É comum observar que, em uma conversa sobre mulheres na tecnologia, o tema central seja sempre representatividade. Essa abordagem é sempre válida, uma vez que as mulheres representam apenas 19,2% das especialistas em Tecnologia da Informação (TI) no Brasil, segundo o Observatório Softex. Mas talvez seja hora de começarmos a pensar o que o mercado de tecnologia perde quando não consegue incorporar diferentes perspectivas.
Essa discussão ganha ainda mais relevância no mês dedicado a Ada Lovelace, matemática britânica frequentemente reconhecida como pioneira da programação. O Ada Lovelace Day, celebrado internacionalmente em outubro, nasceu justamente com o objetivo de dar visibilidade às mulheres que atuam em ciência, tecnologia, engenharia e matemática e criar referências para as próximas gerações.
A questão, porém, vai muito além de homenagear uma personagem histórica. Existe uma ideia persistente de que trabalhar com tecnologia significa, essencialmente, saber programar, mas essa visão é limitada. Criar um produto digital de sucesso exige compreender pessoas, comportamento, negócios, comunicação, design, segurança, dados e contexto. Exige saber identificar um problema relevante antes mesmo de pensar na solução tecnológica.
E, justamente por isso, diversidade de experiências pode ser uma vantagem competitiva. Uma equipe formada por pessoas com trajetórias semelhantes corre o risco de enxergar o problema sempre pelo mesmo ângulo. Uma equipe diversa, por outro lado, aumenta a possibilidade de questionar premissas, identificar necessidades que poderiam passar despercebidas e construir produtos que façam sentido para públicos diferentes.
Segundo a UNESCO, mulheres representam aproximadamente 35% dos estudantes de áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (conhecida pelo acrônimo STEM) no ensino superior no mundo, percentual que permaneceu praticamente inalterado na última década. No Brasil, a organização estima que mulheres ocupem 31% dos postos profissionais de STEM.
Nos países do G20, a situação também é desigual e a participação feminina entre profissionais de STEM está em torno de 22%, segundo relatório da UNESCO apresentado em 2024 durante a presidência brasileira do grupo. Vivemos uma economia cada vez mais digital, mas uma parcela significativa das pessoas que ajudam a construir essa economia ainda não está representada de maneira proporcional nos espaços onde as decisões tecnológicas são tomadas. Quem define quais problemas serão resolvidos, quais dados serão considerados e para quem um produto será desenhado influencia diretamente o resultado final.
A inteligência artificial torna essa discussão ainda mais urgente. Estamos ensinando sistemas a tomar decisões, recomendar conteúdos, analisar informações e interagir com milhões de pessoas. Quanto mais essas tecnologias participam da vida cotidiana, mais importante se torna perguntar quem está construindo esses sistemas e quais perspectivas estão presentes no processo.
Um relatório recente da UNESCO sobre mulheres e IA aponta que as mulheres continuam sub-representadas tanto em STEM quanto no desenvolvimento de inteligência artificial. O documento cita uma participação feminina de cerca de 28% na força de trabalho global da indústria de tecnologia.
Não basta, portanto, colocar mulheres no mercado de tecnologia. É preciso garantir que elas tenham espaço para influenciar decisões, liderar projetos, criar empresas e participar das discussões sobre os caminhos que a tecnologia deve seguir. As empresas de tecnologia precisam de profissionais capazes de traduzir problemas complexos em produtos simples, compreender diferentes usuários e enxergar oportunidades onde outros não enxergam. Produto, UX, pesquisa, dados, vendas, marketing, gestão, segurança, ética e conhecimento de mercado também fazem parte da construção tecnológica.
Nesse sentido, talvez o maior erro seja imaginar que diversidade é uma espécie de “meta de RH”. Ela pode ser, na verdade, uma variável de inovação. Ada Lovelace nos lembra que inovação nunca foi apenas sobre máquinas, foi também sobre imaginar possibilidades que ainda não existiam.
Por fim, mais de 170 anos depois, talvez a melhor forma de honrar esse legado seja garantir que a próxima geração de tecnologia seja construída por uma diversidade muito maior de mentes. Porque criar um produto digital de sucesso exige muito mais do que saber escrever linhas de código, mas entender o mundo que esse código pretende transformar.

