Durante a Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética disputavam quem chegaria primeiro à Lua. A competição era tão intensa que os riscos de cada avanço precisavam disputar espaço com a necessidade de não ficar para trás.
Hoje, uma dinâmica semelhante se desenha em torno da inteligência artificial. Estados Unidos e China concentram os modelos mais avançados e disputam a liderança de uma tecnologia que pode redefinir a economia, a segurança e a relação entre países. A diferença é que essa corrida acontece em velocidade maior e sem regras globais capazes de acompanhar seu desenvolvimento.
Em setembro, Bilal Chughtai, ex-pesquisador da Google DeepMind, afirmou que a inteligência artificial pode ter potencial para matar todos os seres humanos e que o tempo para evitar esse cenário pode estar se esgotando. As falas do pesquisador fizeram o mundo e a internet entrarem em um grande debate sobre quais são os riscos dessa evolução e, principalmente, se estamos prontos para ela. As notícias discutem se a IA pode realmente acabar com a humanidade. Os comentários brincam que é só tirar da tomada.
Mas, para além desse imaginário de ficção científica, a pergunta que deveríamos fazer é outra: e o Brasil? O que nosso país está fazendo diante dessa nova tecnologia e estamos pensando o suficiente sobre os riscos desse futuro?
Para responder, é preciso primeiro entender em que lugar o nosso país está nessa corrida. Hoje, não somos protagonistas no desenvolvimento dos chamados modelos de fronteira. São os modelos mais poderosos, que estão no limite do conhecimento e apresentam os melhores resultados nos principais benchmarks, além de maior capacidade de contexto e desempenho em tarefas complexas, como matemática e raciocínio. É nesse campo que estão concentrados os maiores investimentos e a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China.
O Brasil está em outra posição. Atuamos principalmente no uso e na integração desses modelos, incorporando tecnologias desenvolvidas fora do país a produtos, serviços e processos internos. Mesmo sem sermos um player no desenvolvimento dos modelos de fronteira, estamos diretamente expostos aos efeitos dessa evolução.
A velocidade também é um ponto importante. Os modelos de fronteira avançam em progressão geométrica, enquanto a adoção pelas empresas acontece em progressão aritmética. A empresa não consegue acompanhar tudo o que está sendo desenvolvido na mesma velocidade. Daí a necessidade de criar estruturas para que essa adoção aconteça de forma segura.
Quando esses modelos passam a operar como agentes, o problema fica mais concreto. Um agente pode pesquisar na internet, acessar sistemas, executar funções e permanecer em um processo de raciocínio até alcançar seu objetivo. Isso aumenta a eficiência, mas também os pontos de vulnerabilidade.
Para mim, o maior risco não é necessariamente o modelo causar um dano sozinho, mas uma pessoa mal-intencionada utilizar um modelo de fronteira para causá-lo. A capacidade desses sistemas de ampliar conhecimento e executar tarefas também pode ampliar vulnerabilidades, principalmente em cibersegurança.
É nesse cenário que a discussão regulatória ganha importância. Hoje, a União Europeia é a principal referência em uma regulamentação específica para inteligência artificial, enquanto Estados Unidos e China adotam uma abordagem mais voltada à velocidade de desenvolvimento. O Brasil segue um caminho mais próximo do europeu.
O principal movimento brasileiro é o PL 2.338/2023, que cria um marco legal para o uso da inteligência artificial. O texto segue uma linha próxima à adotada pela União Europeia e tem como principal referência o AI Act europeu, com uma abordagem baseada na classificação dos riscos dos sistemas. O projeto foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e encaminhado à Câmara dos Deputados em março de 2025.
Na minha visão, regulamentação tende a frear o desenvolvimento. Isso não é necessariamente negativo. Pode dar a empresas, governo e sociedade tempo para se adaptar ao que está sendo criado. Se a tecnologia de fronteira avança mais rápido do que a capacidade das organizações de incorporá-la, esse tempo pode ser necessário para criar mecanismos de segurança.
O projeto brasileiro ainda tem critérios que considero subjetivos para definir quando um sistema é de risco baixo, alto ou excessivo. Essa falta de clareza pode trazer incerteza jurídica para quem desenvolve e utiliza essas tecnologias. Se determinados usos forem proibidos ou exigirem controles, é importante que os critérios estejam claros.
A experiência das empresas mostra que esse equilíbrio é possível. Na Zucchetti, como a companhia tem origem italiana e já convive com uma estrutura regulatória mais forte na Europa, algumas dessas premissas de governança foram incorporadas desde o início. Criamos uma camada de segurança entre os provedores de IA e os usuários. Antes de um dado chegar ao modelo, ele passa por essa camada, que permite rastrear o que entra e como é processado e fazer a tokenização de informações pessoais.
Isso não significa deixar de inovar. Em um projeto interno da Zucchetti, a utilização de IA acelerou o desenvolvimento de software em 685% e gerou uma capacidade estimada de R$ 5,4 milhões por ano. A tecnologia foi colocada dentro de uma estrutura com limites de acesso e rastreabilidade.
Esse preparo, porém, não é igual entre as empresas. Grandes organizações e multinacionais tendem a acompanhar mais de perto as mudanças regulatórias e conseguem se antecipar. Empresas pequenas e médias muitas vezes sequer sabem que existe uma regulamentação de IA em discussão no Brasil. Não basta estabelecer novas obrigações, também será necessário criar condições para que essas empresas consigam se adaptar.
Depois da criação da lei, existe ainda uma segunda etapa: a fiscalização. O desafio será acompanhar agentes que executam tarefas de forma autônoma, identificar quando uma tecnologia ultrapassou determinada fronteira e definir quem será responsável por esse acompanhamento. Esse problema não se resolve apenas com o texto da lei. É preciso uma estrutura capaz de acompanhar a tecnologia e fazer as regras funcionarem na prática.
Como? Ainda não se sabe (e que bom que não sou eu que preciso descobrir essa resposta). Mas o fato é que a corrida já começou e o Brasil já está sendo impactado por ela, querendo ou não. A questão é decidir como vamos participar. Não precisamos necessariamente correr para chegar primeiro, mas precisamos estar preparados para o que vem depois.

