Posso estar sendo otimista, mas é difícil olhar para 2026 sem perceber que estamos vivendo um momento estranho, quase paradoxal. O mundo parece mais instável do que nunca. Conflitos que não se resolvem, crises climáticas cada vez mais visíveis, cadeias produtivas frágeis e uma sensação constante de que tudo pode mudar de uma hora para outra. Nesse cenário, o ESG deixou de ser uma agenda bonita de PowerPoint e virou algo muito mais concreto: uma lente para enxergar risco, sobrevivência e futuro.
Em muitos países, a sustentabilidade entrou numa fase de desgaste. Há pressões políticas, disputas ideológicas, empresas tentando recuar de compromissos ambientais e sociais, e governos lidando com crises que fazem o curto prazo parecer sempre mais urgente do que o longo. O clima, por sua vez, não dá trégua. Enchentes, secas e ondas de calor já não são exceções, são parte do cotidiano econômico. Seguros ficam mais caros, cadeias logísticas quebram, territórios se tornam inviáveis. O risco climático deixou de ser ambiental e passou a ser financeiro.
E é justamente por isso que, talvez contra a maré, o Brasil esteja entrando em 2026 em uma posição interessante. Enquanto muita gente lá fora fala em retração, aqui estamos com o menor desemprego desde 2012. Isso muda tudo. Muda a forma como as pessoas consomem, como as empresas investem e como o Estado consegue planejar. O “S” do ESG, que tantas vezes vira discurso, aqui ganha base real: gente empregada, renda circulando, menos vulnerabilidade extrema.
Ao mesmo tempo, o acordo entre Mercosul e União Europeia coloca o Brasil em um novo patamar. Sustentabilidade, rastreabilidade, direitos trabalhistas e padrões ambientais deixam de ser só boas intenções e viram porta de entrada para mercados que pagam melhor e exigem mais. Isso significa que, gostemos ou não, o ESG agora tem preço, mercado e contrato. Para o Brasil, isso pode ser uma enorme oportunidade.
Talvez seja cedo para comemorar, e talvez eu esteja sendo otimista demais. Mas olhando o mundo em convulsão e o Brasil relativamente bem-posicionado, dá para imaginar que estamos diante de uma janela rara: usar a agenda ESG não como um fardo, mas como uma estratégia de desenvolvimento. Temos energia mais limpa, biodiversidade, capacidade produtiva e agora também um canal privilegiado com mercados exigentes. Poucos países reúnem tudo isso ao mesmo tempo.
Claro que os desafios continuam enormes. As desigualdades ainda são profundas, os conflitos territoriais seguem vivos, a governança precisa amadurecer muito. Mas, em um mundo em que risco climático, social e político está sendo cada vez mais precificado, o Brasil entra em 2026 com algo que muitos países perderam: margem de manobra.
O ESG, no fim das contas, não é sobre ser bonzinho ou fazer marketing. É sobre quem vai conseguir se manter de pé num mundo instável. E, se soubermos jogar bem esse jogo, talvez o Brasil tenha mais cartas na mão do que imagina.

