Novo Hamburgo vive uma transformação demográfica que exigirá mudanças profundas nas políticas públicas nas próximas décadas. Dados do Diagnóstico Situacional da Pessoa Idosa no Município de Novo Hamburgo, estudo realizado pelo Centro Interdisciplinar de Pesquisas em Gerontologia da Universidade Feevale, mostram que o número de moradores com 60 anos ou mais praticamente dobrou em pouco mais de uma década, acompanhando uma tendência observada em todo o Rio Grande do Sul, estado que possui a maior proporção de pessoas idosas do país.
Segundo o levantamento, baseado principalmente no Censo de 2022 do IBGE (mas que utiliza outros bancos de dados), o município conta, atualmente, com 42.622 pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 18,72% da população. Em 2010, esse grupo representava 11,07%, com 26.455 moradores. O crescimento acompanha o aumento da expectativa de vida e a redução da taxa de fecundidade, fenômenos que alteram a estrutura etária da população brasileira.
As projeções nacionais indicam que, até 2070, as pessoas idosas representarão 37,8% da população do Brasil e a expectativa de vida deverá alcançar 83,9 anos. Para os pesquisadores, esse cenário reforça a necessidade de planejamento para garantir qualidade de vida, autonomia e dignidade durante o envelhecimento.
Cidade ainda é considerada jovem, mas envelhece rapidamente
Embora apresente uma Razão de Dependência Total (RDT) de 42,49 — indicador que mostra que há cerca de 42 pessoas dependentes (jovens de 0 a 14 anos e pessoas idosas de 65 anos ou mais) para cada 100 em idade economicamente ativa (15 a 64 anos) — Novo Hamburgo ainda é considerado um município relativamente jovem. Entretanto, a idade mediana da população já é de 37 anos, o que significa que um grande contingente de moradores chegará simultaneamente à terceira idade nas próximas décadas.
O estudo estima que aproximadamente 34 mil pessoas atualmente na faixa etária mediana integrarão futuramente a população idosa, aumentando a demanda por serviços de saúde, assistência social, mobilidade urbana e programas de inclusão. Em relação ao Rio Grande do Sul, a população total acima de 60 anos do município de Novo Hamburgo, corresponde a 2%. Considerando apenas aqueles com 65 anos ou mais, são 73,34 idosos para cada 100 crianças.
Outros dos fenômenos destacados pelo diagnóstico é a “feminização da velhice”. Em Novo Hamburgo, 8.976 pessoas idosas vivem sozinhas, sendo a maioria mulheres. A predominância feminina torna-se ainda mais evidente nas faixas etárias mais avançadas. Entre pessoas de 95 a 99 anos e centenários, a diferença entre homens e mulheres cresce significativamente, evidenciando maior longevidade feminina e, consequentemente, maior vulnerabilidade social e necessidade de políticas específicas de proteção.
Saúde e índices de violência preocupam
Na área da saúde, os pesquisadores identificaram preocupações relacionadas ao estado nutricional da população idosa. Mais da metade (56,53%) apresenta sobrepeso, enquanto 10,08% estão abaixo do peso considerado adequado. Também foi observado elevado consumo de alimentos ultraprocessados, além de baixa participação em atividades coletivas promovidas pela atenção básica de saúde, embora haja maior adesão em grupos voltados ao autocuidado de doenças crônicas e alimentação saudável. Entre as principais causas de morte da população idosa estão neoplasias, infarto, diabetes, doenças cardíacas, transtornos do trato urinário e doença de Alzheimer. O Centro Integrado de Especialidades em Saúde (Cies) da Universidade Feevale auxilia o atendimento público, com dois especialistas em geriatria
O diagnóstico revela, ainda, que as mulheres são as principais vítimas de violência. Foram registrados 241 casos envolvendo mulheres, contra 101 envolvendo homens. Na maior parte das ocorrências, os autores são homens, frequentemente filhos das vítimas e usuários de substâncias entorpecentes.
O tipo de violência mais recorrente é o abuso financeiro e a apropriação indevida dos bens das pessoas idosas. Segundo o estudo, a aposentadoria frequentemente representa parte importante da renda familiar, o que favorece esse tipo de exploração. Também aparecem com frequência casos de negligência e abandono, geralmente associados às dificuldades enfrentadas pelas famílias para cuidar de idosos em situação de maior dependência.
Programa municipal e Centros-Dia estão entre propostas de intervenção
Como propostas de intervenção a partir dos resultados do estudo, os pesquisadores sugerem a implantação de um Programa Municipal de Envelhecimento, desenvolvido em parceria entre o município e a Universidade Feevale. A ideia prevê uma equipe multidisciplinar composta por geriatra, psicólogo, nutricionista, educador físico, fonoaudiólogo e quiropraxista, além da ampliação de grupos de avaliação cognitiva e estímulo à prevenção de doenças.
Outra prioridade seria a construção de Centros-Dia para pessoas idosas, com o intuito de oferecer atendimento durante o período em que familiares trabalham ou estudam. A medida busca evitar institucionalizações precoces, preservar vínculos familiares e reduzir a sobrecarga dos cuidadores.
Também são orientações ampliar o acesso a grupos de prevenção e promoção da saúde voltados à população idosa nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Da mesma forma, é necessário expandir a linha de cuidado em saúde mental para pessoas de meia idade e idosas, com foco em prevenção ao suicídio, ansiedade, estresse, solidão, depressão e violência intrafamiliar.
Conforme a coordenadora do estudo e do Centro Interdisciplinar de Pesquisas em Gerontologia da Feevale, Geraldine Alves dos Santos, o objetivo é aproximar o poder público da realidade vivida pelas pessoas idosas e fornecer subsídios para a elaboração de um plano de metas voltado à garantia dos direitos dessa população. “O estudo busca aproximar o poder público e a sociedade da realidade vivida pelas pessoas idosas em Novo Hamburgo, além de mapear as possibilidades de manutenção e desenvolvimento do envelhecimento bem-sucedido na assistência social, saúde, educação, esporte e lazer. A partir desse levantamento, será possível traçar um plano de metas que oriente providências e políticas públicas para a maior garantia dos direitos da pessoa idosa do município a médio e longo prazo”, afirma.
Com publicação da Editora Feevale, o Diagnóstico Situacional da Pessoa Idosa no Município de Novo Hamburgo tem autoria de Geraldine Alves dos Santos, Rosemari Lorenz Martins e Gabriel Grabowski e reuniu informações de órgãos municipais, estaduais, federais, instituições privadas e organizações da sociedade civil. O estudo completo pode ser acessado, gratuitamente, no link feev.as/pessoa-idosa.


