Durante anos, o e-commerce disputou a atenção do consumidor para conquistar um clique: encontrar o produto, convencer, levar ao carrinho e transformar intenção em compra. Agora, uma nova mudança começa a alterar essa lógica.
Nesse sentido, vou fazer aqui uma provocação: e se o próximo passo for fazer com que o consumidor nem precise clicar?!
Pois é!! É o avanço do chamado agentic commerce: sistemas de inteligência artificial capazes não apenas de responder perguntas, mas de pesquisar produtos, comparar preços e características, avaliar alternativas e, cada vez mais, executar etapas da compra em nome do consumidor.
A mudança já aparece no comportamento. Uma pesquisa global da Visa, realizada com 4 mil consumidores no Brasil, Estados Unidos, Reino Unido e Singapura, mostra que 76% dos brasileiros pretendem utilizar agentes de IA para realizar compras. No Brasil, 67% dizem sentir-se muito ou extremamente confiantes em permitir que esses agentes façam compras em seu nome.
Outro sinal vem do próprio tráfego digital. Dados da Adobe, baseados em mais de 1 trilhão de visitas a sites de varejo nos Estados Unidos, mostram que o tráfego originado por ferramentas de IA cresceu 393% no primeiro trimestre de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025. Em março, visitantes vindos de fontes de IA também apresentaram uma taxa de conversão 42% superior à do tráfego não originado por IA.
Isso muda uma premissa fundamental do comércio eletrônico: não basta mais ser encontrado pelo consumidor, será preciso ser recomendado pela inteligência que está ajudando o consumidor a decidir.
Para marketplaces, a transformação é ainda mais profunda. A disputa deixa de acontecer apenas pela posição na página de resultados e passa a envolver fatores como qualidade e estrutura das informações dos produtos, reputação, preço, disponibilidade, prazo de entrega, avaliações e capacidade de oferecer dados que uma IA consiga interpretar e comparar.
O Google, por exemplo, lançou em 2026 o Universal Commerce Protocol (UCP), um padrão voltado ao comércio mediado por agentes, abrangendo etapas que vão da descoberta à compra e ao pós-venda. Isso não significa o fim do e-commerce tradicional, significa que ele pode ganhar uma nova camada de intermediação.
Neste novo cenário, hoje, perguntamos: “Onde encontro isso?”, mas amanhã podemos simplesmente dizer: “Preciso disso. Encontre a melhor opção dentro do meu orçamento e compre.” Nesse sentido, o grande desafio para marcas, varejistas e marketplaces não será apenas convencer pessoas. Será também necessário construir relevância, confiança e presença para as máquinas que passarão a ajudá-las a escolher.
Por isso, acredito que a próxima revolução do e-commerce talvez não seja eliminar o consumidor da jornada, mas sim eliminar da jornada aquilo que hoje mais consome seu tempo: a busca.

