O empreendedorismo feminino no Brasil vive um ciclo consistente de crescimento. Segundo levantamento do Sebrae, mais de 10,4 milhões de brasileiras são donas de negócios atualmente — um avanço acumulado de cerca de 42% entre 2012 e 2024. O dado revela não apenas a expansão da presença feminina no mercado, mas também uma mudança estrutural na forma como mulheres constroem carreira, renda e autonomia. Esse movimento é impulsionado por diferentes fatores: a busca por independência financeira, a identificação de oportunidades a partir de problemas reais, a necessidade de flexibilidade e o acesso crescente a ferramentas digitais e modelos de negócio mais escaláveis.
Nesse contexto, mulheres de diferentes setores vêm transformando experiências pessoais e profissionais em negócios estruturados, sustentáveis e com impacto real. A seguir, executivas e fundadoras compartilham o que as levou a empreender. Confira!

Da exclusão financeira ao nascimento de um negócio de impacto
“Ver minha família sendo descartada pelo sistema financeiro formal, mesmo com tanto esforço, me marcou profundamente. Foi ali que comecei a entender quem são os verdadeiros invisíveis da economia”, relembra Rafa Cavalcanti, CEO e cofundadora da CloQ.
Natural de Recife (PE), Rafa cresceu em uma família de empreendedores informais da periferia. Seus pais, que trabalhavam com vendas, enfrentaram uma sequência de 17 assaltos em pouco tempo, o que comprometeu o capital necessário para manter o negócio e os levou ao endividamento. Sem recursos para recomeçar, ficaram inadimplentes – excluídos do sistema financeiro. O ciclo de exclusão começou ali e, mais tarde, essa vivência transformou sua história em propósito.
Anos depois, essa vivência se transformou em propósito, quando Rafa compreendeu que o problema não estava apenas no esforço individual, mas na falta de acesso a instrumentos financeiros básicos. “Sem acesso ao crédito, milhões de brasileiros permanecem à margem das oportunidades”, afirma.
A partir dessa realidade, nasceu a CloQ, fintech de impacto social que atua na construção de histórico de crédito positivo, seguro e inclusivo por meio do nano-crédito, ampliando o acesso financeiro para públicos tradicionalmente invisibilizados pelo sistema. Hoje, a empresa já concedeu mais de 30 mil nano-empréstimos e conta com cerca de 12 mil clientes ativos.
Da engenharia civil à criação de um ecossistema de saúde mental
“Minha transição da engenharia civil para a área da tecnologia e da saúde mental aconteceu em um dos momentos mais desafiadores da minha vida. Em 2015, fui desligada da empresa onde trabalhava no mesmo dia em que recebi o diagnóstico de câncer do meu pai. Foi nesse período que me deparei com dificuldades reais de acesso à saúde, especialmente em cidades menores, como Corumbá, no Mato Grosso do Sul, onde meus pais moravam. O déficit de profissionais era significativo, e encontrar um oncologista ou especialista para orientar sobre as melhores opções de tratamento se mostrou um desafio imenso. Tentei buscar informações e até mesmo uma consulta remota antes de deslocar meus pais para São Paulo, mas percebi que essa opção simplesmente não existia na época”, compartilha Tatiana Pimenta, CEO e cofundadora da Vittude, referência no desenvolvimento e gestão estratégica de programas de saúde mental para empresas.
Anos antes, a executiva já havia enfrentado um episódio de depressão e também vivenciado os desafios para acessar atendimento psicológico e psiquiátrico de qualidade, experiências que evidenciaram um problema estrutural no país: a limitação do acesso à saúde mental. A partir dessa vivência pessoal e profissional, fundou a Vittude em 2016, que hoje atende mais de 200 grandes empregadores, impacta mais de 3,5 milhões de pessoas e já captou cerca de R$ 40 milhões em investimentos, consolidando a missão de ampliar o acesso e transformar o cuidado com a saúde mental no Brasil.
A inquietação com o conformismo e a vontade de transformar o caos estrutural do mercado em soluções reais
“Para ter essa coragem de empreender, tive uma referência feminina muito poderosa: a minha mãe. Mesmo com origem humilde, ela construiu uma empresa de material cirúrgico que teve grande impacto em parte do estado de São Paulo. Crescer vendo isso me ensinou que nada era impossível — mesmo quando entramos em um mercado que não dominávamos, mas com disposição para aprender e empreender. Quando fui validar a ideia da Qive com empresas, ouvi de um cliente que ‘se isso funcionar, vocês dominam o Brasil’. Ali eu entendi que não se tratava de um detalhe, mas de um mercado inteiro mal resolvido. E foi aí que eu entrei de cabeça”, compartilha Isis Abbud, co-CEO e cofundadora da Qive, plataforma líder em automação de Contas a Pagar.
Engenheira de Produção de formação, Isis fundou a companhia ao lado de Christian de Cico sem vir originalmente do mercado fiscal ou de contas a pagar. Até perceber que o Brasil já contava com um sistema avançado de documentos fiscais eletrônicos, com o governo controlando há anos boa parte do que é emitido e transacionado, enquanto dentro das empresas a rotina seguia marcada por processos manuais, notas perdidas, conferência na unha, retrabalho, risco e multa.
“Ficou claro que o Brasil havia avançado na digitalização fiscal, mas as empresas ainda tinham enorme dificuldade para transformar essa estrutura em operação eficiente no dia a dia. Aquele começo exigiu muita resiliência, mas também validou a relevância do problema que decidimos enfrentar”, completa. Atualmente, a Qive processa R$ 3 trilhões em notas eletrônicas por ano e já gerenciou mais de 5,7 bilhões de documentos fiscais nos últimos onze anos. Com mais de 300 colaboradores no Brasil, a empresa atende mais de 210 mil companhias no país, entre eles Faber-Castell, Bayer, Casas Bahia e Kraft Heinz.