Perguntar ao ChatGPT “em quem devo votar?” pode parecer um atalho, mas é justamente o tipo de consulta que o eleitor deveria evitar. Com a campanha eleitoral em curso, a ferramenta pode ser mais útil para outra tarefa: pesquisar candidatos, comparar propostas e localizar informações públicas que normalmente exigiriam navegar por diferentes sites e documentos.
O primeiro passo é trocar a busca por uma recomendação por perguntas objetivas. Em vez de pedir qual candidato é “melhor”, o eleitor pode informar os temas que considera prioritários e solicitar uma comparação usando os mesmos critérios para todos. Para João Paulo Batistella, executivo de inovação e especialista em transformação organizacional, essa diferença é fundamental. “A IA pode ajudar a reunir informações sobre saúde, educação, segurança ou economia e mostrar como cada candidato se posiciona. O problema começa quando o eleitor transfere para a ferramenta a decisão sobre qual dessas posições considera melhor”, afirma.
Uma promessa também pode ser colocada à prova. Se um candidato diz defender determinada política, é possível pedir ao ChatGPT que procure votações anteriores, projetos apresentados ou medidas adotadas quando ele já ocupava um cargo público. O mesmo vale para propostas de campanha: o cargo tem poder para executá-la? Existe estimativa de custo? De onde viria o dinheiro? A medida depende de aprovação do Legislativo? No Brasil, informações sobre candidaturas, bens declarados, propostas e contas eleitorais podem ser consultadas em bases do Tribunal Superior Eleitoral, enquanto Câmara e Senado mantêm registros da atuação parlamentar.
O cuidado mais importante vem depois da resposta: abrir a fonte. Um levantamento divulgado neste ano sobre o comportamento de ferramentas de inteligência artificial em consultas eleitorais mostrou que apenas 12% das respostas analisadas encaminhavam o usuário para fontes oficiais. O dado reforça um problema conhecido dos modelos generativos: uma resposta pode parecer segura e bem construída mesmo quando contém informação incompleta, desatualizada ou incorreta.
Batistella considera que o eleitor deve tratar a IA como ponto de partida, e não como prova. “Se apareceu uma informação sobre patrimônio, votação, processo ou declaração de um candidato, é preciso chegar ao documento original. A facilidade de obter uma resposta não torna aquela resposta automaticamente verdadeira”, afirma. O mesmo cuidado vale para acusações, investigações e processos judiciais, que precisam ser apresentados com o estágio e o contexto corretos para não transformar uma informação parcial em conclusão.
Usado dessa forma, o ChatGPT não encurta a decisão do eleitor. Ele encurta o caminho até informações que antes exigiam navegar por programas de governo, bases eleitorais, registros legislativos e documentos públicos. A tecnologia pode ajudar a formular perguntas melhores e organizar as respostas, mas a avaliação do que importa e a escolha diante da urna continuam sendo do eleitor.


