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Leitura: A inteligência artificial que importa chega antes da internação
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A inteligência artificial que importa chega antes da internação

Dr. Ricardo Moraes
Última atualização: 25/09/2026 15:48
Dr. Ricardo Moraes - Diretor Médico da Funcional
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Durante anos, tratamos o acesso a medicamentos como uma etapa essencialmente logística: prescrever, autorizar, comprar e dispensar. Esse raciocínio tornou-se insuficiente. Em doenças crônicas, uma compra que deixa de acontecer não representa apenas a ausência de uma transação. Pode ser o primeiro sinal de uma descontinuidade terapêutica que, semanas ou meses depois, reaparecerá na forma de descompensação clínica, pronto atendimento, internação, infarto, acidente vascular cerebral ou progressão da doença renal.

Talvez o avanço mais relevante da inteligência artificial na saúde não esteja em produzir mais uma resposta, um laudo ou uma recomendação. Está em reconhecer padrões que um sistema fragmentado não consegue enxergar. Ao conectar dados de prescrição, dispensação, frequência de compra, consultas, exames e sinistros, modelos analíticos podem identificar quem iniciou um tratamento e não retornou, quem passou a retirar o medicamento de modo irregular, quem alterna medicações ou prescritores e quem mantém aparente adesão, mas começa a utilizar serviços de urgência. Isoladamente, cada evento diz pouco. Em sequência, eles contam uma história.

Essa distinção é central. Inteligência artificial não significa adivinhar o futuro, mas reduzir o tempo entre o primeiro sinal e a ação. Também não significa transformar baixa adesão em culpa do paciente. A interrupção de um tratamento pode refletir barreira financeira, efeito adverso, dificuldade de acesso, baixa compreensão, fragmentação do cuidado ou um plano terapêutico inadequado. O algoritmo pode priorizar o risco. A resposta, porém, precisa continuar humana: contato, escuta, reavaliação e coordenação do cuidado.

Há uma dimensão econômica igualmente relevante. Uma análise da Funcional e da Prospera, baseada em mais de 1,12 milhão de beneficiários e 1,42 milhão de usuários do Benefício Farmácia, mostrou que eventos graves potencialmente evitáveis atingiram 1,93% dos pacientes internados, mas responderam por 3,74% do custo hospitalar acumulado. No mesmo estudo, cada R$1 investido no subsídio de medicamentos de uso contínuo esteve associado a um potencial de evitar R$2,70 em exposição a custos com internações graves. Não se trata de afirmar a causalidade automática, mas de reconhecer que grupos relativamente pequenos podem concentrar uma oportunidade desproporcional de cuidado e eficiência.

Essa lógica já aparece em análises internacionais. A McKinsey observa que operadoras que combinam dados dos benefícios médico e farmacêutico produzem melhores insights e coordenam o cuidado; em outro estudo, propõe algoritmos preditivos para segmentar o risco de abandono. A EY-Parthenon afirma que a IA cria mais valor quando muda decisões, não apenas tarefas, transformando a operadora de administradora de benefícios em orquestradora do cuidado. IQVIA e Deloitte convergem no fundamento: prontuários, sinistros, prescrições e dispensações só ganham valor quando formam uma visão longitudinal e acionável da jornada.

Existe, portanto, uma diferença importante entre digitalizar a fragmentação e construir inteligência. Mais dados não significam, necessariamente, melhores decisões. Sem interoperabilidade, contexto clínico e governança, a tecnologia apenas acelera processos antigos. Sem critérios claros, pode amplificar vieses, produzir alertas em excesso e comprometer a privacidade. Modelos aplicados à jornada medicamentosa precisam ser explicáveis, auditáveis, validados na população em que serão utilizados e submetidos à supervisão humana. Seu propósito deve ser ampliar cuidado e acesso, nunca criar barreiras ou penalizar o paciente.

Esse novo olhar muda o papel de cada ator. O Benefício Farmácia deixa de ser apenas uma linha de despesa e passa a funcionar como sensor de saúde populacional. A operadora deixa de observar somente o sinistro depois que ele acontece e começa a acompanhar trajetórias. O profissional ganha visibilidade sobre o que ocorre entre as consultas. E o paciente deixa de ser lembrado apenas após a complicação para ser apoiado quando ainda existe tempo para mudar o desfecho.

A inteligência artificial transformará o acesso aos medicamentos quando fizer algo mais valioso do que prever: permitir que o sistema aja no momento certo. Na saúde, inteligência não é apenas saber quem poderá custar mais. É reconhecer quem precisa de cuidado antes que o custo se transforme em evento e o evento, em sofrimento evitável.

TAGS:opinião
Por Dr. Ricardo Moraes Diretor Médico da Funcional
Diretor Médico da Funcional.
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