Porto Alegre avançou uma posição e chegou ao terceiro lugar entre os municípios mais competitivos do Brasil. O resultado faz parte da edição 2026 do Ranking de Competitividade dos Municípios, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), que avaliou 423 cidades brasileiras com mais de 80 mil habitantes. A capital gaúcha ficou atrás apenas de Vitória (ES) e Florianópolis (SC), e à frente de cidades como Curitiba (PR) e São Paulo (SP).
Mais do que uma mudança de posição na lista, o resultado é interpretado pela administração municipal como reflexo de um movimento mais amplo de transformação da cidade. O levantamento considera diferentes dimensões que influenciam a capacidade de desenvolvimento dos municípios, incluindo instituições, sociedade, capital humano, inovação, dinamismo econômico, saúde, educação, segurança, saneamento e sustentabilidade.
Para o secretário municipal de Inovação de Porto Alegre, Luiz Carlos Pinto, a competitividade não pode ser explicada por uma única política ou indicador. “Só se resolve ecossistemicamente. Todas as forças da cidade têm que estar envolvidas”. Na avaliação do secretário, o avanço é resultado da combinação entre poder público, empresas, universidades, empreendedores, entidades e iniciativas que, nos últimos anos, passaram a atuar de maneira mais articulada na construção de um ambiente de inovação na Capital gaúcha.
Capital humano no centro da competitividade
Uma das chaves para compreender a posição de Porto Alegre, segundo Luiz Carlos, está na relação entre qualidade de vida, capital humano e capacidade de inovação. O ranking organiza seus indicadores em três grandes dimensões: sociedade, instituições e economia. Na primeira, estão aspectos como saúde, educação, saneamento e segurança. Para o secretário, esses fatores ganharam ainda mais importância em uma economia baseada em conhecimento. Se durante boa parte do século XX a competitividade das cidades esteve associada principalmente a recursos físicos, localização e infraestrutura logística, a disputa atual passa também pela capacidade de atrair e manter pessoas qualificadas. “A sociedade de conhecimento não se baseia tanto na exploração de recursos físicos ou numa posição logística. Ela se baseia nessa capacidade de ter talentos criativos”.
Essa mudança também altera a relação das pessoas com as cidades. Profissionais qualificados têm maior mobilidade e podem escolher onde estudar, trabalhar ou empreender. Nesse contexto, saúde, educação, segurança e qualidade de vida passam a fazer parte da estratégia econômica. “Tem uma cidade que tenha melhores índices de saúde, educação, segurança, significa que as pessoas querem ficar lá ou querem passar por aquela cidade, estar lá durante um certo tempo”, avalia o secretário.
Porto Alegre aparece justamente com destaque no indicador de capital humano, no qual ocupa a primeira posição nacional. Também está em segundo lugar em inovação e dinamismo econômico, depois de subir três posições no levantamento. O avanço, porém, não é uniforme. Luiz Carlos destaca que a cidade melhorou na dimensão sociedade, mas perdeu algumas posições na dimensão institucional. Ele também lembra que os rankings trabalham com dados de diferentes períodos e que determinadas políticas implementadas mais recentemente ainda podem levar algum tempo para aparecer nos indicadores.
A educação é um exemplo. Segundo o secretário, avanços registrados no último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) ainda não devem ter impacto integral nos rankings porque parte das bases utilizadas pelo levantamento é anterior. A leitura, portanto, é de que o desempenho atual representa um estágio de um processo ainda em andamento.
De “ingredientes” a uma estratégia de inovação
A construção desse ecossistema é especialmente relevante porque Porto Alegre já possuía, historicamente, alguns dos elementos associados à inovação. A cidade concentrava universidades, centros de pesquisa, talentos e parques tecnológicos, além de ter sido escolhida por grandes empresas de tecnologia para suas operações no Brasil. Ainda assim, na avaliação de Luiz Carlos, durante algum tempo a cidade perdeu protagonismo para outros polos brasileiros. “A gente de alguma maneira perdeu um pouco o rumo”, afirma. Ele lembra que Porto Alegre tinha “grandes ingredientes”, como lideranças empresariais e políticas, talentos e parques tecnológicos, mas não conseguia transformar esses ativos em uma estratégia articulada. “Parece que a gente tinha os ingredientes, mas não acertava a receita”.
