A CES 2026, principal vitrine global de inovação tecnológica, marca um ponto de virada para os wearables voltados à saúde. De simples rastreadores de bem-estar, esses dispositivos agora são apresentados como ferramentas avançadas, com potencial para transformar o cuidado médico, inclusive dentro da casa dos pacientes. O evento, realizado nesta semana em Las Vegas (EUA), destaca o avanço da Inteligência Artificial (IA) aplicada à saúde digital e consolida o conceito de hospital at home como um modelo em expansão.
Entre as inovações apresentadas estão pulseiras inteligentes capazes de monitorar sinais vitais em tempo real, smartwatches com análise avançada de dados biométricos e espelhos com IA voltados à saúde mental e fisiológica. Integrados a plataformas de análise preditiva, esses dispositivos ampliam a capacidade de acompanhamento remoto e contínuo, permitindo diagnósticos mais precisos e intervenções mais ágeis. São novidades que reforçam um movimento de transição dos wearables de consumo para dispositivos médicos, com potencial de reduzir internações, melhorar a gestão de doenças crônicas e facilitar o atendimento domiciliar.
Hospital at home
A consolidação dessas tecnologias dialoga diretamente com a evolução do cuidado em casa. O modelo de hospital at home vem ganhando força como resposta à pressão sobre os sistemas de saúde, ao envelhecimento populacional e à busca por experiências mais personalizadas. Equipamentos conectados a plataformas digitais permitem o monitoramento clínico à distância, com maior eficiência e conforto para os pacientes. Trata-se de um novo ecossistema integrado por dispositivos médicos domésticos, assistentes virtuais e hubs de monitoramento.
Para Henrique Bilbao, vice-presidente de internacionalização da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate), que participa desta edição da CES, o momento é de transformação. “Estamos vendo aqui o quanto a tecnologia rompeu a barreira entre o ambiente corporativo e o lar, em um cenário bastante avançado na comparação com meses atrás. As soluções estão sendo desenhadas para uso cotidiano dentro das casas, inclusive na área da saúde, o que acelera a adoção de modelos como o hospital at home“.
Soluções brasileiras
No Brasil, a healthtech Medeor é uma das empresas que antecipam essa nova realidade. A startup prepara o lançamento do WRBTECH, um dispositivo médico vestível que monitorará, em tempo real e de forma não invasiva, oximetria, batimentos cardíacos e pressão arterial, além de oferecer recursos de geolocalização e detecção de quedas. O produto encontra-se em fase de regulamentação e ajustes finais de hardware.
“Ao desenvolver o WRBTECH, queremos entregar mais do que um wearable. Estamos lançando um verdadeiro dispositivo médico, que se integra à nossa plataforma de inteligência artificial e transforma dados em decisões clínicas”, afirma Mirian Thizon, CEO e fundadora da Medeor. “Nós acreditamos em um modelo híbrido, em que os vestíveis se conectem aos serviços de monitoramento de vida, apoiados por IA, para atuar de forma preditiva e mais humana”.
A Medeor já oferece soluções de avaliação biomecânica e conta com uma plataforma interoperável voltada para profissionais da saúde. A proposta da empresa é ampliar o uso de dispositivos inteligentes como ferramentas clínicas, fortalecendo o ecossistema de saúde digital brasileiro.
Cuidado humanizado
Outra startup brasileira que se destaca na integração de tecnologia e cuidado domiciliar é a Nonno, especializada em soluções para idosos e pacientes com necessidades contínuas de atenção. A empresa desenvolveu o Nonno Watch, um smartwatch que integra monitoramento em tempo real a uma central humanizada 24/7 e a uma rede de cuidadores profissionais.
“O wearable funciona como os ‘olhos e ouvidos’ do cuidador quando ele não está presente. Garante uma camada extra de segurança 24 horas por dia, complementando o trabalho dos nossos profissionais e oferecendo mais autonomia ao idoso”, afirma Matheus Alban, CEO e fundador da Nonno e vice-diretor da Vertical Saúde da Acate.
Diferentemente de outros dispositivos que se limitam à coleta de dados, o Nonno Watch opera de forma independente, sem necessidade de conexão com celular, e utiliza inteligência artificial para interpretar o contexto do usuário. “Nosso diferencial é fechar o ciclo. O relógio gera o alerta, nossa central acolhe e entende a necessidade, a família é informada e, se preciso, o cuidador ou a emergência é acionada. É a união da tecnologia com o toque humano”, explica Alban.
Para ele, os wearables devem se tornar padrão nos próximos anos, integrando-se de forma natural ao cotidiano do cuidado. “O futuro não é a tecnologia pela tecnologia, mas a tecnologia a serviço do cuidado humano, tornando-o mais eficiente, seguro e, acima de tudo, mais carinhoso”.
Cenário favorável
Com alta penetração de smartphones, crescimento da telemedicina e necessidade de otimização do sistema de saúde, o Brasil reúne condições para avançar na integração de tecnologias digitais ao cuidado médico. Healthtechs, operadoras e provedores de tecnologia têm a oportunidade de liderar esse processo, ampliando o acesso, melhorando a experiência do paciente e otimizando custos assistenciais.
As inovações apresentadas na CES 2026 reforçam que o futuro da saúde está cada vez mais conectado, personalizado e centrado no paciente, dentro e fora do ambiente hospitalar.

