A digitalização começa a ganhar espaço em uma das cadeias mais desestruturadas da economia brasileira: a reciclagem. De um lado, plantas industriais altamente automatizadas, capazes de processar centenas de toneladas por dia com precisão milimétrica. De outro, uma base ainda marcada por informalidade, baixa padronização e falhas na coleta e separação de resíduos.
Esse contraste define o estágio atual da reciclagem no país. E ajuda a explicar por que tecnologia e dados deixaram de ser apenas ferramentas operacionais para se tornarem parte central da estratégia de empresas que atuam no setor. “A digitalização na cadeia de reciclagem no Brasil ainda acontece de forma desigual, refletindo a própria estrutura do setor. Estamos falando de um ecossistema bastante fragmentado, que vai desde cooperativas e operadores informais, com baixa adoção tecnológica, até grandes empresas já altamente digitalizadas”, afirma o CIO do Grupo Multilixo, Marcelo Kotaki. “De forma geral, o Brasil hoje vive um estágio intermediário de maturidade digital: há ilhas de excelência convivendo com operações ainda analógicas”.
Quando dados deixam de ser suporte e viram infraestrutura
A mudança de papel da tecnologia na reciclagem não acontece por acaso. Três forças têm acelerado esse movimento: pressão regulatória, exigências crescentes da agenda ESG e a busca por eficiência em um setor historicamente pressionado por margens. Com a consolidação de políticas públicas voltadas à gestão de resíduos e o aumento da cobrança por transparência ambiental, empresas passaram a ser pressionadas a comprovar, com dados, o destino e o impacto dos materiais que colocam em circulação.
Nesse contexto, tecnologia e dados deixam de ser suporte e passam a ser infraestrutura crítica do negócio, viabilizando desde a rastreabilidade ponta a ponta até a geração de inteligência para tomada de decisão e ganho de escala. “É nesse cenário que o Grupo Multilixo se posiciona. Nós atuamos na fronteira da digitalização do setor, combinando a adoção de tecnologias consolidadas, inclusive soluções internacionais, com o desenvolvimento de ferramentas próprias, desenhadas para a complexidade da operação brasileira”, destaca Kotaki. Para ele, esse modelo híbrido permite não apenas ganhos de eficiência, mas também a construção de uma camada de inteligência operacional que conecta diferentes elos da cadeia.

O que a tecnologia já consegue resolver
Na prática, a digitalização da reciclagem acontece dentro das plantas industriais, onde a automação vem substituindo processos manuais e aumentando o nível de precisão na triagem de materiais. Na operação da Flacipel, braço de reciclagem do Grupo Multilixo, líder em gestão de resíduos privados em São Paulo, o uso de sensores ópticos, lasers de precisão e sistemas baseados em inteligência artificial permite identificar e separar mais de 130 tipos diferentes de materiais. “Isso aumenta eficiência, reduz perdas e garante qualidade dos insumos reinseridos na cadeia produtiva. Por outro lado, a tecnologia ainda não resolve tudo. Ainda temos muitos desafios, como, por exemplo, a educação e a conscientização para o descarte correto e a logística de coleta reversa, continuam sendo fatores que vão além da automação dentro da planta”, explica Kotaki.
Neste sentido, a Flacipel se posiciona como uma das principais empresas de reciclagem e economia circular aplicada em escala no país. A operação é hoje a maior planta de reciclagem da América Latina, com uma estrutura de mais de 20 mil m² e capacidade de processamento de até 8 mil toneladas por mês. O diferencial está na escala combinada com tecnologia industrial: são linhas automatizadas de separação que podem atingir até 350 toneladas por turno, garantindo consistência na qualidade dos materiais reciclados, algo ainda pouco comum no setor.
Na prática, estamos falando de uma operação altamente tecnológica, que identifica, separa e classifica materiais de forma automatizada, como, por exemplo, identificar uma garrafa Pet e a tampa da garrafa, que são plásticos distintos e tem tratamentos distintos na reciclagem. “A inteligência de dados permite monitorar todo o processo, gerar rastreabilidade e otimizar continuamente a operação”, aponta Kotaki.
