Existe uma pergunta que mulheres em posições de liderança ainda escutam, às vezes explicitamente, às vezes apenas nas entrelinhas: como você consegue conciliar uma carreira ambiciosa com a vida pessoal?
Durante muito tempo, essa pergunta me incomodou porque parte de uma premissa que considero equivocada: a de que precisamos escolher. Como se existisse, de um lado, a mulher que quer construir uma carreira, liderar pessoas, criar empresas e realizar projetos. E, do outro, aquela que quer ter uma vida pessoal saudável, cuidar de si, estar presente para as pessoas que ama e preservar sua saúde mental.
Eu não acredito nessa escolha. Acredito que ambição profissional e vida pessoal podem (e precisam) existir juntas. Mas isso não acontece por acaso. Exige clareza, método, limites e, principalmente, disposição para olhar para a própria saúde mental com a mesma seriedade com que olhamos para os resultados de uma empresa. O Setembro Amarelo é um bom momento para falarmos sobre isso.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com algum transtorno mental, e condições como ansiedade e depressão têm impacto direto na capacidade de trabalhar, aprender e participar da vida cotidiana. A própria OMS estima que depressão e ansiedade provoquem a perda de aproximadamente 12 bilhões de dias de trabalho por ano, com um custo de quase US$1 trilhão para a economia global.
Esses números mostram que saúde mental não é uma pauta periférica. Ela está diretamente relacionada à nossa capacidade de viver, trabalhar, liderar e tomar decisões. E, quando falamos de mulheres em posições de liderança, existe uma camada adicional de complexidade.
Outra questão é que existe uma romantização perigosa em torno da mulher que “dá conta de tudo”. Ela lidera uma empresa, participa de reuniões, toma decisões difíceis, desenvolve pessoas, cuida da casa, da família, dos relacionamentos e ainda precisa aparentar que está tudo sob controle.
Mas ninguém constrói uma trajetória sustentável simplesmente suportando mais. Na minha experiência, uma das ferramentas mais importantes para preservar minha saúde mental é a terapia. Não vejo terapia como um recurso para ser utilizado apenas quando alguma coisa dá errado. Para mim, ela é também uma ferramenta de autoconhecimento, organização emocional e tomada de consciência.
Liderar significa tomar decisões o tempo inteiro. E quanto maior a responsabilidade, maior também é a necessidade de entender quais decisões estão sendo tomadas pela estratégia e quais estão sendo tomadas pelo medo, pela culpa, pela ansiedade ou pela necessidade de corresponder às expectativas dos outros. A terapia ajuda a criar esse espaço de reflexão, não para eliminar os problemas, mas para ajudar a enxergá-los de outro lugar.
Existe também uma narrativa bastante difundida de que mulheres precisam encontrar um “equilíbrio” entre carreira e vida pessoal. Eu prefiro pensar em integração, pois não quero precisar escolher entre ser uma profissional ambiciosa e ter uma vida pessoal significativa. Me sinto chamada a construir e realizar coisas no mundo, tenho prazer em empreender, liderar, criar e transformar ideias em projetos concretos. E, ao contrário do que pode parecer, é justamente isso que me faz cuidar melhor da minha vida pessoal. Ou seja, uma coisa alimenta a outra (elas não competem).
Mas, para que isso aconteça, é preciso estratégia. Assim como uma empresa não cresce de forma sustentável sem planejamento, prioridades e indicadores, nossa vida também precisa de algum método. Isso pode significar definir horários em que o trabalho termina, estabelecer limites para reuniões, aprender a delegar, entender o que realmente precisa da nossa atenção e, principalmente, aceitar que nem tudo precisa ser resolvido imediatamente. Parece simples, mas na prática, especialmente para quem empreende, não é.
Como líderes, precisamos olhar para a forma como construímos ambientes de trabalho. Estamos criando uma cultura em que pedir ajuda é aceitável? As pessoas conseguem dizer que estão sobrecarregadas? Existe espaço para descanso? As metas são desafiadoras ou permanentemente inalcançáveis? A urgência é realmente necessária ou virou um padrão?
São perguntas difíceis, mas são perguntas que empresas que querem crescer de forma sustentável precisam fazer.
Por fim, quando falamos de empreendedorismo, estamos acostumados a discutir estratégia, crescimento, faturamento, inovação e produtividade, mas precisamos ampliar essa conversa, porque nenhum indicador de negócio existe isoladamente das pessoas que fazem esse negócio acontecer.
Acredito que essa seja uma conversa especialmente importante para as mulheres que estão ocupando cada vez mais espaços de liderança, e também para as jovens profissionais que estão começando suas trajetórias. A mensagem que eu gostaria de deixar neste Setembro Amarelo é simples: você não precisa esperar chegar ao limite para começar a cuidar de si; buscar ajuda não é sinal de fraqueza; ter limites não é falta de ambição; e descansar não é deixar de produzir.

