Aos 18 anos, Kassio Seefeld entrou no Bradesco sem imaginar que o banco seria uma de suas primeiras escolas de empreendedorismo. Não porque tivesse recebido uma formação empresarial dentro de casa (ele não é filho de empreendedores), mas porque passou a observar de perto negócios, empresários e, principalmente, os diferentes caminhos que uma empresa pode percorrer. Ao longo da carreira, viu negócios prosperarem e também acompanhou empresários que, aparentemente bem-sucedidos, acabaram enfrentando dificuldades. A experiência ajudaria a formar uma das características que hoje ele considera fundamentais para empreender: a capacidade de aprender rapidamente com os erros e entender que resultados são construídos no longo prazo.
Antes do sucesso na TruckPag, porém, Seefeld acumulou os próprios fracassos. Tentou empreender enquanto trabalhava, comprou e vendeu carros, atuou na construção de casas e abriu diferentes frentes de negócio. A maioria não prosperou. O problema, segundo ele, estava menos nas oportunidades e mais na maneira como tentava conduzi-las. “Eu acho que o meu ego era muito grande”, afirma.
A percepção veio acompanhada de outra conclusão: não era possível colocar energia suficiente em um negócio enquanto se tentava administrar vários outros ao mesmo tempo. Foco e constância passaram a fazer parte da equação. “Eu vejo que o foco é talvez um dos principais fatores para que a coisa dê certo. Foco, constância”, diz.
Uma oportunidade escondida em um fracasso
A origem da TruckPag está em um projeto que, inicialmente, deu errado. Em uma empresa de meios de pagamento onde trabalhava, Seefeld recebeu o desafio de atender uma transportadora. A companhia, entretanto, havia desenvolvido sua operação pensando em frotas leves. O modelo não estava preparado para as necessidades do transporte pesado.
A rede de postos era majoritariamente urbana, enquanto caminhões precisavam abastecer em rodovias. O atendimento terminava às 20h, mas os caminhões circulavam durante a madrugada. Havia ainda uma diferença fundamental de escala: enquanto um carro poderia abastecer cerca de 50 litros, um caminhão poderia chegar a 1 mil litros. O projeto não funcionou. O cliente foi embora. Mas a experiência deixou uma pergunta na cabeça de Seefeld: por que não existia uma solução construída especificamente para aquela operação? “A resposta começou a aparecer quando deixei de olhar para o transporte apenas como um mercado potencial e passei a observar sua rotina”, explica.
Um de seus futuros sócios era justamente o proprietário de uma transportadora. Isso permitiu que Seefeld tivesse acesso aos bastidores da operação e passasse por diferentes áreas da empresa, do financeiro ao fiscal e à oficina. “A imersão revelou problemas que dificilmente apareceriam em uma reunião comercial convencional”, recorda Seefeld.
Um exemplo eram pagamentos duplicados a postos de combustível. “Com uma frota de dezenas ou centenas de caminhões, abastecimentos frequentes e uma operação sujeita a mudanças de rota, entregas, coletas e imprevistos, controlar tudo manualmente se tornava uma tarefa complexa. Eu consegui ter a verdade da informação”, resume.
Essa experiência se transformaria em um dos princípios da futura empresa: antes de desenvolver uma tecnologia, entender profundamente o problema que ela deveria resolver.
Sem plano perfeito, mas com convicção
A TruckPag começou a operar em abril de 2019 com uma proposta relativamente simples: fazer a gestão do abastecimento de caminhões, conectando o cartão utilizado na rodovia às operações internas das transportadoras. A empresa nasceu sem uma rodada de investimento e sem um plano de negócios sofisticado. Seefeld estava, inclusive, atravessando um momento financeiro difícil. “Eu não tinha plano de negócio. Tinha convicção”, afirma.
A frase, porém, não significa que ele defenda empreender sem planejamento. Para Seefeld, existe uma diferença entre não esperar que todas as respostas estejam prontas e se lançar sem entender o básico. Especialmente quando se trata de caixa. “O empreendedor que se joga sem o mínimo básico, principalmente falando de caixa, é quase que um suicídio”, afirma.
O bootstrap acabou se tornando parte da identidade da TruckPag. Os três sócios permanecem desde o início, a empresa não captou recursos externos e, segundo Seefeld, não está procurando investimento atualmente. Isso não significa que uma captação esteja descartada no futuro, mas que ela não é uma necessidade para a estratégia atual. “A gente não nasceu para ser vendido”, diz.
Sete anos depois do início da operação, a empresa conta com cerca de 200 colaboradores e construiu um ecossistema de soluções para transportadoras.
O cliente como laboratório
A TruckPag também cresceu de uma maneira que Seefeld considera fundamental: ouvindo os clientes e permitindo que eles apontassem novos problemas. O primeiro produto era voltado ao abastecimento. Depois vieram demandas relacionadas a documentos, pedágios, manutenção e outras etapas da operação. Mas escutar o cliente não significa transformar toda sugestão em produto.
