
A fisioterapeuta pélvica Daniely Leal, 35 anos, está transformando a dor e as dúvidas de suas pacientes em uma solução inovadora que une ciência, empreendedorismo e biodiversidade amazônica. Natural de Santarém (PA), ela desenvolveu um sabonete íntimo funcional a partir de um resíduo da cadeia do cacau, criando um produto que respeita o equilíbrio da microbiota vaginal e valoriza a bioeconomia regional.
Há mais de uma década dedicada à saúde da mulher, a profissional se deparava com uma pergunta recorrente nos atendimentos: qual é o produto ideal para a higiene íntima feminina? As opções disponíveis priorizavam limpeza, mas ignoravam as características da microbiota vaginal, essencial para a proteção natural do organismo. A inquietação levou a pesquisadora ao doutorado e à busca por uma solução baseada em evidências científicas.
Durante os estudos, Daniely encontrou na biodiversidade amazônica um caminho promissor. A descoberta veio da polpa do cacau, parte do fruto normalmente descartada na produção de chocolate. Em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), ela identificou um lactobacilo capaz de contribuir para o equilíbrio da microbiota vaginal. O resíduo, antes sem valor comercial, tornou-se fonte de um ativo biotecnológico com potencial de aplicação em produtos de saúde.
Para transformar a descoberta em um produto viável, Daniely contou com o apoio da Unidade Embrapii G-Bioforest, de Santarém (PA). A parceria permitiu o desenvolvimento de uma formulação capaz de manter a viabilidade do microrganismo e garantir sua incorporação ao sabonete.
O resultado é a Autris, startup fundada por Daniely, que leva o mesmo nome do produto. O sabonete íntimo funcional já passou por ensaios clínicos, obteve registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e despertou interesse de profissionais de saúde e pacientes. “Se não fosse a Embrapii, essa pesquisa provavelmente seria apenas uma tese de doutorado. Hoje ela se transformou em um produto pronto para chegar ao mercado”, afirma.
Além de empreendedora e pesquisadora, Daniely está prestes a concluir o doutorado e divide o tempo entre a estruturação da startup e a academia. Sua trajetória mostra como ciência, biodiversidade e empreendedorismo podem se conectar para gerar impacto social e econômico, transformando um recurso pouco aproveitado em uma inovação para a saúde das mulheres brasileiras.
Sobre a Embrapii
A Embrapii é uma organização social que atua em cooperação com Instituições Científicas e Tecnológicas (ICTs), públicas ou privadas, para atender ao setor empresarial e fomentar a inovação na indústria. Para isso, conecta centros de pesquisa e empresas, compartilhando os custos da inovação ao aportar recursos não reembolsáveis em projetos que levem à introdução de novos produtos e processos no mercado. Para ter acesso ao modelo, a empresa deve apresentar seu desafio tecnológico à Unidade Embrapii com a competência técnica que se enquadra às necessidades do projeto.