Dois anos após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, o debate sobre sustentabilidade no território gaúcho precisa, necessariamente, sair da esfera emergencial e entrar no campo da análise estrutural. Não se trata mais de discutir a resposta imediata à crise, mas de avaliar o que, de fato, foi transformado e, principalmente, o que permanece vulnerável. Esse deslocamento de olhar é essencial porque desastres dessa magnitude não são eventos isolados, mas expressões de fragilidades acumuladas ao longo do tempo.
As enchentes foram reconhecidas como o maior desastre climático da história do estado, afetando cerca de 2,4 milhões de pessoas em 478 municípios, mais de 95% do território gaúcho. O impacto humano foi devastador: mais de 180 mortes, dezenas de desaparecidos, centenas de feridos e um deslocamento massivo de população, com mais de 580 mil desalojados e cerca de 100 mil desabrigados. Paralelamente, aproximadamente 100 mil residências foram danificadas ou destruídas, enquanto os prejuízos econômicos ultrapassaram rapidamente a marca de R$ 10 bilhões, atingindo de forma transversal infraestrutura, habitação, agricultura, comércio e indústria. Esses números não apenas dimensionam a tragédia, eles evidenciam o caráter sistêmico do colapso.
Diante dessa escala, torna-se insustentável tratar o ocorrido como um evento excepcional. O desastre expôs, de forma inequívoca, a interdependência entre fatores ambientais, sociais e institucionais, revelando problemas estruturais como ocupação desordenada do solo, infraestrutura insuficiente, ausência de planejamento adaptativo e desigualdades históricas que amplificam impactos. A resposta inicial, marcada por forte mobilização social, solidariedade e atuação de redes comunitárias, foi fundamental para mitigar os danos imediatos. No entanto, a sustentabilidade não se mede pela capacidade de reagir, mas pela capacidade de antecipar, adaptar e transformar, e é nesse ponto que a análise se torna mais crítica.
Dois anos depois, o debate não pode mais se limitar ao que foi feito no auge da crise, mas precisa enfrentar o que não foi feito no período seguinte. E é justamente aqui que emerge uma das principais fragilidades do processo de reconstrução: a distância entre o discurso institucional e a execução concreta. Ao longo desse período, acumulam-se anúncios, planos, promessas de investimento e projetos técnicos. No papel, a reconstrução avança. Na prática, ela se arrasta. Projetos não protegem territórios. Planos não contêm enchentes. Sem execução, o que se constrói é apenas uma narrativa de ação, não uma transformação real.
Essa lacuna se torna ainda mais problemática quando analisamos as escolhas estratégicas adotadas por Porto Alegre e pelo governo do Rio Grande do Sul. A busca por referências e soluções em outros países, frequentemente apresentada como inovação, revela uma desconexão preocupante com a realidade local. Importar modelos de territórios com dinâmicas climáticas, geográficas e urbanas distintas ignora um princípio básico da sustentabilidade: soluções eficazes são, necessariamente, contextualizadas. O Rio Grande do Sul não carece de conhecimento técnico. Universidades, centros de pesquisa e especialistas locais estudam há décadas as especificidades da região. Ignorar esse repertório não é apenas um erro estratégico, é uma escolha que fragiliza a capacidade de resposta.
Mais do que isso, a adoção de soluções externas, sem a devida adaptação, cria uma falsa sensação de avanço. Substitui-se a construção de soluções estruturais por uma lógica de vitrine, onde o discurso de modernização se sobrepõe à efetividade. Em um cenário de risco climático crescente, essa abordagem não apenas é insuficiente, ela é perigosa. Sustentabilidade exige leitura territorial, integração de conhecimento local e capacidade de adaptação. Sem isso, qualquer intervenção tende a ser superficial.
A crítica se intensifica quando observamos o tempo de resposta estrutural. Aguardar dois anos após o maior desastre climático da história do estado para iniciar obras que deveriam ter caráter emergencial revela uma falha grave de priorização. Em gestão de riscos, tempo não é um detalhe operacional — é um fator crítico. Cada período de inação mantém populações expostas, prolonga vulnerabilidades e aumenta a probabilidade de novos impactos. Nesse contexto, a demora não pode ser interpretada como mera burocracia: ela representa um descaso institucional com a urgência da situação.
