Em quase 6 anos, o Pix mudou a forma como o Brasil movimenta dinheiro. O ambulante aceita pagamento por QR code, a manicure recebe na hora pelo celular, o feirante dispensa a maquininha. Poucas inovações financeiras chegaram tão rápido e tão fundo na base da pirâmide.
Mas quando essa mesma pessoa precisa de R$ 300 para reforçar o estoque antes do fim de semana, a porta continua fechada. O Brasil incluiu milhões de pessoas nos pagamentos digitais sem incluí-las no crédito.
O Pix já tem mais de 170 milhões de usuários. Ao mesmo tempo, cerca de 39 milhões de brasileiros trabalham na informalidade, e o país tem mais de 15 milhões de microempreendedores individuais. Grande parte desse público recebe e paga via Pix todos os dias, mas raramente aparece como cliente de crédito.
Estar incluído nos pagamentos não é o mesmo que estar incluído no crédito. A infraestrutura chegou, mas a avaliação de risco não acompanhou.
Por que o crédito ficou para trás
Os modelos tradicionais de crédito foram construídos para quem tem renda formal, histórico bancário e garantias. O empreendedor informal tem fluxo de caixa, clientes fiéis e disciplina no dia a dia, mas não tem holerite nem histórico nos birôs.
Avanços como o Cadastro Positivo e o Open Finance ajudam, mas registram sobretudo o que já passou pelo sistema formal. Quem nunca teve crédito continua invisível, e quem é invisível não recebe crédito. É um ciclo que se retroalimenta.
Sem acesso ao crédito formal, o empreendedor recorre ao que tem à mão: empréstimo de parentes, o cartão de um conhecido, o fiado com fornecedores ou, no pior caso, o agiota. Quem consegue um cartão frequentemente cai no rotativo, com juros entre os mais altos do mundo.
O prejuízo vai além dos juros. Sem capital de giro, o negócio não compra em volume, não aproveita a data comemorativa e não cresce. Milhões de pequenos negócios operam abaixo do seu potencial por falta de valores que, para um banco, seriam irrelevantes.
O Pix derrubou um mito importante: o de que o público informal não adota soluções digitais. Ele adota, e rápido, quando a solução é simples, barata e resolve um problema real.
O canal digital também reduz drasticamente o custo de atender tíquetes pequenos, o que torna viável um crédito que antes não fechava a conta. O que falta é uma forma de avaliar risco pensada para quem não tem histórico.
O próximo passo
É aqui que entram o nano-crédito e a avaliação comportamental. Começar com valores pequenos, observar como o cliente se relaciona com o crédito e ampliar os limites conforme a confiança se constrói transforma a ausência de histórico em ponto de partida.
Vejo o crédito como uma trajetória de longo prazo, construída com responsabilidade, e não como uma decisão única de sim ou não. E é assim que precisa ser.
O Pix mostrou que é possível incluir milhões de brasileiros em poucos anos. A próxima revolução financeira do país será fazer o mesmo com o crédito.