A percepção de que a cidade poderia ficar para trás em um cenário de transformação tecnológica ajudou a estimular uma mobilização entre diferentes setores. Nesse processo, iniciativas como o Pacto Alegre, a chegada do South Summit Brazil e a consolidação do Instituto Caldeira passaram a fazer parte de uma estratégia mais ampla de posicionamento da Capital no mapa da inovação. Na avaliação do secretário, o resultado aparece também em outros indicadores. Porto Alegre está entre os dez melhores ambientes para startups da América Latina e, segundo Luiz Carlos, foi a cidade que mais evoluiu na região em três dos últimos cinco anos. “A gente está conseguindo fazer esse caldo de fermentação que, de alguma maneira, retém talento, atrai talento, gera nova matriz econômica”.
A prefeitura também mantém programas voltados à transformação digital e à aproximação entre startups e setor público. Entre eles estão o Programa de Governo Digital, a Escola de Inovação, a Forja de Inovação, o Inova+ e o Living Lab POA.

Quando inovação também significa inclusão
Para Luiz Carlos, no entanto, construir um ecossistema competitivo não significa apenas atrair startups, investidores e empresas de tecnologia. Um dos desafios é ampliar o acesso de pessoas que tradicionalmente ficaram fora desse circuito. A estratégia inclui iniciativas voltadas às periferias e à formação de novos empreendedores. O Hacka POA é um dos exemplos. O projeto aproxima empreendedores de comunidades periféricas dos espaços tradicionais do ecossistema de inovação e, em uma das ações, levou participantes para dentro do South Summit Brazil. O objetivo, segundo o secretário, não era apenas oferecer acesso gratuito ao evento. Era preparar os empreendedores para ocupar aquele espaço. “A gente pegou os empreendedores, explicou para eles como é estar num evento como esses, como é que eles têm que tentar se relacionar, o que eles podem tentar tirar disso”, relata.
A diferença pode parecer pequena, mas é relevante. Para quem não está habituado à linguagem, às redes e aos códigos do universo de inovação, simplesmente receber um ingresso não garante que a pessoa consiga aproveitar a oportunidade. A prefeitura passou, então, a trabalhar também a dimensão simbólica da inclusão. Empreendedores periféricos foram levados a eventos como o South Summit Brazil e a Feira Brasileira do Varejo, enquanto estudantes da rede pública participaram de atividades de iniciação científica no Instituto Caldeira.
Inclusão digital também é competitividade
A discussão sobre inclusão aparece ainda em outra frente: a digitalização dos serviços públicos. Porto Alegre avançou 31 posições no indicador de telecomunicações, segundo Luiz Carlos, embora ainda tenha espaço para evoluir em relação a outras cidades. A expansão da conectividade é estratégica não apenas para empresas e startups, mas também para a população. À medida que serviços públicos são digitalizados, o acesso à internet passa a ser uma condição para que o cidadão consiga usufruir das novas ferramentas.
Além disso, prefeitura vem trabalhando com iniciativas de conectividade em escolas e prevê a inclusão de infraestrutura de banda larga em novos empreendimentos de habitação social. A ideia é transformar a conexão em uma espécie de janela para acesso a conhecimento, oportunidades e mercados. A lógica também vale para o empreendedorismo. Luiz Carlos cita o potencial da inclusão digital para pequenos negócios e para mulheres que enfrentam dificuldades de inserção no mercado de trabalho tradicional. Com acesso a conhecimento e ferramentas digitais, elas podem desenvolver negócios, vender pela internet e gerar renda local.
O desafio é não parar de avançar
O terceiro lugar no ranking coloca Porto Alegre novamente entre as principais referências nacionais em competitividade. Mas, para Luiz Carlos, o resultado não representa uma linha de chegada. A concentração populacional e as desigualdades econômicas tornam mais complexa a gestão de áreas como saúde, educação e saneamento. É justamente por isso que, na visão do secretário, competitividade precisa ser tratada como um processo permanente. Para ele, o desafio é acompanhar uma realidade que muda cada vez mais rápido, seja pela inteligência artificial, pela robótica, pela automação ou por novas formas de organização da economia. “É um desafio continuado, de ser a melhor versão de si mesmo”, resume.