Durante muito tempo, comprar um carro usado foi quase um exercício de confiança. O comprador olhava o veículo, fazia um test-drive, perguntava ao proprietário sobre o passado do carro e, quando queria reduzir os riscos, levava o automóvel a um mecânico de confiança. Era uma combinação de experiência, percepção e, em boa medida, intuição.
Essa lógica não desapareceu, mas está deixando de ser suficiente. Agora a compra de um carro está entrando em uma nova era: a era dos dados. O movimento acontece em um mercado que não para de crescer. Segundo a Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (2026), mais de 12,5 milhões de veículos usados foram negociados no Brasil entre janeiro e agosto de 2026, alta de 6,4% em relação ao mesmo período de 2025. Os seminovos, de até três anos de uso, avançaram ainda mais: 13,5%.
Em um mercado dessa dimensão, a informação passa a ter um papel cada vez mais importante na decisão e o comportamento do consumidor já está mudando e demandando transformações relevantes.
Dados do Google apresentados no Anfavea Visions 2026 mostram que 57% dos consumidores brasileiros utilizam inteligência artificial em algum momento da jornada de compra de um automóvel. Mais do que isso, 13% afirmam delegar parte das escolhas à tecnologia.
Isso significa que a tecnologia não está apenas ajudando o consumidor a encontrar um carro. Está participando da maneira como ele pesquisa, compara e decide e isso é uma mudança significativa, pois antes o comprador precisava descobrir se aquele carro era realmente uma boa oportunidade principalmente a partir do que conseguia observar. Hoje, ele pode começar a investigação antes mesmo de sair de casa.
É claro que a placa ou o chassi podem ser portas de entrada para informações sobre o histórico do veículo. Bases oficiais e privadas também permitem cruzar diferentes registros, enquanto ferramentas de inteligência artificial conseguem organizar grandes volumes de informação e ajudar a transformar dados dispersos em elementos mais fáceis de interpretar.
A própria Secretaria Nacional de Trânsito (2026) disponibiliza consulta online aos dados e ao histórico dos veículos registrados na base do RENAVAM, que mantém informações sobre os veículos que circulam no país. Na prática, isso muda uma das principais características da compra de usados: a assimetria de informação.
O que observamos era que, durante muito tempo, o vendedor poderia saber muito mais sobre o histórico do veículo do que o comprador. Já hoje, o consumidor tem ferramentas próprias para investigar sozinho, e essa investigação pode começar por perguntas que não são respondidas olhando para o carro, como:
- Quantos proprietários ele já teve?
- Já passou por algum tipo de ocorrência?
- Existem registros ou restrições?
- A quilometragem apresentada faz sentido diante do histórico disponível?
- Há informações que merecem ser esclarecidas antes da negociação?
Destaco que nenhuma base de dados, algoritmo ou inteligência artificial elimina a necessidade de uma avaliação mecânica, mas, da mesma forma, um mecânico não consegue necessariamente enxergar aquilo que não está fisicamente diante dele. Portanto, são camadas diferentes de informação, mas que se complementam.
O mecânico avalia o carro que está na sua frente; os dados ajudam a investigar o carro que existiu antes daquele momento; e a inteligência artificial, por sua vez, pode ajudar a organizar e interpretar informações que seriam difíceis de analisar manualmente.
É justamente a combinação dessas três perspectivas (olhar humano, avaliação técnica e inteligência de dados) que tende a tornar a compra mais informada. Neste sentido é interessante notar que trata-se de um conceito com o que já aconteceu em outros mercados.
Antes de reservar um hotel, o consumidor dependia principalmente de indicação e reputação conhecida. Hoje, compara avaliações, fotos, localização, preços e centenas de comentários. Antes de escolher um investimento, precisava recorrer a profissionais e documentos específicos. Hoje, tem acesso a uma quantidade muito maior de informações para entender alternativas e riscos.
Com o carro usado, o movimento é semelhante. Portanto, a tecnologia não está acabando com a necessidade de especialistas, está mudando o momento em que eles entram na decisão. Ou seja, em vez de descobrir um problema depois de comprar, o consumidor pode usar dados para fazer uma triagem antes (e isso ganha ainda mais relevância quando lembramos que estamos falando de uma compra de alto valor).
Portanto, caro leitor, o carro pode parecer impecável, ter baixa quilometragem, estar bem cuidado e ter um preço atraente. Mas, no mercado de usados, o estado atual é apenas uma parte da história. A outra parte está nos dados.
E aqui finalizo afirmando que o futuro da compra de carros não será necessariamente menos humano. Será, provavelmente, mais informado. Porque a tecnologia não substitui o olhar do comprador, a experiência do mecânico ou a responsabilidade de quem negocia. Mas pode fazer uma coisa fundamental: dar ao consumidor mais elementos para decidir antes de colocar dinheiro na mesa. No mercado automotivo, informação não é apenas conveniência. É parte da segurança da decisão.

