
Por: Isabele Scavassa – Inova Unicamp.
Padrões usados pela indústria farmacêutica para controlar a qualidade e a segurança de medicamentos ainda dependem, em muitos casos, de fornecedores internacionais. No laboratório I-226 do Departamento de Química Orgânica, do Instituto de Química (IQ) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pesquisadores trabalham para ampliar a produção nacional desses materiais. O grupo coordenado pelo professor Airton Gonçalves Salles Junior estuda a degradação de fármacos e busca identificar, isolar ou sintetizar as substâncias que surgem durante esse processo, criando referências que permitem medir a presença dessas impurezas nos medicamentos.
As pesquisas e possibilidades de aplicação desse conhecimento foram apresentadas à equipe da Agência de Inovação Inova Unicamp durante uma visita ao laboratório, realizada como parte das atividades do InovaLab, programa de aproximação com os laboratórios da Universidade.
Entre os químicos, o estudo da degradação de fármacos costuma ser associado à área ambiental, voltada à remoção de resíduos de medicamentos presentes na natureza. No I-226, o foco é outro: as transformações químicas que o próprio medicamento sofre ao longo do tempo. À medida que o princípio ativo se altera, podem surgir outras moléculas, chamadas produtos de degradação, que precisam ser identificadas e quantificadas para garantir a qualidade do produto e a segurança de quem o consome.
Para isso, os pesquisadores submetem os medicamentos a estudos que permitem identificar esses compostos e, posteriormente, obtê-los de forma isolada. O laboratório utiliza duas estratégias principais, sendo uma delas o isolamento por técnicas cromatográficas e a outra, síntese orgânica – área que integra a trajetória de pesquisa de Salles Junior.
Esses produtos isolados podem se tornar padrões analíticos, materiais de referência utilizados para determinar quanto de uma impureza pode estar presente no medicamento. A disponibilidade desses padrões permite construir métodos de análise e verificar se a concentração dos produtos de degradação permanece abaixo dos limites estabelecidos para garantir a segurança do paciente.
Segundo o professor, a dificuldade está justamente em obter essas moléculas, que geralmente aparecem em concentrações muito pequenas. Além disso, muitos dos padrões utilizados atualmente são importados, o que pode elevar custos e aumentar o prazo para que cheguem às empresas brasileiras. “Precisamos começar a oferecer esses padrões nacionalmente. Temos o know-how para fazer isso e já estamos conversando com startups. O interesse é conseguir fornecer para as farmacêuticas em um prazo e custos mais acessíveis”, afirma Salles Junior.
Pesquisa voltada à segurança dos medicamentos
O laboratório começou a ampliar os estudos com medicamentos a partir de 2014. Desde então, o grupo já investigou diferentes classes de fármacos, entre elas anti-inflamatórios, antialérgicos, analgésicos e corticoides. Também desenvolve pesquisas relacionadas a moléculas que podem formar impurezas como as nitrosaminas.
Um dos primeiros trabalhos envolveu um glicocorticoide comercial, classe de medicamentos sintéticos que imitam o cortisol, hormônio produzido pelas glândulas suprarrenais, e tem função anti-inflamatória. Durante estudos de degradação forçada, a equipe identificou produtos que ainda não haviam sido relatados na literatura científica. O resultado abriu caminho para investigações sobre a estrutura dessas moléculas e sua possível toxicidade.
A pesquisa parte de uma questão que acompanha todos os medicamentos: as substâncias sofrem transformações químicas ao longo do tempo e, dentro do prazo de validade, pequenas quantidades desses produtos podem estar presentes. Por isso, os pesquisadores precisam saber quais moléculas foram formadas, em qual concentração aparecem e qual risco podem representar.
Para medicamentos de uso contínuo, o controle desses compostos ganha ainda mais peso. Como o paciente pode consumir o produto por longos períodos, mesmo pequenas concentrações de substâncias formadas durante a degradação precisam ser monitoradas. Por isso, o laboratório combina a identificação e a quantificação dessas moléculas com avaliações toxicológicas, que ajudam a verificar se permanecem dentro dos limites considerados seguros.
Atualmente, o laboratório reúne 14 estudantes. A maioria trabalha em temas relacionados à degradação de medicamentos, e há também pesquisa em síntese orgânica. As investigações incluem ainda diferentes desdobramentos do tema, como interações entre fármacos e excipientes (substâncias que compõem um medicamento, mas não têm efeito terapêutico) e outros estudos relacionados à estabilidade dos produtos farmacêuticos.
Formação aliada às demandas atuais da indústria
O contato com o setor farmacêutico também contribui para a formação dos estudantes e para a definição de parte das questões científicas investigadas. Muitos integrantes do grupo atuam profissionalmente na área enquanto desenvolvem mestrado ou doutorado na Unicamp. Com isso, problemas observados na rotina das empresas passam a ser estudados no laboratório, com o rigor metodológico e a infraestrutura de pesquisa da Universidade. “Existem problemas que ficam dentro das empresas e nunca chegam ao meio acadêmico. Nosso objetivo é nos colocar à disposição para resolver essas questões em conjunto e, com isso, gerar novos conhecimentos”, explica o professor.
Nessa aproximação, a Inova Unicamp atua no apoio à estratégia e à negociação com empresas, contribuindo para estruturar as parcerias e resguardar os interesses da Universidade e de seus pesquisadores. A Agência ajuda a criar condições para que essas colaborações avancem de forma segura e possam se desdobrar em projetos, transferência de conhecimento e novas oportunidades de inovação.
“A interação efetiva com a indústria é uma parte muito importante do trabalho. Não depende apenas da química. Exige conversa, construção de confiança e colaboração para que a pesquisa consiga responder a problemas concretos”, finaliza Salles Junior.
InovaLab aborda caminhos para parcerias e conexões
A conexão entre pesquisa e mercado esteve no centro da visita da Inova Unicamp ao I-226, que ocorreu no âmbito do InovaLab. O projeto de conexão promovido pela Agência busca conhecer as competências dos laboratórios da Universidade e identificar oportunidades relacionadas à propriedade intelectual, transferência de tecnologia, empreendedorismo e potenciais parcerias com empresas e outras instituições.
No caso do laboratório, o contato com a Inova Unicamp começou a partir de dúvidas relacionadas à colaboração com profissionais da indústria e à necessidade de instrumentos de confidencialidade. Depois de reuniões virtuais, a equipe realizou uma visita ao laboratório para conhecer as pesquisas e discutir possibilidades de atuação conjunta.
As conversas também ampliaram a atenção do grupo para a avaliação de resultados de pesquisa antes de sua publicação, especialmente quando houver possibilidade de proteção de propriedade intelectual, além da gestão do know-how associado aos processos utilizados para obter e caracterizar produtos de degradação.