Enquanto isso, os efeitos sociais da tragédia permanecem. A reconstrução, em muitos casos, não significou melhoria das condições de vida, mas apenas um retorno precário ao cenário anterior. As populações mais vulneráveis continuam enfrentando dificuldades de acesso à moradia digna, trabalho e serviços básicos, evidenciando que, sem equidade, não há sustentabilidade possível. Desastres não afetam todos da mesma forma, eles seguem e aprofundam as desigualdades existentes.
Do ponto de vista ambiental, embora o discurso sobre mudanças climáticas tenha avançado, sua tradução em políticas públicas estruturantes ainda é limitada. A incorporação de estratégias de adaptação, a revisão de modelos urbanos e o investimento em infraestrutura resiliente ocorrem de forma fragmentada e, muitas vezes, reativa. No campo da governança, apesar de avanços pontuais na articulação entre atores durante a crise, ainda há dificuldade em consolidar uma gestão de riscos que seja, de fato, estratégica e contínua.
Por outro lado, a experiência também evidenciou caminhos possíveis. A atuação de redes comunitárias, cooperativas e tecnologias sociais demonstrou que a resiliência territorial não depende exclusivamente de grandes estruturas institucionais, mas também da capacidade de organização local. Esses atores foram fundamentais na resposta imediata e seguem sendo essenciais na reconstrução. Isso reforça que sustentabilidade não é apenas técnica, é social, relacional e territorial.
No campo econômico, os prejuízos bilionários e a interrupção de cadeias produtivas deixaram claro que ignorar riscos climáticos não é apenas ambientalmente inadequado, mas economicamente inviável. Ainda assim, a capacidade de resposta segue desigual: enquanto grandes organizações começam a incorporar esses riscos em suas estratégias, pequenos negócios permanecem mais expostos, evidenciando a necessidade de uma abordagem mais inclusiva na construção da resiliência.
Diante desse cenário, o maior risco não é a repetição do evento em si, mas a repetição das condições que o tornaram tão devastador. A reconstrução representa uma oportunidade rara de transformação estrutural, mas isso exige mais do que planejamento, exige execução, prioridade e alinhamento com a realidade do território. Sustentabilidade, nesse contexto, deixa de ser um conceito aspiracional e se torna uma condição operacional para qualquer estratégia de desenvolvimento.
Dois anos depois, com dados que ainda refletem a magnitude da tragédia e com avanços que não acompanham a urgência necessária, a pergunta que se impõe é direta e inevitável: estamos, de fato, reconstruindo melhor, ou apenas criando as condições para que o próximo desastre encontre o território igualmente despreparado?
Referências
AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO (ANA). Estudo aponta que enchentes de 2024 foram o maior desastre natural da história do RS e sugere caminhos para o futuro com eventos extremos mais frequentes. Brasília, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/ana. Acesso em: 05 maio 2026.
DEFESA CIVIL DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL. Boletins e relatórios oficiais sobre as enchentes de 2024. Porto Alegre, 2024. Disponível em: https://www.defesacivil.rs.gov.br. Acesso em: 05 maio 2026.
GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL. Painel oficial: situação dos municípios afetados pelas enchentes. Porto Alegre, 2024. Disponível em: https://sosenchentes.rs.gov.br. Acesso em: 05 maio 2026.
BRASIL. Governo Federal. Relatórios de impacto econômico e social das enchentes no Rio Grande do Sul. Brasília, 2024. Disponível em: https://www.gov.br. Acesso em: 05 maio 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Indicadores socioeconômicos regionais e impactos de desastres naturais. Rio de Janeiro, 2024. Disponível em: https://www.ibge.gov.br. Acesso em: 05 maio 2026.
WIKIPÉDIA. Enchentes no Rio Grande do Sul em 2024. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Enchentes_no_Rio_Grande_do_Sul_em_2024. Acesso em: 05 maio 2026.

