Durante muito tempo, o aplicativo do banco teve uma função bastante objetiva: mostrar quanto havia na conta, pagar uma conta, fazer uma transferência, contratar um produto. Agora, essa lógica já mudou! Em vez de o cliente precisar saber exatamente onde clicar, qual produto procurar ou que informação consultar, a inteligência artificial permite que ele simplesmente diga o que precisa e espere que o próprio banco ajude a encontrar o caminho.
O movimento já começou a aparecer de forma concreta no mercado brasileiro. Em julho, o Itaú lançou a ia.i, uma ferramenta de inteligência artificial generativa integrada ao Superapp que permite interações por texto e voz. A solução pode responder perguntas personalizadas sobre a vida financeira do cliente, como quanto ele gastou em determinada categoria ou como poderia economizar, além de direcioná-lo dentro do aplicativo para realizar pagamentos, contratar serviços ou executar outras ações. O banco informou que a ferramenta seria ampliada gradualmente até alcançar todos os clientes pessoa física ao longo de 2026.
Ou seja, não é apenas uma mudança de interface. É uma mudança na lógica de relacionamento. A diferença parece pequena, mas é significativa, pois durante anos, a digitalização bancária significou transformar operações que antes exigiam atendimento presencial em processos que poderiam ser realizados pelo celular.
Agora, a próxima etapa é diferente: usar os dados disponíveis para ajudar o cliente a interpretar a própria vida financeira. Nesse sentido, o celular deixa de ser apenas o lugar onde a operação acontece e passa a ser também o lugar onde a decisão começa. Essa transformação encontra um consumidor aparentemente receptivo.
Uma pesquisa realizada pelo próprio Itaú Unibanco em 2026, mostrou que 65% dos brasileiros gostariam que a inteligência artificial funcionasse como uma orientadora de suas finanças, sem assumir o controle das decisões. Mais de um terço dos entrevistados demonstrou preferência pelo uso de IA para receber recomendações personalizadas, enquanto apenas 14% aceitariam que a tecnologia tomasse decisões financeiras por eles.
O recado é importante: o brasileiro parece querer menos um “robô que manda” e mais um assistente que explica.
Existe uma vantagem competitiva evidente em toda essa transformação: o banco já está sentado sobre uma quantidade enorme de informações financeiras, como receitas, pagamentos, transferências, investimentos, empréstimos, cartões, contas recorrentes e padrões de consumo fazem parte da relação cotidiana entre cliente e instituição. Quando esses dados são combinados com inteligência artificial, abre-se a possibilidade de transformar informações dispersas em recomendações contextualizadas.
Em vez de simplesmente informar que determinada despesa aumentou, por exemplo, uma ferramenta poderia ajudar o cliente a identificar o impacto daquele aumento no orçamento. Em vez de apresentar dezenas de produtos de investimento, poderia organizar as alternativas de acordo com objetivos, prazo e perfil. Em vez de apenas mostrar o limite disponível no cartão, poderia ajudar o consumidor a compreender como uma nova parcela afetaria seu orçamento.
É aí que a expressão “personal financeiro” começa a fazer sentido. Não porque o banco passe a tomar as decisões pelo cliente, mas porque pode começar a reduzir a distância entre informação e ação. E é interessante notarmos que o avanço não está restrito a uma ou outra instituição.
A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026 aponta que os bancos brasileiros pretendem investir aproximadamente R$3 bilhões em Inteligência Artificial, Analytics e Big Data ao longo de 2026, crescimento de 8% em relação a 2025. Entre os principais benefícios percebidos pelas instituições estão o aumento da velocidade de tarefas rotineiras, a redução do tempo de resposta aos clientes, ganhos de eficiência na análise de dados e a prevenção a fraudes.
No orçamento total de tecnologia, a expectativa é chegar a R$50,4 bilhões em 2026, alta acumulada de 58% em cinco anos. IA generativa e cloud aparecem entre as principais prioridades tecnológicas das instituições. O tamanho desses investimentos ajuda a explicar por que a IA tende a deixar de ser uma camada experimental para se tornar parte da experiência bancária.
Além disso, existe um terreno particularmente favorável para isso: o celular. Segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, 83% das transações bancárias realizadas em 2025 ocorreram por canais digitais e 78% foram feitas pelo mobile banking. Ou seja, o banco já está no bolso do consumidor, e agora a IA começa a transformar a maneira como esse consumidor conversa com ele.
Agora, um ponto de inflexão que não podemos esquecer é que um “personal financeiro” também precisa saber dizer “não” e que existe uma diferença fundamental entre personalização e influência.
Uma recomendação financeira pode ser extremamente conveniente, mas ainda envolve dinheiro real, risco real e consequências reais. Por isso, a confiança tende a ser tão importante quanto a capacidade tecnológica.
Na mesma pesquisa do Itaú, anteriormente citada, os fatores que mais contribuiriam para a confiança em soluções de IA para finanças incluem linguagem simples, apontada por 40% dos entrevistados, e conhecimento sobre as regras que orientam a IA, citado por 39%. Isso aponta para uma questão central da próxima geração dos serviços financeiros: não basta a IA conseguir responder, ela precisa conseguir explicar. E, principalmente, precisa deixar claro quando está apresentando uma informação, quando está fazendo uma recomendação e quando uma decisão continua sendo exclusivamente do cliente. O próprio Itaú afirma que sua nova experiência foi desenhada para apoiar decisões sem substituir o protagonismo do usuário.
Por fim, a transformação mais interessante talvez não esteja em fazer um Pix por comando de voz ou descobrir quanto foi gasto no supermercado (essas são apenas manifestações mais visíveis de uma mudança maior). Agora, a inteligência artificial pode focar a relação das instituições financeiras com seus clientes não apenas em
Veremos, cada vez mais, as IAs financeiras capazes de responder perguntas que pertencem menos ao catálogo de produtos de um banco e mais à vida financeira de uma pessoa. E, ao conseguir responder a essas perguntas com contexto, clareza e responsabilidade, o banco poderá assumir um papel diferente na vida do cliente, não exatamente o de um consultor que decide por ele, mas o de uma espécie de copiloto financeiro: alguém que ajuda a enxergar melhor o caminho antes de tomar uma decisão.
No fim, talvez a pergunta não seja se o banco virou um personal financeiro. Na verdade, a pergunta mais interessante é outra: se a tecnologia já consegue executar nossas decisões, será que o próximo passo é ajudá-las a serem melhores?


