sobre capacidade e recursos.
Há ainda uma contradição nos modelos de reconhecimento profissional. Enquanto as organizações defendem lideranças estratégicas, colaborativas e capazes de desenvolver equipes autônomas, muitas continuam premiando gestores que centralizam decisões e se tornam indispensáveis. Essa lógica pode perpetuar justamente os comportamentos que as empresas desejam transformar. “É importante olhar para os critérios de avaliação, reconhecimento e promoção. Porque os comportamentos não são moldados apenas pelo que dizemos esperar das pessoas, mas também pelo que efetivamente valorizamos.” Para Susana, enfrentar o problema exige uma abordagem sistêmica, que considere não apenas as competências individuais dos líderes, mas também a cultura, as relações de trabalho e os mecanismos de gestão que influenciam suas decisões.
Sobre a Quantum Development
Com foco no desenvolvimento de equipes de liderança de alta performance, a Quantum Development apoia seus clientes na profissionalização e na transformação da cultura organizacional em um mundo em constante evolução. Criada em 2021 pelas sócias-fundadoras Bianca Aichinger e Susana Azevedo, que somam mais de duas décadas de experiência no mercado corporativo nacional e internacional, a empresa tem em seu portfólio clientes como Grupo Leveros e Uappi.


