Estamos vivendo uma mudança silenciosa e profunda na forma como o poder está sendo exercido dentro das organizações. Em 2026, a presença de mulheres em cargos de direção, conselhos e posições executivas deixou de ser exceção e passou a ser uma tendência estrutural. Não se trata apenas de diversidade ou representatividade, mas de uma transformação no modo como decisões são tomadas, riscos são avaliados e relações são construídas.
Esse movimento tem algo de histórico. Durante séculos, as instituições foram moldadas por uma lógica patriarcal, baseada em hierarquia rígida, competição interna, centralização do poder e culto à força e à velocidade. O que começa a emergir agora, ainda de forma desigual e atravessado por resistências, é uma lógica diferente. Um tipo de matriarcado institucional, não no sentido de domínio feminino, mas de uma racionalidade organizacional mais relacional, mais cuidadosa com pessoas, mais orientada à continuidade do que à conquista.
Mulheres na liderança tendem, em média, a trazer outras perguntas para a mesa. Perguntam mais sobre impacto, sobre pessoas, sobre reputação, sobre o que permanece depois que o trimestre termina. Em um mundo instável, marcado por crises climáticas, tensões sociais e incerteza econômica, essa forma de liderar não é “suave”, é estratégica. Governar bem em 2026 exige escuta, visão sistêmica, gestão de conflitos e capacidade de sustentar decisões difíceis ao longo do tempo.
Isso, evidentemente, não acontece sem tensão. Muitas mulheres que chegam ao poder ainda precisam operar dentro de estruturas desenhadas por homens e para homens. São pressionadas a performar força e agressividade para serem levadas a sério, ao mesmo tempo em que sofrem punições simbólicas quando o fazem. O matriarcado institucional nasce, portanto, dentro de um campo de contradições, sobrecarga emocional e resistência cultural.
Ainda assim, esse movimento se mostra especialmente relevante em um momento de transição profunda. Modelos tradicionais de liderança vêm se mostrando cada vez menos capazes de lidar com simultaneamente clima, desigualdade, ESG, inovação e pressão social. Lideranças femininas, por sua trajetória histórica, tendem a estar mais habituadas a navegar ambiguidade, escassez de poder, negociação e cuidado com vínculos, competências que hoje se tornaram centrais para a governança.
No contexto do ESG, isso ganha ainda mais força. Sustentabilidade exige pensar no longo prazo, proteger os mais vulneráveis, equilibrar interesses conflitantes e tomar decisões que nem sempre produzem ganhos imediatos. Essas são exatamente as competências que o modelo patriarcal de gestão deixou em segundo plano e que o matriarcado institucional começa a recuperar.
Mais do que uma agenda de diversidade, estamos assistindo à emergência de uma nova lógica de poder organizacional, em que liderar não é apenas mandar, mas sustentar sistemas vivos: pessoas, territórios, reputações e futuros. Em um mundo tão instável quanto o de 2026, essa mudança pode ser a diferença entre colapso e continuidade.

