Durante anos, minha rotina foi construída em torno de uma premissa silenciosa: se eu não estiver presente, as coisas não vão acontecer direito. Não era arrogância, era medo. Medo de soltar, de que o padrão caísse, de descobrir que eu era, de alguma forma, dispensável.
Eu não estava sozinha nessa armadilha. Uma pesquisa da Gallup com CEOs das empresas de maior crescimento nos EUA revelou que 75% dos empreendedores têm capacidade limitada de delegação. Três em cada quatro fundadores seguram mais do que deveriam. E pagam o preço: segundo um levantamento da Sifted com mais de 150 fundadores, 45% avaliam sua saúde mental como ruim ou muito ruim. Mais da metade já experimentou burnout.
A ironia é que segurar tudo não só adoece, também limita o crescimento. A mesma pesquisa da Gallup mostrou que CEOs com alta capacidade de delegação cresceram 112 pontos percentuais a mais em três anos e geraram 33% mais receita do que aqueles que centralizam. Delegar não é perder controle, é a condição para escalar.
Quando o positivo finalmente veio, depois de meses de Fertilização in Vitro, a primeira coisa que pensei não foi em enxoval ou nome. Foi: como a Vittude vai funcionar sem mim por alguns meses? A pergunta, olhando agora, já revelava o problema. Uma empresa que depende de uma única pessoa para funcionar não é uma empresa saudável, é uma armadilha disfarçada de protagonismo. Eu sabia disso teoricamente, mas em 2025, precisei aprender na prática.
Os primeiros meses foram de construção intensa. Contratei uma nova camada de liderança mais sênior. Criei rituais de gestão que não existiam, ou que existiam de forma improvisada. Comecei a documentar processos que estavam apenas na minha cabeça. Gravei vídeos, treinamentos, explicações. Tudo o que eu fazia no automático precisou virar método. Tem sido exaustivo, mas também libertador. Porque no meio desse processo, percebi que muita coisa que eu achava que só eu sabia fazer, outras pessoas podiam fazer tão bem quanto ou melhor. O que me faltava não era competência para delegar, era coragem para confiar.
Breakeven: uma conquista que não foi minha
Em 2025, a Vittude atingiu o breakeven. Depois de anos de investimento, construção e travessia de crises, a empresa passou a se sustentar. Seria fácil e tentador contar essa história como um triunfo pessoal, mas não seria verdade. O breakeven foi uma conquista do time, de gente que esteve junto nas decisões difíceis, nos ajustes de rota, nas apostas de longo prazo. Meu papel foi importante, mas não foi solitário. E reconhecer isso mudou algo em mim.
Em janeiro realizamos mais uma edição do Decola Freud, nosso principal ritual de gestão. É ali que as metas são revisadas, os problemas são destravados, as decisões são tomadas. Boa parte desse ritual foi conduzida pelos novos líderes que chegaram ao longo de 2025. Foram eles também que ajudaram a propor novos processos e a desenhar um núcleo de decisão mais colegiado para o período da minha licença.
Não tenho ilusão de que será uma licença longa. Em um ano em que a NR-1 entra em vigor e o mercado de saúde mental corporativa se transforma, provavelmente não conseguirei “desaparecer” por meses. Mas a diferença é que agora existe uma estrutura que não depende só de mim para funcionar. Não é sobre sair completamente, e sim sobre sair do centro.
O corpo como professor
A gravidez tem uma forma particular de ensinar humildade. Você pode ser a pessoa mais disciplinada do mundo, mas quando o primeiro trimestre chega com ondas de cansaço, não há força de vontade que resolva. O corpo decide, e você obedece.
Tive semanas em que mal conseguia funcionar depois das 18h. Outras em que acordava exausta, sem motivo aparente. Agora, no terceiro trimestre, fico sem ar subindo um lance de escada. Preciso sentar, pausar e aceitar. Encerrei minha agenda de palestras externas antes do previsto. Despriorizei projetos que eu queria muito fazer. Intensifiquei práticas que antes eram acessórias: yoga, fisioterapia pélvica e drenagem linfática. O autocuidado deixou de ser luxo e virou estrutura. Por outro lado, ganhei tempo para algo que vinha adiando: acelerei a escrita do meu primeiro livro. A gravidez me tirou de algumas frentes e me empurrou para outras. Nem tudo foi perda, muito foi redistribuição.
Olhando para trás, percebo que 2025 foi o ano em que finalmente internalizei algo que eu já sabia, mas não praticava: liderar não é dar conta de tudo, é construir condições para que as coisas aconteçam sem depender de você. Isso não significa sumir, significa estar presente de forma diferente. Menos como a pessoa que resolve, mais como a pessoa que orienta, destrava, cuida da direção.
A Vittude hoje tem líderes mais seniores, rituais mais robustos, comitês funcionando, um plano de transição estruturado para minha licença. Não é perfeito, mas é real. E é mais sustentável do que qualquer modelo que dependesse de mim estar em todas as reuniões, todas as decisões, todas as entregas.
Em abril, a Lara nasce. Vou me afastar por alguns meses, e pela primeira vez, sinto que posso fazer isso sem medo de que tudo desmorone. Não porque eu seja dispensável, mas porque construí, junto com muita gente, algo que não depende só de mim para existir.
Esse é o maior aprendizado que levo do ano que passou. E talvez seja o mais difícil para quem, como eu, cresceu acreditando que liderar era sinônimo de estar no controle. Não é. Liderar é preparar o terreno, confiar nas pessoas, e aceitar que o seu jeito não é o único jeito. É soltar. E soltar, eu descobri, não é fraqueza. É a única forma de se tornar, finalmente, dispensável.