Ao longo da trajetória, a empresa também encerrou iniciativas que pareciam promissoras, mas não se sustentaram financeiramente ou não encontraram o momento adequado. O aprendizado foi tão importante quanto os acertos: uma oportunidade pode ser real e, ainda assim, não ser o negócio certo para aquela empresa naquele momento.
Outro episódio ajudou a mudar a própria maneira como Seefeld recebia críticas. Em uma conversa com um cliente, ouviu que uma plataforma concorrente tinha uma interface mais bonita e entregava mais dados, mas que nada disso seria suficiente se a TruckPag não conseguisse oferecer preço competitivo no posto. “Minha primeira reação foi de irritação. Depois, veio a reflexão. Eu acho que os caras têm razão”, pensou. A partir daquele feedback, a TruckPag criou uma mesa de negociação de diesel para buscar melhores condições de preço. A estrutura acabou se tornando um dos diferenciais da empresa. Para Seefeld, foi mais uma ‘machadada no ego’: entender que ouvir uma crítica não significa perder uma discussão. “Pode significar encontrar uma oportunidade”.
O CEO que continua na estrada
Mesmo com o crescimento da empresa e a estruturação de uma área comercial, Seefeld continua visitando clientes pessoalmente. Ele esteve recentemente em Minas Gerais, viajou para São Paulo e seguiria para Rondônia para participar de um evento do setor. “Minha agenda é parte de uma filosofia de gestão que não diferencia a importância de ouvir uma transportadora pequena ou uma grande operação. Eu já fui pequeno”, afirma.
A lógica é que o cliente menor pode crescer ou simplesmente escolher permanecer pequeno. Em ambos os casos, merece a mesma qualidade de produto. A proximidade também se estende ao motorista, usuário final de uma parte importante das soluções da empresa. Sempre que possível, Seefeld prefere viajar de carro, parar em postos e conversar diretamente com quem está na estrada. “É uma maneira de experimentar a operação que a tecnologia pretende melhorar”.
É uma visão que ajuda a explicar uma característica da TruckPag: tecnologia, para ele, não pode eliminar a compreensão da realidade de quem está do outro lado da tela.
Crescer sem virar um transatlântico burocrático
A tecnologia é desenvolvida internamente na TruckPag. Segundo Seefeld, a área de TI reúne 53 profissionais e todos os produtos possuem desenvolvimento e código próprios. A decisão tem relação com a estratégia de manter velocidade para adaptar a plataforma conforme as necessidades do mercado. Para ele, uma empresa pode crescer e, ao mesmo tempo, preservar a capacidade de mudar rapidamente. “Eu acho que a gente conseguiu ser um transatlântico com a mobilidade do barquinho”, resume.
A frase representa uma preocupação que acompanha a empresa: quanto maior a estrutura, maior o risco de burocratização. Seefeld cita a simplicidade como um dos valores da companhia e afirma que a empresa procura reorganizar rapidamente suas equipes quando surge um gargalo. Se uma fila de integrações com clientes cresce, por exemplo, um squad pode ser direcionado especificamente para resolver o problema.
Na visão do executivo, o diferencial tecnológico não está apenas no código. Está na capacidade das pessoas que desenvolvem o produto de aceitar que uma solução pode levar meses para ser construída e, mesmo assim, não ser adotada pelo mercado. Ou que um produto considerado excelente pode precisar ser alterado porque o cliente mudou.
Da sobrevivência à próxima fase
O crescimento da TruckPag colocou a companhia em uma escala que Seefeld não imaginava quando começou. Em 2025, a empresa transacionou cerca de R$ 2,2 bilhões em diesel e projeta alcançar entre R$ 3,3 bilhões e R$ 3,4 bilhões em 2026. Para 2028, a meta mencionada pelo executivo é superar R$ 5 bilhões transacionados em abastecimento.
Mas os próximos passos não parecem estar restritos a aumentar o volume da operação. Seefeld quer lançar novas empresas e eventualmente adquirir outras companhias. Ao mesmo tempo, começa a enxergar seu papel no ecossistema de maneira diferente. Nos últimos tempos, passou a participar de eventos em universidades, empresas e iniciativas educacionais, muitas vezes sem cobrar pelas palestras. É uma forma, segundo ele, de devolver parte do que recebeu do mercado.
Seefeld chegou aos bilhões não porque tinha todas as respostas no começo, mas porque aprendeu a mudar de ideia quando a realidade mostrava que estava errado. A TruckPag nasceu de um projeto que fracassou, cresceu ouvindo críticas dos clientes e continua sendo conduzida por um CEO que prefere estar na estrada a observar o mercado de longe. Talvez seja justamente essa disposição para ouvir que permita ao ‘transatlântico’ continuar se movendo com a agilidade do ‘barquinho’.


