O aumento das temperaturas extremas e a intensificação dos eventos climáticos vêm acelerando um mercado que, até poucos anos atrás, ainda era tratado como sazonal no Brasil. Hoje, a climatização deixou de ser associada apenas ao conforto e passou a ocupar um papel cada vez mais estratégico em residências, empresas e operações comerciais. O resultado é um setor que movimenta R$ 39 bilhões por ano no país e enfrenta falta de mão de obra qualificada. O Brasil também se tornou o 2º maior produtor mundial de ar-condicionado.
Esse cenário esteve no centro das discussões da Imersão de Vendas Denteck 2026, realizada no Auditório The Place Office, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre, reunindo colaboradores, parceiros e grandes nomes do mercado de climatização. Entre eles estava o Head de Vendas da Gree Electric Appliances, Carlos Murano, que aponta o Brasil como um dos mercados mais promissores do mundo para a climatização.
Segundo Murano, o crescimento do setor está diretamente conectado às transformações climáticas observadas globalmente. “As questões climáticas e o efeito estufa movimentam muito o segmento de ar-condicionado. A gente vê cada vez mais aumento de demanda de ar-condicionado para vários países”.
A percepção do executivo acompanha uma mudança estrutural no mercado. Se antes o ar-condicionado era visto majoritariamente como item de conforto ou luxo, hoje ele passa a integrar a infraestrutura básica de residências, escritórios, hospitais, centros logísticos e estabelecimentos comerciais. O fenômeno se intensifica especialmente em países de clima tropical e subtropical, como o Brasil.
Mesmo com o avanço das vendas nos últimos anos, Murano avalia que o potencial de crescimento ainda é enorme. “Até pouquíssimo tempo atrás, menos de 25% das residências no Brasil tinham ar-condicionado”, destaca. O dado ajuda a explicar o interesse crescente de fabricantes internacionais pelo país e a expansão da produção nacional.
A própria Gree mantém fábrica no Brasil desde 2018, resultado de um investimento de quase US$ 30 milhões, segundo o executivo. Embora a companhia não tenha anunciado novos aportes de grande porte neste momento, a estratégia atual está concentrada na renovação do portfólio e na introdução de produtos mais eficientes e sustentáveis. “O mercado está muito competitivo, então a gente busca diferenciação em qualidade e tecnologia”, explica Murano.

Entre os lançamentos previstos para o segundo semestre estão equipamentos com gás refrigerante R32, considerado menos agressivo ao meio ambiente, além de sistemas inverter, que reduzem o consumo de energia elétrica. “Toda nossa linha hoje está com o R32, olhando muito para essa questão de sustentabilidade”, afirma.
Além da preocupação ambiental, outro desafio ganha relevância no setor: a necessidade crescente de mão de obra qualificada, tema que permeou as discussões do evento promovido pela Denteck Climatização, que reuniu distribuidores, instaladores e profissionais da cadeia HVAC em Porto Alegre. Para Murano, o modelo de negócios da Denteck exemplifica uma tendência importante da climatização moderna: a valorização do relacionamento técnico e da venda consultiva. “Você consegue mostrar valor no produto. Não fica simplesmente naquela guerra de preço de internet”, diz. Segundo ele, a presença de instaladores qualificados e vendedores especializados tem sido decisiva para diferenciar marcas em um mercado cada vez mais disputado.
Rio Grande do Sul, uma região estratégica
Nesse contexto, o Rio Grande do Sul aparece como uma região estratégica para o setor. O estado reúne características climáticas consideradas ideais para impulsionar a demanda por sistemas quente e frio ao longo de todo o ano. “Quando é frio, é muito frio. Só que quando é calor, também é muito calor”, resume Murano. “Isso, para o nosso segmento, é fantástico”.
O executivo afirma que Porto Alegre se tornou uma das cidades mais importantes em sua agenda de negócios no Brasil. “A cidade que eu mais visito é Porto Alegre”, comenta. Parte dessa relevância está ligada à presença de grandes distribuidores gaúchos que operam nacionalmente a partir do estado.
Ao mesmo tempo, os eventos climáticos extremos registrados recentemente na Região Sul reforçaram o debate sobre adaptação térmica, eficiência energética e infraestrutura urbana resiliente. Murano cita as enchentes no Rio Grande do Sul e os alertas relacionados ao El Niño como fatores que influenciam diretamente o comportamento do mercado. “Tudo isso afeta o meu negócio, afeta o negócio de ar-condicionado”.
Tendência global
O cenário global segue na mesma direção. Em encontro internacional realizado pela Gree na China no ano passado, o executivo relata ter percebido uma convergência entre diferentes mercados: independentemente da região, o ar-condicionado segue como prioridade estratégica para distribuidores e fabricantes. “Todos eles, sem exceção, buscavam negócio em outras categorias, mas nenhum deixava de lado o ar-condicionado”, diz.
Com um mercado ainda pouco explorado no Brasil, demanda crescente impulsionada pelo calor extremo e uma indústria cada vez mais voltada à eficiência energética, a climatização se consolida como um dos segmentos industriais mais aquecidos do país.

