A autonomia financeira é uma das condições fundamentais para que mulheres possam fazer escolhas sobre a própria vida, construir seus projetos e romper ciclos de vulnerabilidade. No entanto, essa autonomia não começa apenas quando surge uma oportunidade de emprego, mas é construída ao longo de uma trajetória que envolve acesso à educação, qualificação profissional e condições para ingressar e permanecer no mercado de trabalho.
A vulnerabilidade ainda faz parte da realidade de muitas mulheres, especialmente quando o acesso à renda e ao trabalho é limitado. Dados do IBGE mostram que, em 2022, as mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e aos cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicaram 11,7 horas. No mesmo ano, 28% das mulheres que trabalhavam tinham jornadas de até 30 horas semanais, quase o dobro do percentual registrado entre os homens, de 14,4%. Esses números ajudam a dimensionar algumas das desigualdades que podem dificultar a construção de uma trajetória profissional e, consequentemente, o alcance de maior autonomia financeira.
A falta de renda própria ou de perspectivas concretas de inserção profissional pode tornar mais complexas decisões importantes ao longo da vida, como buscar uma nova moradia, sustentar os filhos ou até mesmo deixar uma relação em que não se sente segura. A dependência financeira não explica, por si só, situações de violência ou vulnerabilidade, mas reconhecer o peso da autonomia econômica é fundamental para compreender por que ampliar oportunidades de formação e trabalho também faz parte desse enfrentamento.
Nesse contexto, a qualificação profissional precisa ser compreendida como um investimento de longo prazo, mais do que preparar alguém para exercer uma atividade, a formação estruturada oferece conhecimentos técnicos, desenvolve competências e amplia as possibilidades de acesso ao mercado de trabalho. Entretanto, o acesso à formação ainda é marcado por desigualdades, para muitas meninas e mulheres, a necessidade de contribuir com a renda familiar, a sobrecarga de responsabilidades domésticas e a falta de recursos para custear os estudos dificultam a continuidade da trajetória educacional.
Por isso, não basta afirmar que a educação transforma vidas, é necessário criar condições para que essa transformação seja possível, com acesso à formação de qualidade, orientação profissional e oportunidades reais de inserção no mercado. Na Afesu, essa perspectiva orienta o trabalho de formação e desenvolvimento de meninas e jovens mulheres, por meio de iniciativas educacionais e cursos de qualificação profissional, a instituição busca ampliar horizontes, desenvolver competências e preparar as beneficiárias para os desafios do mundo do trabalho. O objetivo é que elas tenham mais ferramentas para construir seus projetos de vida, conquistar oportunidades e tomar decisões com maior autonomia.
A transformação depende da atuação conjunta das instituições de ensino, das empresas e do poder público, por meio da oferta de qualificação, oportunidades de emprego, remuneração digna e políticas que contribuam para a autonomia das mulheres. Embora a formação profissional contribua para a autonomia financeira e amplie as possibilidades de escolha, ela, sozinha, não elimina as desigualdades que ainda fazem parte da trajetória de muitas mulheres. Portanto, é fundamental assegurar oportunidades de trabalho, condições de permanência no mercado e redes de apoio para aquelas que enfrentam situações de maior vulnerabilidade.
Romper ciclos de vulnerabilidade exige olhar para além das necessidades imediatas e investir em condições para que cada mulher possa construir o próprio futuro. A qualificação formal é um passo importante nesse percurso porque amplia conhecimentos, fortalece competências e abre caminhos para a geração de renda. Garantir que mais meninas e mulheres tenham acesso a essa oportunidade não é apenas uma questão de empregabilidade, mas um compromisso com uma sociedade em que elas possam construir suas próprias trajetórias com mais autonomia, dignidade e liberdade.

