O preço que ninguém calcula
Todo mês de maio voltamos a celebrar as mães. Mas por trás das flores e das mensagens, há uma pergunta que raramente fazemos: o que custa, de verdade, ser mãe e profissional ao mesmo tempo?
Em 2020, eu parei.
Não foi uma decisão planejada. Foi uma imagem: meus três filhos, cada um na frente de uma tela, enquanto eu e meu marido trabalhávamos mais de doze horas por dia dentro de casa. A pandemia havia tornado visível o que eu já sabia, mas havia decidido ignorar: Há anos eu tentava equilibrar muitos pratos ao mesmo tempo, e a sensação constante era de estar sempre em falta, sempre em dívida. Com o trabalho, com os filhos, comigo mesma.
O cansaço físico é o mais óbvio. Mas o que mais pesava era o emocional: a certeza de que, não importava o quanto eu fizesse, não seria suficiente. Eu não era suficiente. O modelo que eu vivia não tinha meio-termo. Havia muito trabalho, e o trabalho não cabia dentro do horário. Eu chegava em casa às 19h30 e voltava ao computador depois de colocar as crianças na cama. Tinha flexibilidade para sair mais cedo e levar um filho ao médico, mas pagava esse tempo mais tarde, sempre mais tarde.
Decidi dar uma pausa. Fui com minha família para a Áustria, onde temos parentes, para que as crianças pudessem voltar à escola presencial enquanto meu marido trabalhava remoto. As pessoas ao meu redor me chamaram de louca por abrir mão de uma posição tão boa. Eu entendia a reação, mas sabia que não havia uma terceira opção naquele ambiente, naquele momento.
O que eu vivi tem nome. Em 2020, 8,5 milhões de mulheres deixaram a força de trabalho no Brasil em comparação ao ano anterior. O fenômeno ficou conhecido como she-cession, a recessão feminina. A taxa de participação de mulheres no mercado caiu de 53,3% para 45,8%, o menor nível desde 1991. Os dados mostram o tamanho do movimento. O que não mostram é o que estava por trás dele: mulheres exaustas, em ambientes que não foram desenhados para comportar a complexidade de uma vida inteira.
É nesse vácuo que o movimento tradwife cresce. Nas redes sociais, influenciadoras com milhões de seguidores celebram a escolha de deixar a carreira para se dedicar ao lar e à família. A estética é impecável, a narrativa é de liberdade. Mas há uma contradição que raramente é considerada: boa parte dessas mulheres tem independência financeira exatamente porque monetizam a audiência que constroem ao pregar a dependência financeira. A escolha que vendem é financiada por um modelo de negócio que a maioria das seguidoras não tem. Especialistas apontam que o retorno de muitas mulheres à esfera doméstica é uma resposta às múltiplas jornadas de trabalho a que estão submetidas. O problema não é o desejo de cuidar. É que o mercado ainda não criou condições reais para que cuidar e trabalhar coexistam de forma leve e sustentável.
Durante minha pausa, voltei a estudar. Sempre me interessei pelo desenvolvimento das pessoas que liderei, e queria fazer isso de forma séria. Me tornei coach, depois coach de equipes. O que não estava no plano inicial virou o centro do meu trabalho. Mas isso só foi possível porque tive um parceiro que me apoiou e sustentou o risco e o tempo de transição. Sei que isso é um privilégio. A maioria das mulheres não pode simplesmente parar, não têm essa margem. E é exatamente por isso que a conversa não pode ficar só no âmbito da escolha individual: ela precisa chegar às organizações e às políticas públicas que ainda tratam a maternidade como um problema que a mulher deve resolver sozinha.
Eu seria incapaz de me tornar uma tradwife. Amo trabalhar. Valorizo a independência financeira que o trabalho me proporciona. Mas aprendi que o caminho do meio existe, e que trilhá-lo requer clareza sobre o que é inegociável, coragem de nomear isso em voz alta e um plano que sustente a transição. A maternidade ativa dura dezoito anos. A carreira, cinquenta. Para mim, ficou muito claro que desacelerar por um tempo era importante, desde que eu tivesse a liberdade de escolher quando voltar a acelerar.
O movimento tradwife não é uma resposta ao feminismo. É uma resposta ao esgotamento. E enquanto as organizações não distinguirem uma coisa da outra, continuarão perdendo suas melhores lideranças e chamando isso de escolha delas.
Para as mulheres que se sentem espremidas entre o tudo e o nada, o caminho do meio existe, mas ele exige o que ninguém ensina: clareza sobre o que é inegociável para você, coragem de nomeá-lo, e um plano que sustente a travessia. Não é fácil, e não deveria ser solitário.
A maternidade ativa dura dezoito anos. A carreira, cinquenta. Talvez a pergunta mais importante não seja como fazer mais, mas para onde você está correndo com tanta pressa.

