A adoção de Inteligência Artificial (IA) no desenvolvimento de software tem avançado rapidamente entre grandes empresas de tecnologia. Na Zucchetti Brasil, multinacional italiana especializada em sistemas de gestão para setores como varejo, indústria e recursos humanos, que atende mais de 120 mil clientes no país, a implementação de uma metodologia de desenvolvimento assistido por IA já permitiu acelerar em até 685% a velocidade de entrega de produtos do portfólio.
O resultado foi alcançado a partir da adoção de um modelo baseado em Spec Driven Development (SDD), abordagem que utiliza especificações em linguagem natural para orientar o desenvolvimento de sistemas. Embora o conceito já exista no mercado, a Zucchetti criou uma adaptação própria do modelo, desenvolvida pelo seu laboratório Innovation & Research (IR), para integrar agentes de IA ao processo de programação.
Os primeiros impactos foram medidos em um período de 30 dias e envolveram 71 projetos distribuídos em 11 squads de desenvolvimento. A análise comparou estimativas históricas de esforço com o tempo efetivamente gasto após a adoção do modelo. Em média, os times alcançaram uma aceleração de 2,88 vezes no desenvolvimento. O maior ganho foi registrado pela Elofy, plataforma de gestão de desempenho e pessoas da companhia, que atingiu fator de aceleração de 6,85 vezes.
Segundo Bernardo Rachadel, responsável pela Diretoria de Inteligência Artificial da empresa, o projeto nasceu da percepção de que não bastava disponibilizar ferramentas de IA para os desenvolvedores, era necessário criar uma metodologia que permitisse utilizar essa tecnologia de forma estruturada, segura e escalável dentro da empresa. “Dessa forma, o profissional deixa de dedicar a maior parte do tempo à escrita manual de código e passa a atuar principalmente na definição das especificações, validação dos planos de implementação e supervisão dos resultados gerados pela IA”.
A infraestrutura utilizada é baseada nos modelos Claude, da Anthropic, operados por meio do Claude Code. No entanto, a empresa trabalha para tornar a arquitetura independente de fornecedor, permitindo a utilização de diferentes modelos de linguagem conforme a necessidade de cada projeto.
“Na prática, atividades que antes exigiam aproximadamente 30 horas de trabalho passaram a ser concluídas em cerca de quatro horas. Estimamos que o impacto potencial equivale a mais de R$ 5,4 milhões anuais em capacidade adicional de desenvolvimento”, destaca Rachadel.
37% do código gerado precisou de ajuste humano
A experiência também mostrou que os ganhos de produtividade dependem diretamente da qualidade das informações fornecidas aos modelos de IA. Segundo a análise realizada pela Zucchetti, os times que alcançaram melhores resultados foram aqueles que conseguiram estruturar com mais precisão o contexto dos produtos e das demandas apresentadas à Inteligência Artificial.
Por outro lado, equipes que ainda estavam em fase de adaptação à metodologia registraram ganhos menores e, em alguns casos, precisaram investir mais tempo na revisão e correção das entregas geradas pelos modelos. “Isso confirma que o uso da IA não elimina a necessidade de conhecimento técnico, mas aumenta a importância da capacidade humana de orientar e supervisionar a tecnologia”, comenta Gabriel Garcia, Heead de IA da Zucchetti Brasil.
Apesar dos ganhos de produtividade, o profissional afirma que a estratégia tem como objetivo ampliar a capacidade de entrega dos times de tecnologia. “Os desenvolvedores continuam sendo fundamentais porque são eles que definem o contexto, supervisionam o processo e garantem a qualidade do que é produzido.” Os resultados qualitativos observados durante o primeiro ciclo demonstram esse papel. De acordo com a empresa, 37% do código gerado pela IA precisou passar por algum tipo de correção ou ajuste realizado pelos desenvolvedores antes da entrega final.
Atualmente, cerca de 80 desenvolvedores utilizam a metodologia criada pela Zucchetti Brasil, número que deve chegar a aproximadamente 150 profissionais nos próximos ciclos de expansão. A expectativa da companhia é aplicar o modelo em um volume cada vez maior de produtos e transformar a IA em um componente permanente do processo de desenvolvimento. “O principal impacto dessa transformação será percebido pelos clientes, que terão acesso a produtos com ciclos de evolução mais rápidos, maior frequência de atualizações e maior capacidade de incorporar novas funcionalidades ao mercado”, destaca Bernardo Rachadel.
Para Gabriel Garcia, a tendência é que metodologias desse tipo se tornem cada vez mais comuns na indústria de software. “Assim como as metodologias ágeis transformaram o desenvolvimento de sistemas anos atrás, estamos vendo surgir um novo modelo baseado na colaboração entre desenvolvedores e IA. Ainda é um movimento inicial, mas os ganhos de produtividade mostram que ele deve se consolidar nos próximos anos”.
Sobre a Zucchetti
Com uma versatilidade de produtos que atendem múltiplos setores, de varejo a indústrias, lojas virtuais e sistemas para Gestão Estratégica de Pessoas, a Zucchetti fornece software para 750 mil empresas em todo o mundo. Sendo a primeira software house italiana e uma das maiores companhias da Europa no segmento, a empresa tem sedes por toda a Itália e está presente em mais de 50 países, tais como Alemanha, Estados Unidos, França, Suíça e, há 15 anos, no Brasil — onde conta com 120 mil clientes e mais de 4 mil parceiros. No país, a empresa mantém quatro pilares — software ERPs, software de automação comercial (PDV), sistemas de gestão para RH (HR Tech) e assinaturas digitais (D4Sign). No mundo, a Zucchetti conta com 8 mil pessoas colaboradoras. Entre seus clientes estão Banco Inter, Ifood, Stone, Lojas Marisa, Volkswagen, ArcelorMittal, Cimed, Danone, CSN e Marcopolo.

