O setor de arquitetura, engenharia e construção está passando por uma transformação profunda e irreversível. A digitalização do ambiente construído não é mais uma questão de “se”, mas, sim, de “como” implementá-la de forma escalável e confiável. A indústria está deixando para trás os fluxos de trabalho fragmentados e lineares para abraçar um ecossistema colaborativo, centrado em dados e nativo em Inteligência Artificial (IA).
A base para essa revolução é o openBIM, que atua como a “cola digital” de todo o processo construtivo. Ele padroniza a troca de informações por meio de formatos como IFC (Industry Foundation Classes) e BCF (BIM Collaboration Format), prevenindo a perda de dados ao longo das décadas de vida útil de um projeto.
Com o rápido avanço da Inteligência Artificial, surgiu um consenso claro entre os especialistas: esta tecnologia não tem utilidade sem dados de qualidade. O openBIM fornece o “combustível” estruturado e interoperável que a IA necessita para identificar padrões, prever cenários e automatizar tarefas. Afinal, a regra fundamental para a adoção da IA na construção é “trust in, trust out” (confiança na entrada, confiança na saída) e, nesse quesito, dados estruturados são essenciais para que a IA entregue valor real.
Um dos maiores potenciais dessa união entre BIM e dados abertos é a automação de conformidades. Iniciativas pioneiras, como o programa nacional holandês de licenciamento digital, local onde é reconhecido internacionalmente como um dos países líderes em implementação BIM, e o projeto internacional Hyve (FireBIM) para prevenção e combate a incêndios, realizado na Europa e que combina os códigos de diversos países, mostram como as validações de projetos podem ser integradas desde as fases iniciais de design. Assim, o principal desafio atual não é a tecnologia em si, mas a tradução de leis urbanas e regulamentações ambíguas para regras lógicas legíveis por máquinas.
Por isso, para suportar fluxos de dados em tempo real, o próprio padrão IFC está mudando. Especialistas criticam a fricção dos modelos monolíticos atuais e propõem uma evolução do IFC para uma arquitetura de “cintura fina” (narrow waist), ou seja, um núcleo simples, rápido e estável com extensões flexíveis. Isso permitirá o uso de atualizações baseadas em pequenas mutações (deltas) ao invés de transferências de arquivos pesados, facilitando a coordenação ágil e criando modelos verdadeiramente federados.
Nesse contexto, para que a digitalização funcione na prática, é necessária uma forte mudança cultural. O setor precisa parar de tratar o BIM como mera ferramenta de visualização 3D e passar a entender os modelos como complexos ativos de informação. O uso de fluxos de trabalho baseados na norma ISO 19650 e em Ambientes Comuns de Dados (CDE) abertos garante responsabilidade, rastreabilidade e integração precisa com sistemas de logística e gestão.
Apesar da empolgação em torno de motores de IA multimodais e da convergência entre BIM e Sistemas de Informação Geográfica (GIS), a mensagem final das lideranças do setor é de cautela. A IA é uma ferramenta para aumentar a capacidade criativa e produtiva, e não para substituir o julgamento humano. A responsabilidade por aprovações de projetos, decisões políticas e o desenvolvimento de soluções originais e autênticas deve permanecer nas mãos de profissionais experientes.
No futuro, a linguagem comum fornecida por padrões abertos continuará sendo a chave para garantir a confiança e o alinhamento de visão entre arquitetos, empreiteiros e gestores, transformando dados complexos em infraestruturas eficientes e sustentáveis. O verdadeiro avanço não está apenas na adoção de novas tecnologias, mas na capacidade das organizações de estruturar dados confiáveis, revisar processos e promover uma cultura orientada à colaboração e interoperabilidade. A IA poderá acelerar análises, automatizar conformidades e ampliar a produtividade, mas seu potencial dependerá diretamente da qualidade das informações que alimentam esses sistemas.
Nesse cenário, a tecnologia seguirá como aliada estratégica dos profissionais, ampliando a capacidade de decisão e execução em toda a cadeia da construção.

