Com mais de 1 milhão de pontos de venda atendidos, presença em plataformas digitais que concentram grande parte de sua operação e 72% da receita já passando por canais B2B digitais, a Ambev vem acelerando o uso de inteligência artificial para transformar decisões em escala. Em um único trimestre, a companhia realizou 392 mudanças em sistemas e processos, sendo 81% delas conduzidas integralmente por IA, com tempo médio de oito dias por implementação. Na área de pesquisa de mercado, análises que antes levavam até três meses passaram a ser realizadas em cerca de um dia, com apoio de agentes inteligentes e modelos de dados avançados.
Os números foram apresentados durante o TDC Summit Inteligência Artificial 2026, realizado nos dias 23 e 24 de abril, no Distrito Anhembi, em São Paulo. O evento reuniu profissionais de empresas como Itaú, iFood, Nubank, AWS, Microsoft e NVIDIA para discutir aplicações reais de IA em ambiente de produção, com foco em escala, governança e impacto nos negócios.
No caso da Ambev, Mario Elias Vieira, Diretor de Data & Analytics da Ambev Tech explica que o uso da tecnologia evoluiu ao longo dos últimos dois anos, saindo de iniciativas pontuais para uma estratégia estruturada, que hoje integra desenvolvimento de software, construção de dados orientados por IA e uma mudança cultural para posicionar a tecnologia no centro da operação. A empresa criou uma diretoria dedicada exclusivamente ao tema e passou a tratar inteligência artificial como o centro do negócio.
Um dos principais avanços está na forma como a companhia passou a lidar com dados de mercado. Tradicionalmente, pesquisas combinavam análises quantitativas com interpretações qualitativas difíceis de mensurar e demoradas de consolidar. Com a IA, esse modelo foi redesenhado. A empresa estruturou uma jornada de dados que integra diferentes fontes e utiliza agentes de inteligência artificial para organizar, qualificar e analisar informações. Esses agentes são treinados para entender contextos específicos, validar dados e gerar recomendações com base em históricos e padrões identificados.
Outro ponto destacado foi o uso de “populações sintéticas”, técnica que permite expandir bases de dados existentes para simular comportamentos e testar cenários. Com isso, a companhia consegue gerar insights mais rápidos e aprofundados, mantendo etapas de validação humana ao longo do processo.
Além da aplicação em dados e pesquisa, a Ambev também enfatizou a importância da cultura para sustentar essa transformação. A empresa investe em trilhas de aprendizado para colaboradores, criou um centro de excelência em IA e vem disseminando casos de uso internamente, com o objetivo de acelerar a adoção e ampliar o impacto da tecnologia.
Cientista de dados do Itaú destaca boas práticas na adoção da IA
Outro ponto recorrente nas discussões do evento foi a necessidade de estruturar a inteligência artificial para além do potencial dos modelos. O cientista de dados do Itaú, Lucas Ximenes da Fonseca, destacou que o desafio atual está na construção de sistemas confiáveis em produção. Segundo ele, modelos de linguagem se tornaram amplamente acessíveis, o que desloca o diferencial competitivo para a forma como a tecnologia é implementada, governada e integrada aos processos.
A instituição defende o uso de engenharia de estados como forma de tornar agentes de IA mais previsíveis e auditáveis, especialmente em operações críticas, como transações financeiras. A abordagem busca garantir controle sobre cada etapa dos fluxos, reduzindo riscos e aumentando a confiabilidade dos sistemas.
As apresentações reforçam uma mudança de fase no uso da inteligência artificial nas empresas. Se nos últimos anos o foco esteve na experimentação, o movimento atual aponta para a consolidação da tecnologia como infraestrutura essencial de negócio, com impacto direto em produtividade, tomada de decisão e competitividade.


