Imagine chegar a uma emergência e, resguardada a sua privacidade, o médico já encontrar o que precisa saber sobre você: alergias, medicamentos em uso, doenças crônicas, internações e exames recentes. Tudo isso sem depender da memória do paciente, sem necessidade de procurar informações em diferentes sistemas e, principalmente, sem perder tempo reconstruindo uma história clínica que já existe. Esse é o primeiro valor da interoperabilidade.
A virada de chave é quando o dado começa a caminhar junto com o paciente, se transformando em inteligência quando o cuidado acontece. Se antes, hospitais, clínicas, laboratórios, operadoras guardavam seu pedaço da história daquela pessoa, hoje, esses pedaços podem se encontrar. E, com o apoio da inteligência artificial, o que era um amontoado de informações vira um resumo clínico inteligente disponível no exato momento em que o profissional precisa decidir.
A tecnologia amplia a capacidade do médico de enxergar o paciente como um todo de imediato e a decisão clínica continua sendo do profissional. O resumo clínico funciona como um copiloto ao organizar a trajetória do paciente e entregar ao profissional uma visão integrada, em vez de dezenas de telas e centenas de registros isolados.
Mais informação, em menos tempo e no momento certo, como acontece na Unimed Sorocaba, onde o resumo clínico foi incorporado ao processo assistencial a ponto de os médicos afirmarem que já não atendem sem ele. Talvez essa seja uma das demonstrações mais poderosas do valor da tecnologia na saúde, quando ela deixa de ser percebida como uma ferramenta alternativa e passa a fazer parte do próprio ato de cuidar.
Durante décadas, nosso setor digitalizou instituições. Criamos prontuários eletrônicos, sistemas hospitalares, plataformas de laboratório, e produzimos uma quantidade extraordinária de dados. Agora é preciso dar o próximo passo para garantir a continuidade dessa história clínica, porque o paciente não deixa de ser a mesma pessoa quando sai de um hospital e entra em outro. Interoperabilidade não é simplesmente conectar sistemas ou empilhar informações em uma nuvem. É permitir que diferentes plataformas troquem dados de forma segura e padronizada, respeitando de forma inegociável os perfis de autorização, a privacidade e a Lei Geral de Proteção de Dados. Em nosso país, a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) representa uma infraestrutura estratégica para essa transformação.
O desafio agora é transformá-la em valor concreto na ponta. Afinal, guardar o dado é importante, mas fazê-lo circular é fundamental. É justamente nessa direção que a saúde do Estado do Espírito Santo está avançando, construindo uma interoperabilidade abrangente entre hospitais públicos e privados, unidades de atendimento, laboratórios e demais prestadores. No centro dessa estratégia está o Minha Saúde ES: por meio do aplicativo, o cidadão passa a acessar suas informações de saúde e assumir maior domínio sobre o próprio cuidado. O dado deixa de estar preso ao lugar onde foi produzido e passa a acompanhar a pessoa para quem ele realmente importa.
Na emergência, no consultório ou durante uma internação, a informação precisa fluir sem interromper o trabalho do profissional. Por isso, reforço que a melhor interoperabilidade é quase invisível, quando o dado simplesmente chega, organizado e integrado ao fluxo assistencial. É aí que a IA cumpre seu papel mais importante, transformando um enorme volume de dados clínicos em informação compreensível e acionável. Os ganhos se espalham por toda a jornada com menos retrabalho e exames duplicados, menos repetição do próprio histórico, mais contexto para o médico e melhor uso de recursos pelas instituições.
Durante muito tempo falamos sobre interoperabilidade como promessa futura e esse tempo passou. O futuro da saúde não será definido por quem tiver mais dados, mas por quem conseguir transformá-los em melhores decisões. A tecnologia existe, os profissionais já estão usando e os resultados já aparecem. O desafio agora é levar essa realidade para todo o setor.
No fim das contas, a interoperabilidade garante que, onde quer que o cidadão seja atendido, o profissional de saúde tenha conhecimento e segurança para cuidar melhor dele. Quando o dado certo chega à pessoa certa, no momento certo, deixa de ser apenas dado. Vira conhecimento, decisão e principalmente, cuidado.