Isso impacta diretamente a qualidade do material reciclado. “A automação aumenta a precisão da separação e garante maior padronização, o que torna esses materiais mais valiosos e mais facilmente inseridos na cadeia produtiva”, explica o executivo. No Grupo Multilixo, esse modelo é aplicado em uma lógica de operação industrializada, com investimentos em tecnologia operacional avançada e desenvolvimento contínuo de soluções próprias, o que amplia a capacidade de processamento e sustenta eficiência em escala sem comprometer a qualidade da triagem e do material final.
O que a tecnologia ainda não resolve
Apesar dos avanços, há limites claros para o impacto da digitalização. E eles começam antes mesmo de o resíduo chegar às plantas de reciclagem. Um dos principais gargalos está na origem: a baixa qualidade do descarte. Materiais misturados, contaminados ou separados de forma incorreta comprometem toda a cadeia, independentemente do nível de tecnologia aplicado na etapa industrial. “A tecnologia ainda não resolve tudo”, reconhece Kotaki. “A educação e a conscientização para o descarte correto continuam sendo fatores fundamentais”.
A tecnologia está avançando muito na organização e eficiência da cadeia, mas, não resolve o problema sozinha. Ela é essencial para escalar, padronizar e dar transparência ao processo. No entanto, a reciclagem depende de um ecossistema mais amplo, que envolve comportamento do consumidor (peça-chave), infraestrutura de coleta e integração entre os elos da cadeia. Ou seja, a tecnologia é uma parte fundamental da solução, mas não substitui a necessidade de mudanças estruturais no sistema como um todo.

ESG exige mais do que discurso
A pressão da agenda ESG adiciona uma camada extra de complexidade ao cenário. Se antes a sustentabilidade podia ser tratada como posicionamento, hoje ela exige comprovação. Relatórios, métricas e auditorias passam a depender diretamente da qualidade dos dados gerados ao longo da cadeia, o que reforça a importância da rastreabilidade. “A agenda ESG deixou de ser apenas discurso e passou a exigir resultados concretos, principalmente em termos de transparência, métricas confiáveis e comprovação de impacto. Quando o maior fundo americano de investimento diz que a sustentabilidade é a garantia dos negócios do futuro, isso diz muita coisa”, ressalta Kotaki.
Para o CIO do Grupo Multilixo, ainda existem gargalos importantes que a tecnologia, sozinha, não resolve. “Entre eles estão a fragmentação da cadeia, a baixa qualidade do material na origem, desafios logísticos e a necessidade de maior integração entre os agentes”.
Nesse cenário, a digitalização ganha um papel estratégico, não só como ganho operacional, mas como base para viabilizar a economia circular na prática. “Acreditamos que a tecnologia precisa caminhar junto de outras frentes estruturais, especialmente a educação ambiental, que influencia diretamente a qualidade da separação na origem e a efetividade de toda a cadeia”, explica Kotaki. Para ele, a combinação entre automação, rastreabilidade e conscientização é um dos caminhos mais consistentes para ampliar eficiência e transformar a forma como os resíduos são tratados.
O que vem pela frente
Para que a economia circular avance de forma consistente no Brasil, o caminho passa por uma combinação de fatores: mais tecnologia, maior integração entre os elos da cadeia, investimentos em infraestrutura e, principalmente, mudanças no comportamento de consumo e descarte. Segundo o CIO do Grupo Multilixo, a digitalização tende a seguir como um dos principais motores dessa transformação, especialmente na construção de uma cadeia mais rastreável, eficiente e escalável. “Mas o avanço real depende de algo mais básico: alinhar o que acontece dentro das plantas industriais com a realidade fora delas”.
Para ele, a reciclagem no Brasil começa a se estruturar como uma indústria de dados.
Mas ainda depende, em grande parte, de um sistema que segue analógico na origem. “É nesse descompasso que está o principal desafio do setor”.

