Durante muito tempo, a segurança de quem dirigia caminhões, máquinas e veículos de operação em campo dependia de uma combinação bastante conhecida: treinamento, experiência e fiscalização. Ou seja, o gestor observava, o motorista dirigia e, quando alguma coisa dava errado, a empresa tentava entender o que havia acontecido.
Com todos os avanços que temos vivido, essa lógica está mudando. Com telemetria, câmeras embarcadas, sensores e inteligência artificial, a direção deixou de ser um comportamento observado apenas de maneira pontual e passou a ser uma atividade que pode ser medida, contextualizada e analisada continuamente.
Para setores como mineração, construção, agronegócio, energia, infraestrutura e transporte de cargas, essa transformação tem uma importância ainda maior, pois são operações nas quais veículos e máquinas circulam em ambientes de alto risco, percorrem longas distâncias, trabalham em áreas remotas e precisam conciliar produtividade com segurança.
Nesse cenário, a tecnologia começa a mostrar não apenas o que aconteceu, mas identificar padrões de comportamento antes que eles se transformem em um incidente. A telemetria agora registra, detalhadamente, velocidade, aceleração, frenagem, curvas, localização, tempo de condução e outros parâmetros que podem ser salvos automaticamente. Quando essas informações são combinadas com câmeras e algoritmos, surge uma visão muito mais detalhada do comportamento do condutor.
Trata-se, portanto, de uma mudança conceitual importante: a empresa deixa de avaliar somente o veículo e passa a analisar a interação entre motorista, veículo e ambiente. Para contextualizar, em fevereiro de 2025, a Geotab apresentou uma ferramenta de análise de risco baseada em inteligência artificial capaz de avaliar fatores de risco no nível individual do motorista, em vez de considerar apenas o comportamento associado ao veículo. A proposta é justamente permitir intervenções de segurança mais direcionadas, ou seja, a direção começa a ser tratada como dado e eles começam a devolver um espelho para o motorista
A tecnologia cria um ciclo positivo e eficiente, como: medir → identificar → orientar → acompanhar → corrigir. Isso aproxima a gestão de frota de uma lógica de desenvolvimento contínuo, e não apenas de fiscalização. Dados de uma pesquisa divulgada pela Verizon Connect, em 2026, mostram essa mudança no papel do gestor: sistemas de videotelemetria e inteligência artificial já são utilizados para apoiar planos individuais de segurança, coaching orientado por dados e acompanhamento da evolução dos motoristas. Entre os usuários entrevistados, 74% afirmaram que a videotelemetria ajudou a melhorar a segurança dos condutores.
No Brasil, o problema não é apenas velocidade. Uma pesquisa da Geotab realizada em outubro de 2025 com 179 profissionais do setor de transporte e gestão de frotas no país revelou que 81% observam frequentemente outros condutores distraídos, incluindo situações de uso do celular, alimentação ou cigarro ao volante.
O estudo também apontou estresse, pressão por produtividade e fadiga entre os principais fatores associados à percepção de risco dos profissionais. Esse dado ajuda a mostrar por que simplesmente instalar um rastreador não resolve o problema, afinal se a tecnologia apenas registra latitude, longitude e velocidade, ela responde principalmente à pergunta: “Onde o veículo está?”. Mas quando a telemetria, vídeo e inteligência artificial são integrados, começam a surgir perguntas diferentes, tais como:
“Como esse veículo está sendo conduzido?”
“Esse comportamento está se repetindo?”
“Existe um padrão de risco?”
“É possível intervir antes que aconteça um acidente?”
É nessa mudança de pergunta que está boa parte da evolução. Neste ponto, quero deixar claro que o algoritmo não substitui o motorista, mas ele muda o feedback. É claro que existe uma preocupação natural quando inteligência artificial começa a analisar comportamento humano: a tecnologia poderia transformar a gestão em uma espécie de vigilância permanente. Mas esse risco depende, em grande medida, de como os dados são utilizados.
Existe uma diferença enorme entre usar telemetria para punir automaticamente qualquer desvio e utilizá-la para identificar padrões, entender contexto e construir programas de treinamento e o segundo modelo tende a colocar a tecnologia como ferramenta de desenvolvimento.
A IA (quando bem aplicada) também começa a olhar para o que o gestor não consegue enxergar. Em uma frota com dezenas, centenas ou milhares de veículos, nenhum gestor consegue acompanhar manualmente cada jornada e a IA se torna uma aliada.
Em 2025, a Geotab divulgou os principais questionamentos feitos por gestores ao seu assistente de IA generativa. Entre os cinco mais frequentes estavam perguntas como “Quem são meus motoristas mais seguros?”, “quais motoristas mais melhoraram seu histórico de segurança?” e “quais motoristas mais excedem a velocidade?”.
A mudança parece simples, mas é significativa, pois o gestor deixa de procurar informações em dezenas de relatórios e passa a conversar com os dados. Ou seja, em vez de analisar uma planilha inteira, pode começar pela exceção; investigar um padrão enquanto ele acontece; ou mesmo identificar quem precisa de treinamento específico.
Em resumo: a tecnologia passa a funcionar como uma camada de inteligência sobre a operação.
Outro sinal de maturidade do mercado que não podemos deixar de falar é que rastreamento e monitoramento estão deixando de ser apenas ferramentas opcionais de gestão. Em março de 2026, a ANTT determinou requisitos de rastreamento, conectividade e monitoramento para viaturas destinadas à fiscalização em contratos de concessão de rodovias federais.
Entre os requisitos estão GPS, registro de rota, quilometragem, velocidade, controle de velocidade, identificação eletrônica do condutor, histórico operacional, registro de tempo parado com o motor ligado e câmeras. Em trechos sem cobertura adequada de telefonia, a decisão prevê conectividade via satélite.
A medida é voltada a um contexto específico (viaturas de fiscalização) e não significa que toda frota brasileira esteja sujeita às mesmas exigências, mas ela ilustra uma transformação maior: rastreabilidade, dados e monitoramento estão se tornando componentes cada vez mais relevantes da gestão de operações rodoviárias.
Por fim, o retrovisor continua existindo, mas já não é suficiente. Devemos, cada vez mais, fazer uso das tecnologias para ampliar nosso olhar ao que está acontecendo e conseguirmos agir antes que o risco vire ocorrência.
Não se esqueçam que a verdadeira revolução não está no algoritmo que observa o motorista. Está na possibilidade de usar os dados para fazer com que motoristas, gestores e operações aprendam continuamente com aquilo que acontece na estrada e no campo.
É a passagem de uma gestão baseada no retrovisor para uma gestão baseada em evidências e, nesse novo modelo, segurança e produtividade deixam de ser discussões separadas e passam a fazer parte da mesma equação.

