
Estive na Semana da Caldeira, em Porto Alegre, para ouvir o Uri Levine, cofundador do Waze, e confesso que fui esperando uma palestra sobre produto, mercado e tração, que é o que normalmente se espera de alguém com essa trajetória. Ele falou disso, claro, mas o que me acompanhou na volta para casa foi outra coisa. Boa parte do que ele apontou como motivo para uma startup dar errado tem a ver com gente, e isso conversa diretamente com o que eu vivo no meu trabalho com cultura e pessoas.
Entre os conselhos que ele deixou para quem empreende, havia um que vinha apenas com uma frase entre aspas, “o time não era o certo”. Segundo ele, é isso que aparece com mais frequência quando se olha para trás e se tenta entender por que uma startup fracassou. Quem trabalha com pessoas já desconfiava disso há bastante tempo, mas ouvir de alguém que construiu o Waze tem um peso diferente, porque tira o time do lugar de pano de fundo e o coloca no centro da estratégia.
Logo depois ele mostrou o próprio livro e parou num capítulo que considera um dos mais importantes, chamado “demitir e contratar”, nessa ordem e de propósito. A explicação foi simples: contratar é uma decisão fácil, e demitir é difícil. Fiquei pensando no quanto isso é verdade no dia a dia de algumas empresas. A gente comemora a chegada de alguém novo, anuncia nas redes e prepara um onboarding cuidadoso, enquanto a conversa difícil com quem não está funcionando vai sendo empurrada para a semana seguinte, e depois para a outra. Nesse meio tempo o custo cresce sem fazer barulho, no time que acaba carregando o peso, na cultura que aprende que desalinhamento não tem consequência e na própria pessoa, que merecia saber antes o que estava acontecendo. Adiar esse tipo de decisão parece gentileza, mas na prática é deixar a conta para depois, e ela costuma chegar maior.
Teve também um conselho sobre produto que eu levaria direto para a área de pessoas. Para entender se o produto está encaixado no mercado, o Uri recomenda conversar com quem cancelou, porque quem continua usando raramente conta algo novo, enquanto quem saiu conta justamente o que você não sabe. Se a gente trocar cliente por colaborador, a lógica continua valendo. A pesquisa de clima mostra como estão as pessoas que ficaram, mas muito do que precisamos entender sobre a nossa cultura está com quem foi embora, e vale perguntar se as nossas entrevistas/pesquisas de desligamento são de fato um momento de escuta ou apenas mais um formulário a preencher.
Ele falou ainda sobre ego e sobre como os conflitos entre fundadores pesam no destino de uma startup, e completou dizendo que ficar sem dinheiro é consequência de outra coisa, e não a causa do problema. Muitas vezes essa outra coisa é relacional, como sócios que deixaram de conversar, decisões que travam por disputa ou lideranças que confundem convicção com vaidade. O problema aparece no caixa, mas começou bem antes, nas relações, e por isso cuidar da convivência entre fundadores e líderes tem muito mais de gestão de risco do que de assunto secundário.
Por fim, ele contou a história de duas empresas idênticas, em que uma segue achando que o produto ainda não está pronto e continua acrescentando coisas, enquanto a outra lança do jeito que está e vai aprendendo com o mercado. É a segunda que avança mais rápido, porque, para ele, o maior inimigo do bom o suficiente é o perfeito. Me peguei pensando em quantas iniciativas de pessoas ficam paradas esperando a versão ideal, seja a política que nunca sai do rascunho, o programa de desenvolvimento que aguarda o momento certo ou o feedback guardado até encontrarmos as palavras perfeitas. Cultura também se constrói tentando, errando e ajustando no caminho.
O livro dele se chama Apaixone-se pelo Problema, e saí da palestra com a sensação de que o título vale para muito além do produto. Quando o assunto é gente, apaixonar-se pelo problema significa olhar para o time sem romantizar, ter a conversa difícil no tempo certo, escutar quem saiu e tratar o ego como um risco real. Como mostrava um dos slides que ele apresentou, a jornada é sempre mais longa do que imaginamos, e atravessá-la com o time errado torna tudo muito mais difícil.
Então deixo a pergunta: qual é a conversa difícil sobre pessoas que você está adiando?

